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Terra da felicidade... e de 'headliners' de grandes festivais
Publicado em: 28/08/2018

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Cantores e bandas baianos viram presença quase obrigatória em eventos musicais país afora. Produtores e artistas analisam por quê

Por Luciano Matos, de Salvador

De 2017 para cá, quase todo festival realizado no Brasil escalou pelo menos um artista baiano em sua programação. BaianaSystem, Larissa Luz, Luedji Luna (foto), ÀTTOOXXÁ, estão entre as atrações mais cotadas, mas vários outros nomes da atual produção musical feita na Bahia estão presentes na grade dos festivais brasileiros. Uma mostra da força que a nova música baiana ganhou nos últimos anos.

Nem sempre foi assim. Mesmo com uma produção que nunca deixou de lançar novidades, durante algum tempo o cenário musical baiano passava batido pelos festivais, com presenças apenas pontuais. Para se ter uma ideia, em uma análise de alguns dos festivais mais importantes e com continuidade nos últimos anos, a presença de baianos passou de três artistas escalados em 2013 e 2014 para mais de 20 atrações em 2017. Em 2018, até agora, já foram mais de 40. 

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O que mudou? Por que a música feita na Bahia hoje é presença quase obrigatória nos festivais pelo Brasil? Para produtores e artistas, vários motivos convergem para esta mudança. Mas entre eles o pensamento mais em comum é a excelente safra de artistas que a Bahia tem produzido.

Para Gabriel Andrade, criador e curador do festival Coala, em São Paulo, a Bahia sempre teve um protagonismo gigante, mas que se acentuou mais ainda nos últimos anos. “São muitos artistas e bandas com trabalhos incríveis e que trazem frescor não só para a música baiana mas para a música brasileira como um todo. Muitos artistas de uma mesma geração produzindo trabalhos incríveis e conquistando os ouvidos das pessoas”, afirma. 

O Coala apostou em nomes baianos em quase todas suas edições, “mas, de fato, em 2018, a Bahia vai tomar conta do nosso palco, o que é um reflexo da força da nova geração de artistas baianos”, diz Andrade. O festival, que já recebeu nomes como Caetano Veloso e Tom Zé, este ano aposta ainda mais forte na nova geração baiana, escalando ÀTTOOXXÁ, Luedji Luna, Baco Exu do Blues e Xênia França em sua programação.

Raoni Knalha, do ÀTTOOXXÁ, em ação: figura popular em festivais

Responsável por um dos primeiros eventos de porte nacional a apostar nos novos artistas baianos, o produtor Pedro Seiler é outro que enxerga essa geração como uma das mais criativas da atualidade. Para ele, a atual cena musical da Bahia vem numa crescente muito forte nos últimos 10 anos. “É uma produção muito plural e vem tomando o Brasil de forma arrebatadora. Acho que um diferencial dessa cena é ter uma linguagem musical universal, mas com um tempero único baiano, seja no rap, no rock, no dub... E ela vem falando com cada vez mais pessoas. Fora que é uma geração de artistas muito fortes”, explica. 

Em 2014, ele realizou em Brasília a primeira edição do Festival Invasão Baiana, reunindo nomes como Vivendo do Ócio, Maglore, Cascadura, Dois em Um, Leitieres Leite & Orkestra Rumpilezz, Baiana System e Lucas Santtana. O evento acabou ganhando também edições no Rio de Janeiro e em São Paulo em anos seguintes. Atualmente, ele faz curadoria também do Sai da Rede, festival itinerante que já passou por várias capitais e que costuma receber artistas baianos. E edição deste ano em Brasília teve Baco Exu do Blues, ÀttooxxÁ e Luedji Luna, no Rio de Janeiro vai repetir o trio e em São Paulo terá Luedji Luna e Giovani Cidreira. 

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Larissa Luz: outra baiana a ganhar o circuito dos festivais

O produtor Anderson Foca, responsável pelo Festival DoSol segue um pensamento parecido ao de Seiler. Ele ressalta que o Bahia Bass (mescla de ritmos afro-baianos com eletrônica e música jamaicana) deu um equilíbrio entre o que sempre se ouviu da Bahia na música pop e a música mais contemporânea da cidade. Bahia Bass tem sido uma forma de se classificar a sonoridade de alguns nomes de destaque dessa cena, como BaianaSystem, ÀttooxxÁ e Larissa Luz. 

“Isso terminou abrindo uma ponte que, na real, sempre foi a vocação da cidade desde a Tropicália, exportar novos sons e, ao mesmo tempo, flertar com a música pop. Acho que essa linguagem se expandiu para toda a cena e a derrocada da indústria do axé deu margem para que isso acontecesse", afirma Foca.

A cantora Larissa Luz reforça a visão que a baixa da indústria da axé music foi preponderante para esse novo momento. Para ela, durante um período pararam de enxergar a cena baiana à fundo. “Para mim, isso se deveu à grande industrialização da música que era produzida aqui. A monopolização dos veículos. Por mais que estivéssemos fazendo coisas ótimas, elas não evoluíam porque não conseguíamos furar a bolha do mercado e alcançar um raio maior”. Para ela, quando a Axé Music saturou com sua fórmula repetitiva, esgarçou o modelo, abrindo espaço para um desejo pela novidade e o crescimento dessa cena atual. 

Larissa surgiu como cantora à frente da banda Ara Ketu, mas escolheu sair dentro de uma estrutura teoricamente mais garantida para estar dentro de um outro contexto e os festivais fazem parte disso. “Vejo os festivais hoje como espaços pra manifestações verdadeiras, espontâneas, para um despejo de uma arte viva. Existe um público grande interessado nisso e tem tudo a ver com o que venho produzindo e praticando", diz a cantora. Ela, que atualmente estrela um musical sobre Elza Soares, é uma das baianas que anda circulando por festivais atualmente, tendo passado pelo Coma, em São Paulo, o Rec Beat, em Recife, o Favela Sounds, em Brasília, o Bananada em Goiânia e já acertada para festivais em Natal, Belém e Salvador. 

O vocalista Russo Passapusso com os companheiros do BaianaSystem

Fator BaianaSystem – Outra razão que contribuiu para que a cena baiana contemporânea alavancasse foi a banda BaianaSystem. Segundo o produtor do Coala, é uma das bandas de maior destaque no Brasil nos últimos anos. “Ela jogou um holofote muito grande para a Bahia, exercendo um papel importante de renovação, de desassociar a Bahia ao Axé dos anos 90”, afirma Gabriel Andrade.

O sucesso do BaianaSystem também é lembrado por Anderson Foca. Para ele, a Bahia não tinha uma banda pop contemporânea chamando atenção e puxando a fila. Ele ressalta como um elemento multiplicador tem um papel importante para cenas regionais. "Basta ver o impacto de Chico Science & Nação Zumbi para a música indie pernambucana", diz. 

Não por acaso, o BaianaSystem foi o grupo que mais girou em festivais pelo Brasil. Desde 2017 até agosto de 2018, o grupo passou por quase todos: Se Rasgum, em Belém; Coala, em São Paulo; Coquetel Molotov, em Recife, duas vezes no Bananada, em Goiânia; Giro Brasil, em Belo Horizonte; BR-135, em São Luís; Coolritiba, em Curitiba; Mada, em Natal, entre outros. Sem contar presença em grandes festivais, como o Pepsi Twist Land, na Praia de Atlântida, no Rio Grande do Sul, e, especialmente, o Rock in Rio e o Lolapalooza, ano passado. A banda teve ainda presença em festivais internacionais, como o SummrStage, em Nova Iorque, e o Roskilde, na Dinamarca. Nos próximos meses, já estão agendados show do Baiana System novamente no Mada, além do Febre, em Belo Horizonte, Timbre, em Uberlândia, e o Queremos no Rio de Janeiro.

A novidade do ano é Luedji, que vem ganhando cada vez mais espaço no cenário nacional e este ano passa por pelo menos sete festivais. Ela é uma das atrações das três edições do Sai na Rede, e ainda se apresenta no Coala, Breve, Vento e Coquetel Molotov. Em momento de bastante evidência na carreira, ela parte, neste mês de agosto, para a primeira turnê nacional, passando por seis cidades do Nordeste e Sudeste.

Há ainda vários outros nomes do cenário baiano que já despontam e começam a aparecer nos festivais, como a banda IFÁ, o Duo B.A.V.I, o rapper Hiran e até nomes do universo roqueiro baiano, como é o caso das bandas Vivendo do Ócio, Canto dos Malditos e Rosa Idiota, estas duas últimas se apresentam este ano no festival do DoSol. Marcado pela diversidade, o cenário musical baiano se consolida definitivamente como um dos mais férteis e interessantes do país. Os festivais já perceberam.

Isso aqui, ô ô, é um pouquinho de Bahia:

- Festival Coala 2018 (São Paulo - SP) - ÀTTØØXXÁ/ Baco Exu do Blues/ Gilberto Gil/ Luedji Luna/ Xênia França

- Festival CoMA – Convenção de Música e Arte 2018 (Brasília - DF) - ÁttooxxÁ/ Maglore/ Xênia França

- Festival Bananada 2018 (Goiânia - GO) - Giovani Cidreira/ Gilberto Gil Refavela/ Àttøøxxá/ Larissa Luz/ BaianaSystem

- Rec Beat 2018 (Recife - PE) - Larissa Luz / Xênia França

- Festival Sai da Rede (Brasília – DF) - Baco Exu do Blues/ ÀttooxxÁ / Luedji Luna 

- Festival Sai da Rede (São Paulo – SP) - Luedji Luna / Giovani Cidreira

- Festival DoSol 2018 (Natal - RN) - Canto dos Malditos na Terra do Nunca/ Rosa Idiota/ Giovani Cidreira (prévia)

- MADA 2018 (Natal – RN) - ÀttooxxÁ/BaianaSystem/ Larissa Luz

- Breve Festival (Belo Horizonte – MG) - Caetano Veloso / BaianaSystem / Luedji Luna

- Festival Vento (São Sebastião – SP) - Luedji Luna/ Xenia França / Maglore

- Festival Coquetel Molotov 2018 (Recife - PE) - (Não foi divulgada programação completa, mas Luedji Luna já está confirmada)

- Festival Timbre (Uberlândia – MG) - BaianaSystem


 

 



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