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New Music Friday, três anos depois
Publicado em: 02/11/2018

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Iniciativa de gravadoras e produtores fonográficos que concentra lançamentos às sextas-feiras continua a valer mas, no Brasil, levantamento da UBC mostra que muitos artistas buscam se destacar em outros dias da semana e não aderem

Por Ricardo Silva, de São Paulo

Em julho de 2015, a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, em inglês) estreou uma iniciativa que prometia dar uma injeção de gás ao mercado de música internacional: a New Music Friday, ou música nova às sextas-feiras, também conhecida como dia global de lançamento. A ideia, autoexplicativa, era concentrar as entregas de novos singles e álbuns no último dia útil da semana, ajudando o ouvinte a “organizar melhor” sua apreciação de conteúdos musicais, “sem ter que esperar dias para desfrutar das obras de seus artistas favoritos”, como definia a IFPI. 

Nomes como a americana Taylor Swift ajudaram a popularizar a iniciativa. Depois do megalançamento de “Look What You Made Me Do”, numa sexta-feira de agosto do ano passado, ela teve nada menos do que oito milhões de streams só no Spotify em menos de 24 horas. Não é caso isolado: nas últimas semanas, nomes como Michael Bublé, Peter Bjorn and John, Luis Fonsi, John Grant, Lil Wayne e Drake lançaram globalmente seus singles em sextas-feiras. 

Jornais, revistas, blogs e sites, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, abraçaram a ideia e elaboram listas semanais de entregas nesse dia. E as próprias plataformas de streaming, aliás, deram sua contribuição ao criar playlists como “New Music Friday” (Spotify) ou “Release Radar” (Apple Music, alimentada sempre às sextas). Ao fazê-lo, estimulam a ação de marketing, que, em sua visão, ajuda a manter a música como um tópico de discussão mundial maciço pelo menos uma vez por semana. 

"A iniciativa do New Music Friday, em 2015, permitiu aos fãs ter acesso a novas músicas no mesmo dia, no mundo todo, em vez de ter que esperar pelos lançamentos em cada país. Foi amplamente aceita pela indústria e pelos fãs. A janela de lançamento global, do primeiro ponto no mundo no qual a música está disponível até o último, se reduziu de mais de cem horas para 16h. Isso, por sua vez, reduziu o risco de pirataria ou vazamento", explica a IFPI em nota enviada à UBC por sua responsável de comunicação, Linzi Goldthorpe. 

No Brasil, uma análise dos lançamentos dos últimos seis meses mostra que as entregas, apesar de majoritariamente às sextas, continuam relativamente espalhadas por toda a semana. Somente nas últimas semanas, Caio Prado (quarta-feira), Cacimbá (sábado), Pabllo Vittar (quinta-feira), Olivia Hime (quarta-feira), Edson Cordeiro (quinta-feira), ÀTTØØXXÁ (quinta-feira), KK Ousado (quinta-feira) foram exceções à regra das sextas.

“A ideia era surpreender, dar o recado e chamar atenção”, resume Pabllo, que optou por um dia alternativo e se destacou no noticiário, recebendo atenção de sites, jornais e revistas para seu curto álbum de 10 canções e só 27 minutos num dia diferente da “superpovoada” sexta-feira. 

Quem também pensa assim é o rapper e produtor americano Dr. Dre. Ele se recusa a lançar às sextas, sejam seus próprios trabalhos, sejam os dos artistas que produz, como Snoop Dogg ou Yella. “Dias específicos de lançamento são o inimigo da criatividade”, descreveu recentemente. “É claro que essa iniciativa está ficando cada vez menos relevante.”

Um dos mais emblemáticos produtores da música independente mundial, o britânico Martin Mills é outro detrator do New Music Friday. Fundador e presidente do Beggars Group, o conglomerado de selosultraindiesque concentra nomes como Adele, Radiohead, Queens of the Stone Age, David Byrne, Pavement, The National, Antony and The Johnsons, Belle and Sebastian e Vampire Weekend, ele crê, basicamente, que a iniciativa da IFPI é voltada para o mainstream musical. “Ao ser uma ação de marketing focada nos grandes, o NMF rouba a atenção dos independentes. Quem não tem o mesmo poder financeiro de promoção desaparece”, afirma o especialista, para quem um dos fatores chave do sucesso no mundo da música é o elemento surpresa. “Institucionalizar o lançamento basicamente mata isso.”

Apesar das restrições de alguns produtores e artistas, fato inegável é que, desde que a data foi implementada, a pirataria — cujo combate é uma das razões alegadas para a concentração dos lançamentos às sextas — caiu mais de 7% mundialmente, segundo a IFPI (graças também, claro, à popularização dos serviços pagos de streaming). E as pluralidade das listas temáticas de sexta-feira de Spotify, Deezer ou Apple Music, ao misturar mainstream e independentes em doses equivalentes, também mostra que, na guerra pela atenção do público das grandes plataformas, grandes e pequenos acabam dividindo o mesmo barco.


 

 



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