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Assim na música como no papel
Publicado em: 11/01/2019

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Três associados ilustres, todos letristas e membros da diretora da UBC, lançam livros, reafirmando os laços milenares entre canções e literatura

Do Rio

Bob Dylan ganhou o Nobel de Literatura. Antonio Cicero foi eleito para a cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras. Mas ainda há quem se surpreenda com entrecruzamentos de literatura e música. Não aqui na UBC. Três associados ilustres, todos da diretoria da associação, estão envolvidos em lançamentos de livros escritos com linguagens e temáticas bem variadas, reafirmando, uma vez mais, os laços milenares entre essas artes.

Na próxima segunda-feira (14), o compositor e escritor Paulo Sérgio Valle apresenta “Cantos e Versos”, um livro que traz um apanhado de textos em prosa que, ao mesclar elementos documentais e ficcionais, ganharam formato de contos e, ocasionalmente, de poemas. “São passagens da minha vida, algumas apenas testemunhadas por mim. Não se trata de um livro de memórias nem de uma autobiografia. Levei seis anos para concluí-lo. São textos esparsos que não obedecem a uma cronologia. É quase um livro anárquico”, descreve o presidente da UBC, parceiro do irmão Marcos Valle no hino da bossa nova “Samba de Verão”, criador de músicas e jingles de sucesso e autor de outros seis livros, entre relatos de viagem, romances e contos.

O lançamento será na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, no Rio de Janeiro, a partir das 19h. E se soma às entregas recentes de obras de Aloysio Reis e Abel Silva. No caso de Reis, que, além de compositor e letrista, é jornalista e diretor na edtora Sony, foi seu livro de estreia. Em “Rio Vermelho e Outros Relatos”, cinco contos baseados em fatos reais se empapam de elementos oníricos, fantásticos e até aterradores, na melhor tradição latino-americana de García Márquez.

“Mas, no meu caso, pesam mais as experiências de leitura com José Saramago, Mario Vargas Llosa e Edgar Allan Poe. Parece impossível mergulhar nas obras desses gênios e, depois, sentar para escrever sem sentir a presença desses espíritos girando em volta do teclado e interferindo na criação”, define o escritor e letrista de canções para artistas variadíssimos, de Roberto Carlos a Xuxa, de Byafra a Marcos Sabino.

A aposta pelo sobrenatural, diz, obedece à própria forma como vê a vida. “Se você não é do tipo de pessoa enfeitiçada pela disciplina, se você se sente incapaz de acreditar cegamente nas realidades que te vendem como únicas, o que chamam de sobrenatural pode parecer, às vezes, mais visível do que essa película frágil que experimentamos entre o despertar e o dormir. Os monstros existem e convivem conosco. Os deuses também. Na hora de colocá-los na literatura, é melhor dar-lhes corpo e nome.”

Em seu décimo primeiro livro, Abel Silva também deu corpo e nome — com muita poesia, como vem fazendo ao longo de exatos 50 anos de carreira — às suas inquietações. Neste caso, bem prosaicas. “Recentemente, fiz uma operação de desvio de septo. Mas não foi um processo fácil. Eu fui adiando isso, dando um chá de cadeira no médico, enquanto escrevia os poemas de um livro que ainda não tinha nome. Já tinha 40 prontos. E adiando sempre a cirurgia. Até que o médico me disse: 'Abel, um poeta precisa de fôlego'. No que ele falou isso, eu respondi: 'você me deu o título do meu livro'. E ainda fiz, em seguida, a cirurgia”, diverte-se o letrista de “Alma” (cuja música foi composta com Sueli Costa e virou sucesso na voz de Simone), “Raios de Luz” (com Cristóvão Bastos, gravada por Barbra Streisand), “Simples Carinho” (com João Donato, gravada por Ângela Ro Ro) e “Festa do Interior” (com Moraes Moreira, gravada por Gal Costa).

“A vida é assunto, tudo é assunto. Do fôlego do primeiro poema à passagem do tempo que permeia vários deles, este livro reflete isso. Tudo com poesia, a mesma que uso para compor minhas letras, mas que flui de um modo próprio, diferente, quando se trata de um livro. A técnica é outra. É o mesmo que ocorre quando um romancista escreve uma peça de teatro e foca mais nos diálogos. Ao não ter a mediação da música, fica mais solto.”

Para Paulo Sérgio, a principal diferença nas escrituras de um livro e de uma música é o tempo. “A letra é escrita em uma semana, no máximo. O livro é imponderável. A letra é inspirada por emoções do momento ou emoções que ficaram na memória. O livro tem um rigor estético maior, e é preciso pensar muito naquilo que vai ser dito.”

Nosso imortal Antonio Cicero evoca a origem comum de literatura e música ao compor. “A primeira poesia que se conhece, a da Grécia clássica, era musicada. A própria expressão 'lírica' vem, é claro, de 'lira'. A poesia lírica se apresentava como canções. Os primeiros poetas não escreviam seus poemas; eles os cantavam, enquanto tocavam a lira, durante festins ou banquetes”, relembra. Ao escrever uma letra, ele se diz principalmente influenciado pela melodia que recebe do parceiro. E até pela personalidade deste ou do intérprete. Ao escrever um poema, o processo é mais livre, sem essas influências. “Fora isso, o trabalho de fazer uma letra é muito parecido com o de fazer um poema (e literatura em geral). Tudo o que sei e sinto, todas as minhas faculdades — razão, emoção, intelecto, sensação, sentimento, memória —, tudo pode entrar em jogo e tudo se confunde no ato de criação", ele conclui. 

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