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Uma nova dimensão sonora
Publicado em: 29/01/2019

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Tecnologia de som chamada de 8D se populariza e ganha milhões de adeptos na internet ao causar sensação de ondas multidirecionais no cérebro; produtores brasileiros explicam como a adotaram

De São Paulo

O nome sugere oito dimensões. Mas a tecnologia de som mais badalada do momento, que conquista milhões de empolgados seguidores em canais especializados no YouTube e na web em geral, é mesmo uma espécie de evolução do estéreo, com um método de gravação (ou adaptação de gravações normais) especial. Chamada de 8D, a técnica evoca ondas sonoras que partem de todas as direções e se “movem pelo cérebro”, como costumam descrever seus adeptos. Artistas e produtores, como Beyoncé, Ariana Grande, Imagine Dragons, Dua Lipa e Maroon 5, além de brasileiros (sobretudo independentes), embarcam no modismo — que, na verdade, não é nada novo e vive, sim, uma espécie de redescobrimento.

Foi nos anos 1980 que o engenheiro de som argentino Hugo Zuccarelli criou o sistema que batizou como holofonia. De forma similar à holografia, que, ao trabalhar com repetições de imagens em 360 graus, cria a ilusão de presença visual em três dimensões, a holofonia também repete sons em diferentes camadas, provocando igualmente uma sensação de apreciação sonora vinda de todas as direções. Diferentemente de uma gravação clássica em estéreo, na qual o som se distribui horizontalmente, na holofonia a distribuição é vertical, “acima” e “abaixo” do ouvinte. Daí o efeito envolvente. Chamou logo a atenção de artistas experimentais e propiciou a gravação do álbum do Pink Floyd “The Final Cut”, já em 1983. Lou Reed e a banda Pearl Jam também estão entre os grandes nomes que lançaram gravações usando o método.

A invenção de Zuccarelli, que hoje também é conhecida como tecnologia ambissônica, foi quase por acaso, quando ele começou a uma série de experimentos. Num deles, em vez de usar microfones instalados num mesmo ponto, com sons captados por canais diferentes, o engenheiro separou os pontos de captação, mantendo diferentes microfones afastados 18 centímetros uns dos outros. O resultado se manifesta nas já famosas “camadas”, tão peculiares e que parecem se deslocar pelo ambiente.

A tecnologia 5D, usada em salas de cinema com o sistema Dolby, produz efeito similar, mas requer o uso de diversas caixas de som espalhadas. O 8D dispensa as caixas e pode ser apreciado só com fones de ouvido comuns (portanto, ao clicar nos links espalhados por este texto para ouvir gravações em 8D, conecte os seus antes).“Trata-se de um efeito que pode ser obtido através de plugins que já usamos para a produção normal”, afirma Rodrigo Silva, produtor musical da Academia da Música Eletrônica, que mantém um canal no YouTube no qual dá dicas gratuitas de produção a quem está começando. 

Em vídeo com dezenas de milhares de visualizações, ele usa recursos de edição simples, como reverbs, e adapta uma gravação do DJ Alok para a tecnologia que vem ganhando popularidade entre produtores de videogames e certas obras audiovisuais de vanguarda, como clipes de realidade aumentada e coisas do gênero. Ao permitir a “dança” das ondas sonoras, música e imagem podem ser associadas para, por exemplo, direcionar a atenção de um jogador a um lugar específico do cenário de um game. Mas as aplicações vão além do mundo virtual. Uma recente exposição sobre Renato Russo no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, por exemplo, usou o princípio num ambiente, associando canções do compositor, cantor e músico ao lugar na sala de onde emergiam as imagens. 

“Ainda não é tão popular na cena rock alternativa brasileira. Comecei a experimentar e consegui que o pessoal do canal 8D Tunes, do YouTube (sediado na Colômbia e com mais de cinco milhões de inscritos), adaptasse uma canção minha”, diz o compositor e produtor mineiro Pedro Baptista, dos projetos Baapz e Alles Club, que lançou a canção “Viajante do Tempo” em 8D há alguns meses. “Na minha experiência no Alles Club, trabalhei muito a questão da reverberação, a busca por uma ambiência espacial. Quando conheci o 8D, pensei: e se eu misturar essa tecnologia que está crescendo com o que estou compondo? Vi uma oportunidade.”

Baptista vê na tecnologia mais uma curiosidade do que, propriamente, um investimento com claro retorno financeiro. Pelo menos no mundo da música independente. “É para ser envolvente, diferente, mas não sei se é propriamente uma aposta do setor puramente musical. Trata-se de uma tecnologia que aparece muito vinculada ao audiovisual, às experimentações nessa área. Em termos financeiros, vejo possível retorno em videoclipes, produções de realidade aumentada, exposições de arte. E, claro, é uma ótima forma de se promover na internet, aproveitando-se do interesse grande das pessoas pelo tema", ele afirma. 

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