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Delcio Carvalho, eterno
Publicado em: 06/04/2019

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Nos 80 anos de nascimento deste gigante compositor — que ainda tem uma porção de criações inéditas —, relembramos sua história, suas parcerias e algumas de suas obras inesquecíveis

Por Kamille Viola, do Rio

Foto de Henrique Sodré

Como compositor, ele teve cerca de 300 músicas gravadas e grandes sucessos. Sua parceria com Dona Ivone Lara é uma das mais celebradas da música brasileira. Como intérprete, não teve a mesma repercussão, mas nem por isso foi menos elogiado. Em 2019, celebram-se os 80 anos de nascimento de Delcio Carvalho, um dos grandes compositores do samba, nascido em 8 de março de 1939. O artista morreu em 12 de novembro de 2013, aos 74 anos, vítima de um câncer gástrico.

Produtora e companheira de Delcio por 34 anos, a jornalista e radialista Bertha Nutels, que é responsável por sua obra, conta que possui muito material do artista, como inúmeras fitas cassete e de rolo, que pretende digitalizar (ela ainda está em busca da verba para isso). Além disso, guarda criações inéditas, que deseja ver lançadas. “Tem muita música sem letra e letra sem música. Quero pegar e dar para os parceiros vivos. A música dele está viva, é só usar”, comenta.

Ela também fará apresentações com o repertório do compositor. “Estou aprendendo canto há dois anos e vou fazer shows. Não quero deixar sumir o nome do Delcio, seria uma injustiça do tamanho de um bonde. Além disso, tem uma história que vai acontecer e ainda não vou contar, é segredo. É uma loucura, as pessoas vão ficar de queixo caído”, diverte-se. “Quando ele se foi, eu disse: ‘Ele não vai morrer.’ A música do Delcio vai ficar. Eu vou fazer 72 anos este ano. Enquanto eu estiver viva, minha função vai ser trabalhar Delcio Carvalho”, garante.

Filha do médico e indigenista Noel Nutels, Bertha conheceu Delcio em 1976, quando fez entrevistas com compositores de samba para a "Enciclopédia da Música Brasileira". “Fui à quadra do Quilombo, a escola que o Candeia criou (em 1975). E lá encontrei uma porção de pessoas que precisava achar, inclusive o Delcio Carvalho. Vou te confessar, ele seria o último homem da face da Terra por quem eu poderia me apaixonar: estava com uma calça xadrez, blusa estampada, meia estampada, pastinha embaixo do braço e bêbado”, ri. “Lá não tinha condição de entrevistar ninguém, estava todo mundo de porre. Trouxe ele para a casa onde ele morava, na Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo (ela vive até hoje em Laranjeiras). Marquei no dia seguinte. Ele veio aqui em casa e era outro ser humano. Entrevistei. Conversa vai, conversa vem, um mês, dois meses... No terceiro mês, você conhece a obra do cara, conhece ele como ser humano... É outro departamento. Fiquei com os quatro pneus arriados, e vivemos juntos por 34 anos”, lembra.

Com Ivone Lara, a maior parceira. Foto de João Lopes

 

Bertha morava com seu segundo companheiro e se separou. Já Delcio era casado desde 1963 com Sylvia de Souxa Carvalho, de quem nunca se divorciou e com quem teve Sueli e Sônia, que morreu aos 5 anos de leucemia. De acordo com Bertha, a morte da filha teria impulsionado o problema do artista com o álcool. Para ela, isso acabou atrapalhando a carreira dele — como acontece com muitos compositores, Delcio não teve o mesmo reconhecimento como intérprete que teve como compositor. Nos últimos dez anos de vida, ela diz, ele melhorou sua relação com a bebida e as coisas foram mudando. “Sinto que, de uns anos para cá, aumentou muito o respeito em relação a ele”, analisa.

Apesar das dificuldades, ela guarda com carinho sua história ao lado dele. “Amo o Delcio até hoje. Além de ser apaixonada por ele, tenho um respeito pela obra dele que você não faz ideia. As letras são fantásticas, e ele também faz música. E não é sambista, ele é compositor: faz fado, forró, funk, bolero, tango…”, enumera. “Conviver com ele não era fácil. Imagina uma pessoa que compõe como ele faz: você está dirigindo, ele está do seu lado (batuca com os dedos). Ele não está ali. Quando ele começava a fazer assim (batuca), ele não estava ali. Você pode falar o que quiser, que ele não está te ouvindo. Ele dizia: 'Música é fazer música.' E ele fazia sempre”, recorda.

Com Jorge Simas, Elizeth Cardoso e Ivor Lancellotti em 1987. Foto de Bertha Nutels

A parceria mais famosa de Delcio Carvalho foi com Dona Ivone Lara, ao lado de quem compôs clássicos como “Sonho Meu”, “Acreditar” e “Alvorecer”. Fizeram mais de 60 canções juntos. Mas ele também assinou músicas com nomes como Zé Kéti, Nei Lopes, Wilson das Neves, Elton Medeiros, Noca da Portela, Monarco e Francis Hime, entre outros. Entre os que o gravaram, estão Ivone Lara, claro, mas também Zeca Pagodinho, Elza Soares, Alcione, Clara Nunes, Gal Costa, Maria Bethânia, Elizeth Cardoso, Roberto Ribeiro, Cauby Peixoto, Nara Leão e Jair Rodrigues.

Zeca fez um dueto com o artista em “Sonho Meu”, no disco “A Lua e o Conhaque” (2000), de Delcio, e regravou a música ao lado de Bethânia no CD/DVD “Quintal do Pagodinho 3” (2016) e no CD/DVD “De Santo Amaro a Xerém” (2018). “Delcio Carvalho foi um dos maiores compositores que eu já conheci. Parceiro de Dona Ivone e mais um monte de gente, cantava muito bem. Tive oportunidade de gravar música dele. Só tenho coisa boa para dizer dele. Deus o tenha em bom lugar”, elogia Zeca.

Com Alcione. Foto de João Lopes

O cantor também é querido e reverenciado pelas novas gerações: foi um dos primeiros artistas da “velha guarda” a endossar o grupo Casuarina, que gravou no disco “Certidão” (2007) a faixa “Tarja Preta”, de Delcio e Sérgio Fonseca. Também registraram “Acreditar” no CD e DVD “Dez Anos de Lapa”, com a participação de Delcio, lançado em 2014. Além disso, a banda fez o show de lançamento do álbum “Lado D de Delcio Carvalho”, que traz parcerias do autor com Dona Ivone, finalizado oito meses antes da morte do artista e lançado no ano seguinte à sua passagem, em 2014. 

“Delcio foi muito mais do que uma aula de samba. Foi uma aula de doçura, de gentileza, de sagacidade. Um dos letristas que mais souberam conjugar a objetividade com a sensibilidade poética”, derrete-se o cantor João Cavalcanti, que foi vocalista do Casuarina até 2017.

Com Mart'nália. Foto de João Jopes

Nascido em Campos dos Goytacazes, no Estado do Rio, Delcio desde cedo teve contato com a música: era filho de um saxofonista e de uma costureira que fazia roupas para blocos de carnaval. Com seu pai, teve as primeiras noções de música. Como cantor, fez parte de conjuntos de baile e da Orquestra de Cicero Ferreira, ainda na cidade natal. Mas, durante muito tempo, conciliou a carreira com outros trabalhos, que exercia para se sustentar.

Em 1956, o artista se mudou para o Rio. Participou de programas de calouros no rádio e se apresentou como cantor de baile em clubes e casas noturnas. Começou a compor no fim da década de 1950, quando fez dois sambas em parceria com Daniel Pereira Santos Júnior, “Dinheiro de Pobre” e “Destino da Saudade”. Mas somente em 1968 teve a primeira canção gravada: foi “Pingo de Felicidade”, pela cantora Christiane. Pouco tempo depois, formou o grupo Lá Vai Samba ao lado de Rubem Confete, Caboclinho e outros artistas. Eles participaram de alguns festivais na Globo e na Record, mas não chegaram a lançar discos.

Em 1970, ingressou na Ala de Compositores da Imperatriz Leopoldinense. Mas só passou a se dedicar à música integralmente em 1972, quando uma canção sua alcançou grande repercussão pela primeira vez. 

"Delcio Carvalho foi um dos maiores compositores que eu já conheci. Só tenho coisa boa para dizer dele."

Zeca Pagodinho

Com Agenor de Oliveira e Wilson das Neves. Foto de Bertha Nutels

“Ele foi técnico de elevador, vendedor de enciclopédia, de discos, qualquer coisa que desse para sobreviver. Um dia, entrou num botequim para tomar café da manhã e ouviu uma música: ‘Quantas belezas deixadas nos cantos da vida…’. Perguntou: ‘Isso aí está tocando desde quando?’ E o cara: ‘O tempo todo.’ Os Originais do Samba tinham gravado “Esperanças Perdidas” (de Delcio e Adeilton Alves de Souza, em um compacto duplo lançado em 1972)! Ele empurrou o café e disse: ‘Dá um conhaque!’. A partir daquele momento, deixou de trabalhar em outras coisas e foi ser compositor”, conta Bertha Nutels.

Naquele mesmo ano, começou a parceria com Dona Ivone Lara. Na noite da morte de Silas de Oliveira, 20 de maio de 1972, ela fez uma letra. Nascia a primeira canção da dupla, “Derradeira Melodia”. Delcio comentou com o Clovis Scarpino que gostaria de usar a melodia dos “Cinco bailes da história do Rio” de Ivone, Silas e Bacalhau. Ele ainda não conhecia Ivone pessoalmente e Clóvis os apresentou. Ela autorizou o uso da melodia no samba. Em seguida lhe deu a melodia de “Alvorecer”, que ganhou letra de Delcio. A música foi a faixa-título do álbum lançado por Clara Nunes em 1974. Naquele ano, Elizeth Cardoso também gravou uma dele no álbum “Mulata Maior”: “Serenou”. No mesmo ano, ela cantou “Igual à Flor”, dele com Neizinho, no disco “Feito em Casa”.

Em 1976, foi a vez de Elizeth registrar “Minha Verdade”, dele com Dona Ivone Lara. Em 1978, Maria Bethânia gravou em seu disco “Álibi” um dueto com Gal Costa em “Sonho Meu”, também de Ivone Lara e Delcio Carvalho. O álbum alcançou grande sucesso: à época, falava-se que tinha ultrapassado a marca de um milhão de cópias vendidas; hoje, há quem diga que, na verdade, foram 800 mil. De qualquer forma, o fato é que foi um divisor de águas na carreira da dupla de compositores. No embalo, surgiram outras criações marcantes dos dois, como “Minha Verdade” e “Acreditar”. 

Com Francis Hime e Ivor Lancellotti. Foto de Bertha Nutels

No ano seguinte, Elizeth registra outra composição de Delcio: “Voltar”, no disco “O Inverno do Meu Tempo”. Foi quando ele finalmente lançou seu primeiro álbum, “Canto de um Povo”. Nele, gravou “Alvorecer”, parceria com Dona Ivone, seu primeiro sucesso como cantor. Foi o início de uma discografia esparsa, a despeito da extensão e qualidade de sua obra como compositor e do talento como intérprete. 

O segundo trabalho, “Amar é Sofrer”, viria apenas em 1987, oito anos depois. O título vem de uma música de Mauro Diniz e Sereno. A produção musical é de Ivor Lancellotti e Jorge Simas. Nove anos depois, em 1996, Delcio resolveu refazer o disco com produção musical de Afonso Machado, rebatizando-o de “Afinal” e acrescentando faixas novas. O álbum conta com a participação do saxofonista Raul Mascarenhas e traz uma uma parceria sua com Ivor Lancellotti (a faixa-título) e outra com Cláudio Jorge (“Coisas da Mangueira”). 

O elogiado “A Lua e o Conhaque” não chegou a demorar tanto: o disco é de 2000 e trouxe composições de Delcio ao lado de Ivor Lancellotti, Elton Medeiros, Noca da Portela e Mario Lago Filho, além da participação de Sivuca. “Profissão Compositor” (2006) contou com 12 músicas inéditas, e Zé Keti e Wilson das Neves estão entre os parceiros.

O boxe “Inédito e Eeterno” (2007) foi composto de três discos: “Roda de Samba”, com direção musical e arranjos de Paulão 7 Cordas; “Encontros Musicais (2007)”, em que Delcio musicou poemas de Cacaso e Capiba, entre outras composições, e “Acústico (2007)”, que, como o nome indica, traz versões desplugadas. Ele mostrou sua versatilidade ao passear pela samba-canção, valsa, frevo, bolero e choro, além do samba. Em 2013, Delcio lançou, ao lado do músico Marcelo Guima, o CD “2 Compassos”. O álbum “Lado D de Delcio Carvalho” foi seu último trabalho: com composições feitas com Dona Ivone Lara, o disco foi finalizado meses antes de sua morte e chegou às lojas no ano seguinte.

Foto de Patrícia Duarte


 

 



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