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Essa festa está show
Publicado em: 25/06/2019

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Novo formato de apresentação musical se populariza e, segundo seus adeptos, permite uma renovação de público única

Por Kamille Viola, do Rio*

Tardezinha, de Thiaguinho. Baile Charme Show, de Gabriel Moura (na foto ao lado, em edição com participação especial de Gerson King Combo). Samba do Zeca, de Zeca Pagodinho. Baile do Almeidinha, de Hamilton de Holanda. Violada, de Bruninho & Davi. O Baile do Nego Véio, de Alexandre Pires. Roda do Lampra, de Rodrigo Lampreia. Churrasco do Teló, de Michel Teló/Som Livre. Embora de estilos musicais tão variados, todos esses eventos têm uma coisa em comum: são festas, formato que vem ganhando cada vez mais espaço nas agendas dos artistas e que tem atraído produtores e até as próprias gravadoras. 

A principal vantagem, repetem seus produtores quase em uníssono, é poder promover edições bastante diferentes entre si, com convidados mil, renovando o público e também atraindo mais de uma vez os mesmos fãs que buscam a mesma experiência, mas de um jeito distinto. 

Nisso apostou o bandolinista Hamilton de Holanda quando criou, lá em 2012, uma das pioneiras na nova leva de festas/shows, o Baile do Almeidinha, uma gafieira no Circo Voador, casa de shows no Centro do Rio de Janeiro. Buscava seguir a tradição dos bailes comandados no passado pela Orquestra Tabajara e por Paulo Moura ali mesmo. No palco, ele é acompanhado por uma banda fixa do projeto. O repertório mistura clássicos da música brasileira e composições autorais. 


Hamilton de Holanda recebe Roberta Sá durante uma edição da sua festa

Deu tão certo que começou a viajar pelo Brasil e até pelo exterior, além de virar disco em 2015. Por lá, passaram inúmeros convidados, entre eles Diogo Nogueira, Yamandu Costa, Carlos Malta, João Bosco, Maria Gadú, Beth Carvalho, Zélia Duncan, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Pedro Luís, Roberta Sá e BNegão.

“Para mim, é uma maneira de estar mais no Rio também, porque eu viajo muito, e ter um evento residente seria uma chance de ficar aqui e contribuir mais com a cidade, reunindo músicos, os artistas e os produtores. O baile acaba sendo um ponto de encontro. Essa atmosfera de festa também deixa uma leveza que propicia encontros que geram outros trabalhos. Fora que tem o bem-estar da gente ali com o público. A ideia surgiu ali no backstage e está aí até hoje, prestes a completar sete anos”, comemora Hamilton de Holanda.

No caso da dupla Bruninho e Davi, a ideia é oposta: não parar de viajar. Naturais de Campo Grande, eles têm levado seu som sertanejo autoral, desde o ano passado, a literalmente todas as regiões do Brasil, com a festa Violada. “É mais do que uma festa, é uma grande experiência. São três horas de duração e a proposta de envolver todo mundo”, eles definem. Seja em Alagoas, em Santa Catarina, em São Paulo ou em Minas, o público facilmente alcança as milhares de pessoas a cada edição, com produção caprichada e convidados variados. A proximidade entre público e artistas é tanta que quase não dá para distingui-los. Fica uma sensação de estar num minifestival, mas que gira principalmente em torno da obra da dupla. 

O público misturado ao palco e à decoração durante uma edição da Violada

Longe do universo do sertanejo, Gabriel Moura foi outro que lançou sua própria festa no ano passado. Inspirado nos antigos bailes do tio, Paulo Moura, “um grande mestre de cerimônias”, como ele define, Gabriel apostou no charme. Seu Baile Charme Show já teve duas edições, no Rio, e uma próxima está prevista para agosto. Seu Jorge, Marcelo D2, Hyldon, Fernanda Abreu, Priscila Tossan e Paula Lima foram alguns dos artistas que participaram. Ele conta que teve a ideia de fazer uma festa porque suas músicas são dançantes e não cabiam nas constantes apresentações que vinha fazendo em teatros. No palco, é acompanhado por uma big band e canta hits da música negra brasileira do passado e de hoje, incluindo algumas canções de seu repertório.

“Senti a necessidade de fazer um show no qual as pessoas pudessem ficar em pé já direto, sem ser só no final. Então, comecei a pensar no baile. Você presenteia o público com um evento com diversas atrações, tem DJ, videomapping, os artistas que vão dar canja... Você faz um evento e ganha uma outra parcela de público, formada por pessoas que não foram ali exatamente para te ver, mas para se divertir e ver todos aqueles artistas que você coloca na festa, e que vão descobrir o seu trabalho ali”, analisa ele. 

A proximidade e a possibilidade de ter uma experiência única, especial, estão por trás de algumas iniciativas de gravadoras, como a Som Livre, que também vêm investindo em festas estreladas por seu elenco musical. Durante a superfeira de música, inovação e audiovisual Rio2C, em abril, Alexandre Wesley, diretor de festas e festivais do selo, citou as festas da marca Slap, com nomes novos e alternativos lançados por eles, e Festeja, um verdadeiro festival com artistas do universo sertanejo que, lançado em 2012, teve edições recentes em lugares como Belo Horizonte, São José do Rio Preto (SP), Juiz de Fora (MG), Recife e Cuiabá. 

Outra iniciativa da gravadora é o Churrasco do Teló, um evento exclusivo que põe alguns poucos fãs privilegiados e o cantor e compositor Michel Teló num mesmo espaço intimista e acolhedor, com clima de festa. 

Michel Teló entrega churrasco ao público durante a festa promovida pela Som Livre

“Somos agentes dos nossos artistas e buscamos apresentá-los de formas variadas, sejam shows, festas, festivais. Todo formato é válido”, afirmou Wesley, ressaltando que as festas estão mesmo na moda e devem continuar a proliferar pelo país. 

Claro que nem tudo são flores, porém. Organizar um evento assim, principalmente sem o apoio de uma grande gravadora, é mais difícil do que fazer mais um show comum. “É um dispêndio de energia gigantesco, uma logística difícil de fazer, agendar tudo isso... O artista, quando começou a pensar sua arte, provavelmente não imaginava que iria precisar usar esses artifícios para poder levar o seu trabalho ao público. Mas é um artifício possível, e dá para se fazer com amor e com algo que possa ser relevante para você e para o público”, raciocina Gabriel Moura. “Acho que é um tipo de evento que veio para ficar, é uma coisa da modernidade do mundo mesmo: as pessoas hoje têm muita informação, vão à internet e abrem seis páginas ao mesmo tempo: em uma estão ouvindo música, na outra, vendo vídeo, na outra, respondendo no chat. É a realidade de hoje, a gente tem que se adaptar.”

*Colaboração de Alessandro Soler, do Rio


 

 



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