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Minha primeira demo: lembranças de uma charmosa forma de divulgação
Publicado em: 10/02/2021

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Fitas gravadas "toscamente" viram objetos de culto e, lá fora, podem alcançar a casa do milhão de reais; por aqui, artistas falam das suas primeiras gravações, que, na era digital, ganharam novas formas

Por Kamille Viola, do Rio 

Recentemente, uma fita demo rara do Radiohead (foto), do tempo em que a banda ainda se chamava On a Friday, foi vendida por 6 mil libras (mais de R$ 44.600) em um leilão na Omega Auctions, especializada em memorabilia de música. Com seis faixas, das quais três permanecem inéditas em disco, o registro traz capa e encarte feitos pelo vocalista, Thom Yorke, que também escreveu nos adesivos colados na própria fita. Não se sabe a data exata do registro, mas acredita-se que tenha sido feito depois que os integrantes deixaram a escola – e antes de assinarem com a EMI, em 1991. A notícia ganhou o mundo e jogou luz sobre essas fitinhas, que já foram um item indispensável na carreira de bandas em busca de um contrato com uma grande gravadora.  

Outra demo histórica é “That’ll Be The Day”, de 1958, do grupo The Quarrymen — que trazia entre os integrantes John Lennon, Paul McCartney e George Harrison, dos Beatles —, avaliada entre 150 e 200 mil libras (entre cerca de R$ 1,16 milhão e R$ 1,48 milhão). Já a primeira demo de David Bowie, com o grupo The Konrads, foi vendida por 39.360 libras (mais de R$ 292 mil) em 2018. No Brasil, embora não se saiba de nenhuma que tenha atingido cifras tão altas, as fitas demo, que tiveram seu auge nos anos 1990, foram importantes para a carreira de diversos artistas. 

O nome “demo”, por sinal, vem de demonstration tape (“fita de demonstração”, em inglês). John Ulhoa, do Pato Fu, lembra que elas eram a principal maneira de se tentar chegar às gravadoras, aos contratantes de shows e aos festivais independentes. Mas, muitas vezes, acabam sendo mais que isso:“Elas eram consumidas avidamente por fãs das bandas como eram, em toda sua tosquice e charme amador. Não eram só uma estratégia para se chegar a um outro estágio na carreira, eram o próprio objeto de desejo, que as bandas carregavam na mochila e exibiam com orgulho, vendiam nos shows e mandavam para serem resenhadas nos zines.”

Pato Fu: demo faz sucesso no SoundCloud

 

O artista conta que a “Pato Fu Demo” (eles juram que o trocadilho não foi intencional), de 1992, hoje disponível no SoundCloud, foi fundamental para a carreira do grupo mineiro. “Era uma simples gravação de ensaio, bem caseira, mas teve uma resposta que eu nunca tive com nenhum de meus outros projetos musicais. Mandamos para bastante gente, as pessoas nos escreviam de volta, muito entusiasmadas. Escrever de volta já era raro (vale lembrar que era uma época pré-internet), um retorno assim tão empolgado nos deixou animados com o que estávamos fazendo”, diz. 

O músico explica que eles mandaram a fita para todas as gravadoras da época, redações de jornais, revistas e fanzines. “Teve uma estratégia: fomos ao Mercado Municipal (de Belo Horizonte) e compramos o queijo minas mais fedorento que achamos. Ia embalado junto da fita e de um press release da banda. A ideia era que o pacote não passasse batido ao chegar ao destinatário”, ri. A tática deu certo. “Recebemos quase que só críticas positivas, exceto uma, de uma revista de metal, que só elogiou o queijo.”

Para ele, a demo foi importante para que o Pato Fu conseguisse lançar o álbum de estreia, “Rotomusic de Liquidificapum” (1993). “Ela mostrou que a gente poderia gravar bem mesmo com poucos recursos, porque era um som ‘pronto’ e original, chamava a atenção de um público de rock que estava sendo formado naquela época. Acho que isso animou o João Eduardo, dono da gravadora Cogumelo, que nos contratou para lançar nossa estreia em vinil. A ‘Pato Fu Demo’ acabou servindo de base pros nossos dois primeiros álbuns lançados por gravadoras”, revela John. 

Do mesmo ano da fita do Pato Fu, 1992, é a demo homônima do grupo Little Quail And The Mad Birds, liderado por Gabriel Thomaz, hoje à frente do Autoramas. Ele conta que as bandas da geração anterior em Brasília — onde o Little Quail foi formado —, como Legião Urbana e Plebe Rude, fizeram demos para mostrar seu trabalho às gravadoras. No entanto, inspirado em bandas do heavy metal da época, ele teve a ideia de vender sua fita. “Eu ia nas lojas de disco e os donos falavam: ‘Não tem disco do Little Quail? Por que você não faz igual à galera do metal? Vem muita gente pedir Little Quail aqui.’ Fiz dez e deixei numa loja. Pensei: ‘Ah, vai demorar uns seis meses para vender essas. Quem vai querer comprar uma fita com uma capa xerocada (risos)?’ Deixei as dez ao meio-dia. Seis da tarde, o cara da loja me ligou: ‘Gabriel, traz mais dez amanhã, já vendemos todas’”, diz.

Além de ter se espalhado pelo boca a boca entre os fãs, a fita contou também com a obstinação de Gabriel, que sempre levava algumas cópias com ele quando saía à noite, caso encontrasse algum jornalista ou alguém da indústria da música. “Quando eu ia para o Rio de Janeiro, saía com jaqueta de couro naquele calor. Ninguém entendia, mas era o meu case de levar fitas. Eu ia com cinco, seis dentro da jaqueta”, lembra ele. “Além disso, o público queria muito as músicas, comprar a nossa demo. Então eu, sozinho, gravei, rebobinei, xeroquei a capa, cortei, dobrei o encarte e colei os adesivos internos das fitas duas mil vezes. Nem eu acredito nisso. Só acredito porque todas elas estão numeradas”, ri o cantor e compositor.

O Autoramas. Foto: Paulo Aguiar

 

Uma delas foi parar na mão do produtor Carlos Eduardo Miranda, que primeiro incluiu o grupo na coletânea “A Vez do Brasil”, da Rádio Eldorado, e depois lançou o álbum de estreia do trio brasiliense, “Lírou Quêiol en de Méd Bârds” (1993), pelo selo Banguela, da Warner. A banda depois soltou o disco “A primeira vez que você me beijou” (1996), pela Virgin/EMI, e um EP, de 1998. Àquela altura, o grupo já estava chegando ao fim, depois de muitos desentendimentos, mas Gabriel Thomaz seguia compondo. Chegou a fazer shows ainda sob o nome Little Quail, com outro baterista, e recebeu a proposta de gravar uma demo bancada por uma gravadora. Gravou vocais e instrumentos — à exceção da bateria, substituída por loops, já que não toca o instrumento — e registrou com a ajuda do produtor Carlo Bartolini. A gravadora não quis o material, mas pagou pela gravação.

Com aquele repertório inédito, Gabriel se mudou para o Rio, formou o Autoramas, pegou metade das músicas, fez uma nova capa e transformou na demo da sua nova banda. “Essa fita começou a rolar bem para caramba, comecei a vender, fiz muitas cópias dela — não tantas quanto da do Little Quail, mas umas 500, também uma por uma. Isso gerou interesse de gente, até o cara da gravadora, que nunca tinha me respondido, chegou a me ligar, com exatamente a mesma gravação. Acabou servindo para as duas funções: ser uma fita de demonstração e também um produto vendável”, recorda ele.

O amor pelo formato é tamanho que o artista reuniu histórias por trás de demos marcantes daquele período, colecionadas por ele, no livro em quadrinhos “Magnéticos 90: a geração do rock brasileiro lançada em fita cassete” (2016), com desenhos de Daniel Juca. Para ele, embora hoje as gravações sejam muito mais baratas e o streaming tenha facilitado a distribuição de música, a magia das fitas demo faz falta. “Ao mesmo tempo que você vendia e demonstrava, isso era um material de marketing. Você entregava ela na mão das pessoas, fazia um contato, seduzia a pessoa ali, de alguma forma, para que ela curtisse o som, conhecesse a banda, fosse no seu show”, acredita.

As 'demos' da era digital

Hoje em dia, com a internet, apostar em alguma mídia física não é mais necessário para chegar às pessoas da indústria, à imprensa ou ao público. A dupla Anavitória, por exemplo, foi contratada pelo empresário Felipe Simas ao enviar um vídeo de um cover para ele. Enviar links de streaming é muito mais fácil e barato. No entanto, para John Ulhoa, esses materiais têm seu charme. "Os formatos físicos, como CD, cassete e vinil, ainda são fetiches válidos para divulgação. A maioria das pessoas vai ouvir mesmo é o streaming, mas ter um objeto desses em mãos vai fazer você prestar mais atenção naquele artista específico. Acho que é legal ter uma mistura dessas coisas, investir mais num ou noutro dependendo do segmento", defende.

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