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Chuva de talentos no Agreste
Publicado em: 28/07/2017

Linda homenagem a Belchior, shows memoráveis e mais de 500 atrações de diversas artes marcam o Festival de Inverno de Garanhuns, cuja 27ª edição chega ao fim neste fim de semana

Por Bruno Albertim, de Garanhuns (PE)
Fotos: Secult-PE/Fundarpe


Se o público apenas se mantiver constante — e a expectativa é de que aumente neste sábado (29), na noite de encerramento —, pelo menos um milhão de pessoas terá passado pelos dez dias do Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), a charmosa cidade de clima ameno no Agreste de Pernambuco onde há 26 anos acontece uma das maiores reuniões de expressões da cultura brasileira num só lugar do país a cada mês de julho. Com cerca de 500 atrações em várias linguagens artísticas (música, dança, teatro, artes plásticas), apenas de shows musicais a grade de programação reúne umas duzentas apresentações neste festival que, ao longo do tempo, e com a presença de ícones como Gal Costa, Ney Matogrosso e Elza Soares, entre muitos outros, possui um dos escopos de maior musculatura em eventos do tipo.

Este ano, o FIG, que termina com o show dançante de Fernanda Abreu no palco principal e o novo intimismo eletrônico de Marina Lima em seu projeto com a banda paraense Strobo no mais alternativo Palco Pop, começou na quinta-feira, 21 de julho, com um já antológico Tributo a Belchior. “Foi meio que uma decisão natural escolher o nome de Belchior, não uma iniciativa oficialesca forçada. Há mesmo um grande sentimento de se rever e se repensar sua obra”, diz o diretor e ator André Brasileiro, coordenador artístico da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, ligada ao governo do estado, e também do festival.

Além de teatro, galeria de artes visuais, cinema e praça literária, o FIG conta com palcos espalhados pelos diversos palcos da cidade, de acordo com a sonoridade proposta: pop, instrumental, forró e música de câmara, esta oferecida dentro da Catedral de Santo Antônio, em parceria com o Conservatório Pernambucano de Música. Há também um pequeno palco montado diante do Som da Rural, o veículo sonorizado do agitador cultural Roger de Renor, antigo dono e produtor da Soparia, bar recifense dos anos 90 onde Chico Science, Nação Zumbi, Mundo Livre S.A, Otto e os nomes fundamentais do mangue beat eclodiram. Arena de vanguarda, o point recebeu da provocativamente lírica banda Francisco, El Lombre à veterana e sempre ferina Ângela Rô
Rô.

O palco principal fica na praça cujo nome homenageia um dos grandes filhos da cidade, Mestre Dominguinhos, local por onde, todas as noites, entre 50 mil e 100 mil pessoas circularam. Foi ali que teve abrigo o Tributo a Belchior, um show que, sem desgaste do termo, pode ser considerado histórico em qualquer sentido. Concebido pelo diretor artístico André Brasileiro e pelo maestro pernambucano Juliano Holanda, o espetáculo foi um daqueles momentos em que tantos e tão
gigantescos intérpretes uniram vozes pela obra de um único e não menor projeto artístico.

O arcoverdense Lira, ex-Cordel do Fogo Encantado, afiou sua expressão entre o canto e a récita para alcançar uma dimensão ainda mais agreste à Divina Comédia Humana. A plasticidade dos arranjos desenhados por Juliano Holanda tanto respeitavam a  concepção original das composições como içavam as melodias de Belchior para mais perto da personalidade musical da cada voz escalada para o concerto.

Capaz de percorrer pontos opostos da escala vocal em segundos, soprano de faca laminosa na garganta, a paulistana Tulipa Ruiz confirmou, novamente, porque é a voz que obriga o pop brasileiro a redefinir respirações. Parecia imprimir cada célula de eletricidade de Garanhuns ao conferir tantas camadas sonoras à pouco conhecida “Passeio”, uma canção sobre uma geografia afetivamente personalíssima de São Paulo. Uma canção que parece ter sido feita para unir Belchior e Tulipa.



Antigo amigo e parceiro de Belchior, Ednardo cantava com certeza mítica “Mucuripe”, a canção que viu ser escrita pelo homenageado e por Fagner no Bar do Anísio de 1974, a catedral boêmia da referencial cena musical cearense dos anos 70. Bardo rocker de uma pós-verdade pop, o recifense Juvenil Silva fez uma tradução matadora de, claro, “Coração Selvagem”. Com sua Banda dos Corações Selvagens, ele tem, há alguns anos, mergulhando em novos sentidos da obra de Belchior.

Cida Moreira imprimiu um arco assombrosamente épico para a aparentemente prosaica “Hora do Almoço”: o cotidiano descrito na letra de Belchior ganhou sopros épicos na voz de trovão de Cida. Estrela atemporal, a veteraníssima Ângela Rô Rô fez de “Paralelas” um blues definitivamente apocalíptico. Se o espetáculo surge e o morre no Festival de Inverno de Garanhuns, cada um desses intérpretes sai dali com a certeza de que, se desejar, pode incluir com autoridade uma canção do cearense em seu próximo álbum.

A programação teve ainda shows não menos memoráveis de nomes como Geraldo Azevedo, Herbert Lucena, Lucas Santanna, Banda Eddie, BaianaSystem, Curumin, Fafá de Belém, Ava Rocha, Mariene de Castro, Mart’nália, Tibério Azul, Mariana Aydar, Spok Frevo Orquestra, Zé Ricardo com participação de Sandra de Sá e Simone Mazzer. “Esse é um festival que abre muitas conexões, faz ponte para outros festivais, mídia especializada, além de ser um lugar realmente incrível, com um público maravilhoso, de se tocar”, diz o pernambucano Fábio Trummer, vocalista da Banda Eddie, que agitou o público da praça principal com seu rock-frevo.

Este ano, por sinal, o FIG contou com uma plataforma especial, capitaneada pelas produtoras Priscila Melo e Helô Aydar, que reuniu, durante dois dias, artistas, distribuidores, empresários e produtores dos principais festivais de música do País, do Rock in Rio ao pernambucano Rec Beat. “A ideia é aproveitar a grande circulação do FIG para azeitar a relação e fazer com que os artistas possam melhor entender e percorrer os atuais caminhos do mercado de música”, diz Priscila.

Integralmente patrocinado com dinheiro público, o FIG de 2017 teve R$ 6,6 milhões de orçamento. “Para participar, é preciso se inscrever através da convocatória pública”, diz o coordenador André Brasileiro, informando que, depois de habilitados, os aprovados passam por análises de uma comissão formada pelo poder público e sociedade civil para entrar na grade. O que requer documentação em dia. Este ano, por exemplo, o tropicalista Tom Zé teve que ser substituído por Zeca Pagodinho porque sua produtora não tinha em dia alguns dos documentos necessários. “A ideia é, sim, buscar patrocínio com a iniciativa privada, mas sem deixar, claro, que o empresariado tenha interferência direta na qualidade da grade artística”, diz Brasileiro.
 

 

 



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