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Os Paralamas do Sucesso, de volta às raízes
Publicado em: 24/08/2017

Bi Ribeiro comenta as motivações, os insights e as referências por trás de “Sinais do Sim”, primeiro álbum inédito do grupo em oito anos

Por Kamille Viola, do Rio
Foto de Mauricio Valladares

Foram oito anos até que o novo disco dos Paralamas do Sucesso, "Sinais do Sim", viesse à luz. O anterior, "Brasil Afora", era de 2009. O motivo? Errou quem pensou em bloqueio criativo ou algo do gênero. A culpa do hiato foi da atribulada agenda de shows do grupo, que durante muito tempo não deu uma brecha para que Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone se reunissem para compor material novo.

"Nosso negócio é mesmo tocar. Enquanto tiver alguém querendo ouvir, nós vamos. Fizemos mesmo bastantes shows do 'Brasil Afora'. Quando vimos, estava todo mundo da nossa época comemorando 30 anos (de carreira): Titãs, Kid Abelha, Barão (Vermelho). Quisemos também", justifica o baixista Bi Ribeiro. "Esse show ficou tão bom que, um ano depois, tiramos os '30 anos' do nome e continuamos nessa história, todo esse tempo. O Herbert (vocalista e letrista do grupo) é muito produtivo, mas, durante muito tempo, a gente não conseguiu vir para cá, para o estúdio do Barone, que é onde se reúne para criar", conta.

VEJA MAIS: O lyric video da canção “Sinais do Sim”
 


De dois anos para cá, eles conseguiram. Duas vezes por semana, mais exatamente. "Não pensávamos em fazer disco, necessariamente, mas sim em produzir. É bom isso de a arte ser viva. A gente tem vontade de fazer coisas novas. Começamos a trabalhar em umas ideias que tinham a cara do que queríamos comunicar, inclusive as músicas que não eram nossas. Não queríamos que fosse muito extenso, porque ninguém vai ouvir um disco inteiro se ele for muito longo", segue o baixista.

Apesar de vivermos em uma época em que mudou a forma de se escutar música — saíram os álbuns, entraram as playlists —, o trio não quis abrir mão de fazer um disco inteiro, ainda que com alguma divergência interna. "O João começou a questionar isso, ele disse: 'Vamos lançando, soltando as músicas aos poucos.' Mas eu e Herbert ainda gostamos de fazer o trabalho inteiro, com uma proposta fechada. A gente se acostumou a ouvir música assim, é difícil de repente mudar para algo completamente diferente. É claro que buscamos acompanhar as mudanças, estamos nas plataformas digitais, no streaming, mas ainda gostamos desse formato", comenta Bi, que comemora a volta do interesse pelos LPs. "A minha filha tem 15 anos e ouve vinil. Ela também escuta música no celular e tal, mas em casa ouve vinil. É um ritual. Eu adoro, sou viciado mesmo. Nunca me desfiz dos meus discos; pelo contrário, fui absorvendo coleções de quem não queria mais, então a minha tem bastante coisa", diverte-se.

Produzido por Mario Caldato Jr., "Sinais do sim" bem que poderia caber em um LP clássico, de 12 polegadas, já que é enxuto: conta com 11 faixas. A capa traz a foto de uma escultura do artista plástico Barrão (também autor do trabalho que está na capa de "Hey Na Na", de 1998). A sonoridade faz referência ao que Herbert, Bi e Barone mais ouviam quando formaram o grupo: o rock. Bi explica: "É o disco que mais reflete nossas primeiras influências, as que nos levaram a tocar: o rock dos anos 60 e 70, de bandas como Led Zeppelin e The Who. Logo vieram o punk e o pós-punk. Então, quando a gente foi surfar aquela onda, ela já estava para trás. Já tinha um rock mais moderno, o reggae, e acabamos indo por outros caminhos. Agora, saiu dessa forma, remete a esse som mais antigo."

Um exemplo é a faixa-título, que traz apenas o power trio formado por Herbert, Bi e Barone. A música é uma das poucas politizadas no disco, permeado de canções de amor ou contemplativas. "A contestação em nossas músicas sempre foi uma coisa natural. Os discos refletem o momento que estamos vivendo, e nós estamos passando por um descontentamento. Mas ele tem um tom otimista, que também é uma forma de manifestação, olhar para a frente e tentar achar alguma esperança."

"A gente sempre procura abraçar e entender os novos artistas"

Bi Ribeiro, baixista do Paralamas do Sucesso

A outra provocação do álbum é "Medo do Medo", música lançada em 2007 pela rapper portuguesa Capicua (dela e de João Ruas), de versos como: "Eles têm medo/de que não tenhamos medo/medo de Deus/E medo da polícia". "Foi o Hermano (Vianna, antropólogo e pesquisador musical), irmão do Herbert, que nos mostrou, como curiosidade. Gostamos muito da letra e fizemos uma versão mais rock'n'roll. Também adaptamos a letra, para fazer mais sentido no português do Brasil", comenta.

De Portugal, eles foram até a Argentina buscar a outra versão que está em "Sinais do Sim": "Cuando Pase el Temblor", de Gustavo Cerati (1959-2014), vocalista da banda argentina Soda Stereo (de quem o Paralamas já tinha feito uma versão, "De Música Ligeira", em 1996 — a mesma que virou "À Sua Maneira" nas mãos do Capital Inicial, em 2002). "Para nós, é importante trilhar novos horizontes, outros panoramas. Sempre gostamos de namorar outras culturas. Mas o Soda Stereo faz parte da nossa história. No começo dos anos 90, a gente tocava mais na Argentina do que no Brasil. É muito nosso universo", comenta Bi Ribeiro. "Uma época, chegamos a pensar em fazer um disco de rock latino-americano, mas passamos para outro projeto e acabamos deixando para lá. Depois, acabamos resgatando essa canção."

Nando Reis assina "Não Posso Mais", a terceira canção no álbum que não foi composta pelos Paralamas — as demais foram todas, tendo "Blow the Wind" sido escrita só por Herbert. "Olha a Gente Aí" conta com um trecho recitado do poema "Ó, Sino da Minha Aldeia", de Fernando Pessoa.

"Sempre Assim" tem uma levada reggae, ritmo no qual os Paralamas sempre se sentiram em casa.  Além do compositor e letrista, o disco também tem a marca do guitarrista Herbert Vianna, que espalha suas referências roqueiras pelo álbum.

Os músicos que, desde os anos 90, acompanham os Paralamas — Bidu Cordeiro (trompete), Monteiro Jr. (saxofone) e João Fera (teclados) — estão no trabalho, que também traz as participações de artistas como Duo Santoro (violoncelos), Maurício Barros, ex-Barão Vermelho (teclado), Money Mark, conhecido por seus trabalhos com o Beastie Boys (melódica, uma espécie de teclado), Kassin (efeitos) e Pupillo, da Nação Zumbi (bateria), os dois últimos de uma geração que, desde o início, viu o apoio dos Paralamas: Pato Fu e Nação abriram shows do grupo, Raimundos e Nação tiveram músicas inseridas no repertório dos veteranos.

"A gente sempre procura abraçar e entender os novos artistas", diz Bi Ribeiro. "Hoje tem muita coisa acontecendo, a gente está sempre aberto a novidades, eventualmente vamos a festivais. É difícil escolher apenas alguns nomes... Mas, falando agora com você, lembrei do Lucas Vasconcellos, que era do Letuce, uma banda muito boa. Ele está fazendo um trabalho diferente, experimental. É muito talentoso", elogia o baixista.

 

 



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