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Casar-se para fugir da rotina
Publicado em: 29/09/2017

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Conheça uniões entre artistas com carreiras independentes que deram certo (e outras que nem tanto) e as razões alegadas por alguns deles para se juntar

 

Por Gilberto Porcidônio, do Rio

 

Sejam naturais, arranjados, frutos do amor ao primeiro timbre ou coisa do momento, em casamentos musicais todo mundo quer meter a colher. No Brasil, abundam exemplos de uniões bem-sucedidas e recentes — e outras antigas que ajudaram a plantar raízes estilísticas duradouras. 

Senão, como classificar o álbum "Tropicália, ou Panis et Circensis", que uniu em estúdio e no palco alguns dos artistas mais destacados do final da década de 1960, quando foi lançado? Na ocasião, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Nara Leão, Os Mutantes, Tom Zé, Capinam, Torquato Neto e Rogério Duprat tinham todos carreiras sólidas e independentes e, no bojo do movimento multiartístico que se expressava ainda nas artes plásticas, no cinema, no teatro e na literatura, só para mencionar algumas manifestações, se uniram sob uma ideia. 

Enquanto isso, outras coisas se fermentavam país afora. A notável produção de Alceu Valença, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho ficou espremida, a partir dos anos 1970, entre dois movimentos que tiveram suas expressões amplificadas, a própria Tropicália e o BRock 80. Os redentores anos 1990 assistiram à revalorização desses quatro expoentes nordestinos da música nacional, principalmente após a reunião deles no projeto O Grande Encontro, em 1996. Sucesso retumbante de bilheteria, teve reedições em 1997, em 2000 (sem Alceu) e ano passado (sem Zé Ramalho). 

"Faço oito tipos de shows diferentes, um com orquestra, o acústico, o de carnaval, o de São João, um mais metropolitano e até um de rock que não é rock, como definiu um jornalista americano que me viu tocar em Nova York certa vez... Em O Grande Encontro, cada um pode escolher a sonoridade que quer para sua apresentação individual. Quando tocamos juntos, obedecemos a história da música", definiu Alceu à Revista UBC a sensação de poder se juntar aos amigos e ser livre para experimentar.

                                                   

A proximidade estética, claro, conta muito. Que o digam as três duplas sertanejas mais destacadas dos anos 1990, e que se reuniram no show "Amigos": Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo e Zezé di Camargo e Luciano. Mesma coisa aconteceu com o projeto Gigantes do Samba, mais recentemente, e que contou com Alexandre Pires, Luiz Carlos (vocalista do Raça Negra) e Belo (este acabou deixando a parceria mais cedo). 

Administrar os egos é um dos desafios nessas uniões, que têm, no exterior, muitos casos de choques de personalidades que terminaram inviabilizando as associações. Foi assim com Lou Reed e Metallica, que, segundo analistas musicais, não souberam juntar seus estilos e produziram em 2001 um álbum, "Lulu", decepcionante, amorfo; ou com a bizarra parceria de Michael Jackson e o ator e dublê de cantor Eddie Murphy na gravação da esquecível canção "Whatzupitu", de 1993. Mas nada se compara à aventura do grande Elton John com o rapper Eminem — cujas declarações e até letras de músicas homofóbicas eram mais do que conhecidas. Numa apresentação durante o Grammy de 2006, ambos tocaram juntos, e de modo frio e sem qualquer conexão pessoal, o hit "Stan", do rapper. Ficou claro que era uma tentativa marketeira de aproximação.

 

 

O grupo de dança e música Dream Team do Passinho se uniu à Matheus VK

Claro que nem tudo são espinhos nas uniões — principalmente quando elas têm a ver, do ponto de vista estético, pessoal e até filosófico. Estão aí os Tribalistas, com seu segundo álbum, para provar. Ou a Trinca de Ases e talento formada por Gal Costa, Gilberto Gil e Nando Reis.

A união dos Titãs e dos Paralamas em 2008 para gravar um álbum ao vivo também foi produtiva, e o “poliamor musical” que rappers como Criolo, Emicida, Rappin' Hood e Projota promovem em suas carreiras dão igualmente o seu recado. 

O cantor e compositor Matheus VK, que exalta todas as formas de amor em suas letras — em especial na letra do hit “Pélvis” — é, obviamente, um dos que são simpáticos a essas uniões... desde que elas sejam naturais e realmente estimulem a criatividade de todos os envolvidos. O músico, que se uniu ao coletivo de dança e música Dream Team do Passinho (na foto acima) para um projeto em comum, gosta de sair de sua zona de conforto e já participou de projetos com Paulinho Moska e com os blocos carnavalescos do Rio de Janeiro Bangalafumenga e Fogo & Paixão. Cada parceria, ele sustenta, agregou algo e contribuiu para mudar sua forma de compor.

“O motivo disso é que vejo a música sempre como um elemento de participação. Antes, eu me murava muito e, agora, uso minha arte para me integrar. O músico no casulo perde a oportunidade de sair de seu próprio espaço criativo. O Mike, do Dream Team do Passinho, por exemplo, abriu a minha cabeça para o funk e a música eletrônica. Assim, eu saí um pouco da escola da MPB e dos cantautores, que é o meu universo”, ele conta.


O projeto Iara Ira, com Júlia Vargas, Duda Brack e Juliana Linhares, canta "Iara Ira", de Frederico Demarca e Renato Frazão

Tida como uma das revelações da nova MPB, a cantora Júlia Vargas forma o projeto Iara Ira junto das cantoras Duda Brack e Juliana Linhares. As três, que são amigas e participam, esporadicamente, dos shows umas das outras, se uniram após um insight que o produtor Philippe Baptiste teve. Com forte pegada cênica, o trio entoa cânticos populares, como os das lavadeiras, além de cantigas de ninar e ladainhas urbanas, tudo misturado ao som das sirenes as metrópoles, que fazem referência à figura mitológica brasileira da Iara, o nosso equivalente da sereia.

“O interessante é que a gente é muito diferente no jeito de cantar, no timbre e na personalidade e, ao mesmo tempo, nos conectamos e criamos algo novo e com muita voz. O Iara veio em uma fase em que eu queria mergulhar no novo. Os arranjos são superdiferenciados, com uma pitada de rock, fugindo um pouco do meu som mais calcado na música regional”, explica Júlia, mostrando que, pelo menos na música, casamento serve mesmo é para fugir da rotina.

 

 



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