No

cias

Notícias

Aplausos para elas
Publicado em: 26/10/2017

Imagem da notícia

O gênero masculino do Dia do Compositor Brasileiro se reflete também na esmagadora maioria de homens criando música, uma realidade que bravas guerreiras desde Chiquinha Gonzaga tentam mudar

Por Andrea Menezes, de Brasília

O último 7 de outubro marcou, mais uma vez, o Dia do Compositor Brasileiro. O gênero masculino da data se reflete também na esmagadora maioria dos homenageados. Se nossa música é rica em vozes femininas desde sempre, o mesmo não se pode dizer do trabalho de composição, ainda bastante minoritário entre nós, mulheres. Números como os quase 92% de homens entre os mais de 23 mil associados da UBC e o espantoso percentual de 98,2% do repertório das 22 maiores orquestras dos Estados Unidos composto por criadores do sexo masculino suscitam um dilema típico de propaganda antiga de biscoito: as mulheres não têm maior visibilidade como criadoras porque compõem menos ou compõem menos porque não têm tanta visibilidade?

Abrindo alas para as mulheres na música brasileira, a grande Chiquinha Gonzaga (na foto) acaba de completar 170 anos de nascimento (no último dia 17), mas uma busca na web por notícias sobre uma data a celebrar — e refletir — retorna pouco mais de 6,8 mil resultados. No mundo todo. É pouco, muito pouco, para uma pioneira que fez barulho e deixou uma herança até hoje cultuada no cancioneiro nacional mas que tardou a ser seguida por outras.

Como a Revista UBC destacou numa reportagem de capa, ano passado, sobre o panorama das mulheres na composição musical no Brasil, o fim da produção musical de Chiquinha deixou uma espécie de vazio, preenchido pelo trabalho de algumas guerreiras pouco conhecidas, como Bidu Reis (baiões, sambas e boleros) e Dora Lopes (300 canções de diversos gêneros registradas em disco). A própria Carmen Miranda compôs, ainda que pouco, e uma de suas mais conhecidas criações, “Os Hôme Implica Comigo”, parceria com Pixinguinha, é uma peça de fina ironia, metalinguística mesmo, sobre a dificuldade de prosperar num meio eminentemente masculino. De um modo geral, o espaço merecido das mulheres não foi tomado de assalto.

Ao longo dos anos, e dos movimentos musicais que experimentamos no Brasil, foram surgindo nomes como Dolores Duran, Maysa, Sueli Costa, Ivone Lara, Glória Gadelha, Rita Lee, Joyce, Joanna, Angela Rô Rô, Lucina, Marina Lima, Fernanda Abreu, Zélia Duncan, Isabella Taviani, Adriana Calcanhotto, Marisa Monte, Fernanda Takai, Pitty, Letícia Novaes, Mallu Magalhães, Anitta, a jovenzíssima e engajada MC Soffia... Mulheres maravilhosas como elas e tantas outras desbravaram e continuam a desbravar um mundo que sempre foi dominado por eles.

"Na minha história toda, para além da música, eu sempre achei que tinha que pôr minha credibilidade em função de algo mais."

Marisa Monte

“Ser mulher no mundo do rap e do hip hop é um argumento de resistência”, resume Kell Smith, uma das mais novas vozes a despontar na MPB, pelas mãos do megaprodutor Rick Bonadio, que admite que, se são poucas as mulheres compositoras, ainda são menos as produtoras: “Estamos passando por um momento de amadurecimento em nossa sociedade. O empoderamento feminino, o respeito às minorias e a quebra de preconceitos estão na ordem do dia. Vejo e torço por mais mulheres produzindo. A visão da mulher é importantíssima na formação da nossa cultura, e com mais mulheres produtoras teremos mais riqueza de temas e perspectivas”, afirma Rick.

Uma exceção à regra é Marisa Monte, que joga nas onze, e com tanta força e talento, que liderou o processo artístico e de marketing por trás do novo álbum dos Tribalistas, lançado em agosto passado. “Não tenho pretensão de ditar padrões. Mas há, sim, uma cobrança extra” pelo fato de ser mulher, ela opina. “Na minha história toda, para além da música, eu sempre achei que tinha que pôr minha credibilidade em função de algo mais. Fui pioneira em ter meu selo, ser dona da minha obra editorial, dos meus fonogramas. Fui mostrando caminhos. Também acho que é uma missão, um objetivo que me interessa porque acho interessante ajudar outras e outros a pensar essas coisas.”

"Sou sexy, sou gorda, desejada e muito amada. Mas, principalmente, o que realmente importa é o que eu tenho a dizer."

MC Carol

Marisa indubitavelmente chegou “lá”, mas não se pode ignorar que, a exemplo do que ocorre em tantas áreas da nossa sociedade, as mulheres são frequentemente julgadas muito mais pela sua aparência ou seu sexy appeal que pelo seu talento. “Sou gostosa, sou feliz, sou sexy, sou gorda, desejada e muito amada. Mas, principalmente, o que realmente importa é o que eu tenho a dizer”, conclui MC Carol, uma das novas e empoderadas vozes do funk carioca, que, ano passado, lançou “Não Foi Cabral”, um “funk contestação” com uma versão alternativa sobre a descoberta do Brasil. Mais ou menos como o conjunto delas tenta fazer na música brasileira: reescrever uma história que pede, exige, um outro olhar e novas vozes.

 

 



Voltar