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Ronaldo Bastos, imortalizado no MIS
Publicado em: 31/10/2017

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Depoimento do compositor de grandes sucessos foi gravado em bate-papo com Celso Fonseca, Joyce Moreno e jornalistas e críticos

Do Rio

Prestes a completar 70 anos, em janeiro do ano que vem, o niteroiense Ronaldo Bastos, destacado membro do Clube da Esquina — ao lado de amigos e parceiros como Milton Nascimento, Wagner Tiso, Lô Borges e Fernando Brant — foi imortalizado no último dia 25 de outubro em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, no Rio. Com auditório cheio, o diretor de Comunicação e Assistência Social da UBC foi entrevistado pelo compositor Celso Fonseca, pela cantora Joyce Moreno, pelo jornalista Antonio Carlos Miguel, pelo crítico musical Marcos Lacerda e pelo vice-presidente do MIS, o jornalista Pedro Só. O bate-papo ficará registrado nos arquivos da casa para a posteridade.

Ao abrir a conversa, Bastos fez questão de destacar que, além de compositor, é um flâneur (caminhante) profissional, o que explica seu olhar aguçado sobre o cotidiano e a vida da gente, expresso em canções como “Fé Cega, Faca Amolada”, “Nada Será Como Antes”, “De Conversa/Cravo e Canela” (todas parcerias com Milton, e a última, sucesso na voz de Caetano Veloso), “Quando Um Certo Alguém” (sucesso na voz de Lulu Santos) e tantas outras. Assim, deambulando por temas, parcerias e períodos da história recente do país, o compositor foi sedimentando seu nome entre os grandes do nosso cancioneiro popular.

“Sou um letrista que considera a melodia mais importante do que a letra, por achar que tudo faz mais sentido através do som”, definiu num dos trechos do bate-papo. “Sempre quis fazer disco mais pela arte de criar música e não para aparecer como letrista.”

Ronaldo (ao centro) cercado por seus entrevistadores no MIS. Foto de Mariana Pontim

Seu caráter de compositor inato, que circula melhor atrás do palco e não sobre ele, se manifestou em diversos momentos, como quando explicou seu processo de composição em parcerias. “Não tenho problema algum em alterar letras, refazer. Adoro fazer música sobre a música dos outros. Construo a partir da admiração que sinto por elas. Amo as canções que os outros fazem. Isso me motiva a compor. Sinto até inveja (boa) delas.” Em seguida, de brincadeira, em tom modesto, questionou a própria vocação — sendo muito aplaudido pelo público, que, claramente, não concordava com a autoavaliação: “Para cada música que componho, sempre penso, até hoje, durante meu processo criativo: 'por que não tive outra profissão?; eu não nasci para isso'.”

Grandes incentivadores em sua travessia pela música ganharam menção carinhosa: “Ruy Guerra é um dos caras mais importantes da minha vida, foi ele que me ensinou o ofício da composição. Quando morei uma época em Paris, cheguei a ficar em seu apartamento. Tereza Jobim, mulher de Tom, também é muito importante para mim. Aliás, ela e Tom me adotaram. Sobre o Bituca (apelido de Milton), quando entrega uma música aos seus parceiros, ele acaba sendo o compositor também, de tão bom e generoso que é. Poucos sabem, mas, quando compus 'Cigarra' para Simone, foi uma homenagem ao Milton.”

"Sinto falta de receber uma ligação às 4 da madrugada, com um colega dizendo 'vem pra cá, vamos fazer uma música'. Ninguém faz mais música junto hoje em dia."

Seu selo, o Dubas, responsável por grandes lançamentos, teve merecida citação. “Tenho muito orgulho, acho que foi um grande acontecimento na música. Lançamos CDs incríveis de profissionais maravilhosos, como JT Meirelles, Jussara Silveira, Marcos Valle, Celso Fonseca, meu grande parceiro musical, Donatinho, Flavio Venturini, além de músicas conceituais de samba jazz.”

Alguns desses processos de produção se deram do jeito que Ronaldo mais gosta: “analogicamente”, cara a cara, numa troca de ideias à antiga que, segundo ele, estimula mais a criação. “Hoje em dia as coisas mudaram por conta desta vida corrida e da tecnologia. Sinto falta, por exemplo, de receber uma ligação às 4 da madrugada, com um colega dizendo 'vem pra cá, vamos fazer uma música'. Ninguém faz mais música junto hoje em dia.”

 

 

 



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