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Antônio Carlos & Jocafi: os últimos 50 anos e os próximos
Publicado em: 25/01/2018

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Famosa dupla de compositores, sucesso nos antigos festivais e dona de hits inesquecíveis do samba e da música afro-baiana, fala de seus projetos atuais, inclusive uma parceria com Russo Passapusso

Por Luciano Matos, de Salvador

Há 50 anos, dois baianos, Antônio Carlos Marques Pinto e João Carlos Figueiredo, se conheciam nos bastidores dos festivais de música. Inicialmente, eram rivais e mal se falavam. Aos poucos, a música acabou unindo-os. Como Antônio Carlos & Jocafi, passaram a compor e cantar juntos e se tornaram umas das duplas mais bem-sucedidas da nossa música. Participaram de festivais e os venceram, além de emplacar diversos sucessos no Brasil e até no exterior. Várias de suas composições fizeram parte de trilhas sonoras de novelas e minisséries. Em cinco décadas, canções como “Hipnose”, “Desacato”, “Catendê” (defendida por Maria Creuza, então mulher de Antônio Carlos, e ganhadora do V Festival de Música Popular em 1969), "Você Abusou", "Toró de Lágrimas", entre outras, foram grandes sucessos.

Eles são pioneiros, introduziram a linguagem coloquial, especialmente a do povo baiano, nas letras da música brasileira, misturaram os ritmos afro-baianos e do candomblé em sua sonoridade e ocupam posição de destaque na hierarquia do samba.

Mas todos esses predicados do passado não encerram a questão, muito pelo contrário. Ainda ativos, os dois agora apostam numa parceria com um dos grandes nomes da música baiana contemporânea: Russo Passapusso, líder do BaianaSystem e fã confesso dos veteranos. Redescobertos pelas novas gerações, Antônio Carlos & Jocafi têm uma música atual, que faz a cabeça de muitos jovens. Por e-mail, conversamos com Antonio Carlos sobre a longa carreira, as referências da música africana, a geração atual e os novos planos da dupla.

 

Num momento em que a arte, e especialmente a música, tem sido tratada como algo tão fugaz e efêmero, como é manter uma carreira e uma dupla unida por quase 50 anos?

Antônio Carlos: Trabalhar com música nos dias atuais está difícil, mas durante todo este período não paramos de criar, porque acreditamos que os bons tempos voltarão em breve. A juventude já começou a dar sinais de recuperação. Vejo uma luz no fim do túnel, por exemplo, quando recebo uma letra de Russo Passapusso. Vejo nos seus versos uma chama de esperança, o que me deixa muito feliz. Quanto a manter uma dupla unida por 50 anos, não é difícil, desde que haja respeito, carinho e tolerância, sem se deixar levar por vaidades.

O trabalho de vocês trazia lá atrás a influência da música africana muito antes disso ficar em evidência. Como a inseriram no trabalho de vocês? Como era a reação das pessoas e da crítica? E hoje?

Os baianos da nossa geração dos anos 40 e 50 trazem de berço a influência africana. Nesta época, os vários terreiros de candomblé espalhados pelos morros de Salvador levavam até aos recém-nascidos os cânticos e os atabaques. Eu, Antônio Carlos, ainda tenho um vínculo maior e mais forte com o candomblé, já que nasci na mesma rua onde morava a mãe Carmem, filha de mãe Menininha do Gantois. Minhas primeiras composições foram todas ligadas ao candomblé.

Quanto à crítica e às pessoas do Sul, estas músicas não tiveram muita repercussão. Já que, em 1971, com o sucesso de “Desacato”, vencedor do Festival Internacional da Canção, e com o disco “Mudei de Ideia”, puxado por “Você Abusou”, passamos a receber o título de sambistas. Quem descobriu o nosso lado africano foram os jovens. Tom Capone, um dos maiores e mais respeitados produtores musicais, foi quem deu o pontapé inicial, junto com os DJs, e a música “Kabaluerê” teve um destaque no cenário musical quando utilizada por D2 na música “Qual É”.

Quanto à influencia na música atual, o que podemos afirmar é que a geração anos 80 é que veio a descobrir, graças a Capone, os verdadeiros Antônio Carlos & Jocafi. Quando digo verdadeiros, me refiro ao nosso primeiro estilo, o do disco “Mudei de Ideia”, que não é o samba.

Outra novidade que vocês inseriram na música brasileira, ou pelo menos ajudaram a inserir, foi o sotaque baiano e palavras que eram pouco usadas na música e nas artes. Como aconteceu isso?

Nossa convivência no antigo Mercado Modelo nos levou a ter relações com pessoas de vários níveis sociais. Por um lado, o genial Ildázio Tavares, com seu português acadêmico; por outro, saveiristas que chegavam do porto direto para o mercado, onde tomavam sua cachacinha para abrir o apetite. Tudo isso mesclado com um violão e um atabaque (de Onias Camardelli), tocando samba de roda a tarde inteira. Já morando no Rio, esta baianidade foi parar em nossos discos. Não tivemos a inteção de romper com nada. Aquelas palavras baianas nos ajudavam a matar a saudade de nossa terra. Utilizamos várias delas, tais como “presepada” (em “Presepada”), “brequetes” (em “Desacato”), “rebocado” e “piripicado” (em “Dengo Dela”) e a mais famosa delas, a palavra “brega”, na música “Perambulando”, da novela da Globo “O Primeiro Amor”.

Os dois gravam com Russo Passapusso: "confesso ter ficado impressionado com a criatividade dele", diz Antônio Carlos

 

Há uma aproximação de vocês com artistas mais novos, que deve resultar inclusive em um novo trabalho. Gostaria que falassem como está o desenvolvimento disso. O que estão preparando?

Nossa aproximação com a juventude vem rendendo frutos. Filipe Lorenzo já gravou uma inédita nossa chamada “Mirê Mirê”, e vamos participar com ele de uma nova gravação da música “Ogã Mirim”. Com Russo Passapusso, temos um projeto ambicioso em andamento, que é um disco com composições em parceria. Confesso ter ficado impressionado com a criatividade dele. Nos falamos frequentemente e já temos músicas prontas, como “Caixa de Pandora”, “Veneno (Salve o Rei)”, “Pitanga” e “Luz de Bréu”, que devem sair num trabalho conjunto da dupla com ele.

Nestes 50 anos, vocês assistiram a muitas mudanças no mercado, no gosto popular e mesmo no meio artístico. Quais as maiores diferenças que enxergam entre o tempo em que começaram e os dias atuais?

Nestes 50 anos, foram muitas transformações, não só no estilo das músicas, mas também na sonoridade. Para começar, a troca do LP pelo CD na nossa opinião foi um desastre. As frequências são bem diferentes do analógico. Sem falar na parte financeira, já que a pirataria deitou e rolou na era dos CDs. Na parte musical tivemos avanços, principalmente na qualidade dos músicos, que hoje são muito mais preparados. O sucesso na década de 70 e 80 vinha através das rádios, das televisões e, principalmente, dos festivais, onde ganhava quem tinha a melhor música. Tanto que dois dos nossos maiores compositores, Chico Buarque e Tom Jobim, levaram cinco minutos de vaia porque o público queria que vencesse a música de (Geraldo) Vandré.

Se dermos uma olhada nos compositores dos anos 70, como Edu Lobo, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, vamos ver que todos vieram dos grandes festivais, que eram sérios, e não armados como hoje.

 

 

 



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