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...E da música se fez a luz
Publicado em: 02/03/2018

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Iluminadores de shows explicam como trabalham, transformando a narrativa de cada música em cores e elementos visualmente atraentes

Por Kamille Viola, do Rio

No século V a.C., o teatro clássico grego já se preocupava com a iluminação. As tochas e o uso da luz solar deram lugar aos spots e canhões. Mas uma figura continua sendo fundamental: o iluminador. Na antiguidade, essa função era desempenhada pelo cenógrafo. Porém, depois da invenção da energia elétrica, a iluminação cênica ganhou um papel artístico reconhecido.

Obviamente, na música — ou, mais especificamente, nos concertos e shows musicais —, esse trabalho tem suas particularidades. Referência em iluminação, Maneco Quinderé era conhecido no meio teatral (ele coleciona prêmios na área) quando fez pela primeira vez a luz de um show música, em 1987, com a estreia de Marisa Monte como cantora, no Jazzmania. Para ele, a diferença de seu trabalho nas duas áreas é que, enquanto no teatro uma história vai sendo contada através das cenas, na música cada canção é uma própria narrativa com começo e fim. “São pequenas historias que compõem o todo”, comenta ele, muito elogiado pelo trabalho na turnê “Caravanas”, de Chico Buarque (na foto acima, feita por Leo Aversa), que chega nesta quinta (1º) a São Paulo. “Cada uma tem uma atmosfera que tem a ver com o todo. O artista, quando faz show, segue um roteiro que tem uma coerência”, diz.

Marcos Franja também começou como iluminador de teatro, em 1990, e dois anos depois estreou na música, no show “Brasil Musical”, com Paulinho Nogueira. Atualmente, trabalha com Nação Zumbi, Otto, Céu e Tulipa Ruiz. “A luz vem materializar, ela vem trazer uma imagem do som, construir o ambiente dessa música. Ela é responsável por trazer harmonia, juntar todas essas peças que estão no palco e potencializar a carga de informação que a música tem”, resume. Quinderé concorda. “Ela tem um pouco a função de esclarecer (as coisas). Por exemplo, a luz é vermelha nesta música (“As Caravanas”, de Chico) porque as caravanas tinham muito sangue e violência, aí você, de uma certa maneira, explica isso”, descreve.

Antes de começar a criar o desenho de luz, em geral o profissional procura conhecer o universo estético do artista. “A gente primeiro procurar entender o que é o material gráfico do CD. Se tiver cenário, vai conversar com o cenógrafo, entender o ambiente. Se tiver diretor de arte, também; se tiver maquiadora, ver em qual tom essa pele vai estar... E as referências do próprio artista: se tem alguma informação que seja crucial para ele... É importante entender a história da música para criar a narrativa da luz”, descreve Franja. “Além de todas as ferramentas que você tem para criar a luz, a narrativa e as referências, é necessário (para o iluminador de um show) ter uma musicalidade”, acredita.

Perceber o clima do espetáculo e traduzi-lo na luz é o desafio do iluminador. “O show do Chico é muito atmosférico, diferente de outros que têm uma dinâmica musical, que as pessoas exploram (na iluminação). O Helio (Eichbauer, cenógrafo) concebeu um cenário em que a corda meio que parece umas ondas magnéticas; às vezes vira mar; fios de telefone; parece uma pauta musical. Eu estava com vontade de trabalhar com esses equipamentos novos, spot lights extremamente vertiginosos, fazer coisa mais gráfica, mais retilínea, menos difusa, mais marcada. Dá esse contraste do claro e escuro, que é bom para a atmosfera do Chico”, explica Maneco Quinderé.

Lúcia Maia, da Nação Zumbi, toca em show iluminado por Marcos Franja. Foto de Olívia Leite

 

Para ele, no fim das contas, o mais importante é emocionar a plateia. “Tocar a pessoa de uma forma fantasiosa, ela olhar para aquilo de forma mais emotiva, seja através do desenho, da cor, da ausência: é isso que me faz gostar mais do show. Se eu conseguir emocionar, está bom. Nem penso se vai chamar atenção ou não, é o que sinto ali na hora de fazer a música”, garante.
 

Videomapping: emoção em 3D

A tecnologia também trouxe para os shows mais um elemento visual: as projeções, o que resultou no surgimento de uma nova função, a de VJ. As imagens extrapolaram os telões e evoluíram para superfícies não planas, ou seja, em três dimensões. É o videomapping, que traz um efeito ainda mais fantasioso para os espetáculos musicais. VJ há oito anos, Leandro Sousa, o VJ Vacão, com experiência em shows de funk e sertanejo e, principalmente, em eventos de trance psicodélico (ou psy trance), conta que já projetou em manequim, bolas de isopor, lycra, tule branco (“Você faz em camadas, fica parecendo um holograma, fica superbacana”, empolga-se), carro, fachadas de casas e prédios, painéis de LED e objetos montados a partir de placas de MDF, os mais comuns.

Para ele, o videomapping também ajuda a criar uma narrativa. “Quando você faz bem feito e tem estudo de imagem, de cor, de textura, velocidade, você consegue sincronizar isso tudo com cada batida, com cada elemento da música, você consegue trazer sensações e dá vida e imagem à música”, explica. “A pessoa acaba tendo um entendimento muito mais claro. Por exemplo: em uma música que fala de amor, você coloca texturas, cores bacanas — o estudo de cor é muito importante —, consegue fazer com que se despertem certos sentimentos no público. A palavra-chave é imersão: é uma imersão audiovisual, estética”, resume.


 

 



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