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Por Elas Que Fazem a Música. E que têm voz
Publicado em: 12/03/2018

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Criadoras, produtora e jornalistas falam do machismo e das dificuldades cotidianas enfrentadas pelas mulheres na nossa indústria, em evento promovido pela UBC e transmitido ao vivo

De São Paulo

Depois de conhecer o problema, debatê-lo e propor soluções. Essa foi a tônica de um encontro promovido pela UBC, na última sexta-feira, em São Paulo, dentro do projeto “Por Elas Que Fazem a Música”, uma iniciativa da nossa associação por mais inclusão, voz e protagonismo feminino na área. Transmitido ao vivo pelo Facebook, o debate teve a participação da advogada e produtora Eliane Dias, das cantoras e compositoras Karina Buhr e Gisele de Santi, das jornalistas Cláudia Assef e Christina Fuscaldo. A mediação foi feita pela coordenadora de comunicação da UBC, Elisa Eisenlohr.

O debate ocorreu poucos dias após a divulgação de um estudo exclusivo da UBC que revelou a disparidade de gênero no mundo musical, onde as mulheres ganham, em média, 28% menos do que os homens com direitos autorais e, dos cem maiores arrecadadores, são apenas dez. Além disso, apenas 14% dos associados são do sexo feminino, um número muito aquém da ligeira maioria de mulheres na sociedade como um todo.

"Às vezes, perguntam se as letras são minhas. E, quando descobrem que letra e música o são, ficam surpresos."

Gisele de Santi, compositora e cantora

Eliane Dias, empresária dos Racionais MCs, falou sobre sua experiência como produtora num mundo particularmente machista como o do rap e da luta “diuturna e incessante” que tem de enfrentar para se impor. “Eu tinha uma banda de 18 homens; depois, 22 homens. Eu cheguei sozinha à produção, olhava para aquele monte de homem e tinha que repetir (as ordens) três ou quatro vezes, tinha que gritar. O tempo todo você precisa ser curta, grossa, arrogante, dura, não abrir mão. É um desgaste imenso e constante de energia”, lembra a produtora, que, antes, trabalhava como advogada, um ramo que ela diz respeitar mais a voz da mulher do que o da música.

Gisele de Santi, que também contou histórias similares, completou o raciocínio de Eliane, evocando uma desqualificação constante que sofrem as mulheres: “Aí, quando você atua assim, te chamam de louca.”

Outras das desqualificações lembradas pela cantora e compositora gaúcha têm a ver com o sutil desvio da conversa quando se trata de mulheres criadoras. “Eu já ouvi reclamações de colegas intérpretes homens queixando-se do boom de cantoras. Eu fico pensando: quando faço um show ou recebo uma mensagem de alguém que admira o meu trabalho, geralmente elogiam minha roupa, minha postura ou até minha voz. Mas não elogiam as composições. Às vezes, perguntam se as letras são minhas. E, quando descobrem que letra e música o são, ficam surpresos. A parte do ofício do músico ainda está muito ligada ao homem.”

"Sempre que eu tentava algo diferente, o outro menino guitarrista vinha e me destruía. Ele tinha uma técnica melhor, eu era a guitarra-base. Pensei: 'cara, não vou mais fazer o solo, ele toca muito melhor do que eu'."

Cláudia Assef, jornalista e ex-membro de banda na adolescência

Karina Buhr faz coro e culpa a visão machista e estereotipada entranhada nos próprios meios de comunicação. “Os homens estão acostumados a ter a narrativa. A gente, na cabeça deles, é musa das histórias deles, vive para inspirar, embelezar a vida deles. Eu já falei e repito que tinha o sonho de ser medíocre (risos). Eu via os meninos fazendo as coisas com irresponsabilidade, brincando, se divertindo ao tocar. A gente não pode brincar, tem que ser séria, tem que estudar muito para se destacar. E, na mídia, sempre tinha essa coisa... Com a banda Comadre Fulozinha, que eu batizei e criei, e tinha só mulher, sempre que queriam fazer entrevista e tirar foto levavam a gente para uma praça, queriam algo bucólico, umas perguntas absurdas, queriam que a gente ficasse abraçadinha, sempre nos textos falavam de beleza... Sei lá, achavam que a gente se reunia todo dia para comer bolo e tomar chá. Se se junta um monte de adolescente para fazer música, naturalmente (os meninos) vão jogá-la ali com o microfone. Vão exigir dela uma roupinha x... Vai ficar ali no lugar da gatinha.”

A jornalista Cláudia Assef viveu isso na pele. Na adolescência, ela era a única garota numa banda de meninos. Tocava guitarra e cantava. Mas tinha de lidar com o sutil boicote de um deles. “Sempre que eu tentava algo diferente, o outro menino guitarrista vinha e me destruía. Ele tinha uma técnica melhor, eu era a guitarra-base. Pensei: 'cara, não vou mais fazer o solo, ele toca muito melhor do que eu'. Tem sempre uma questão do homem de inibir, se posicionar, se colocar à frente, do 'deixa que eu mostro, gatinha'.”

Cláudia é uma das criadoras de um evento para estimular o protagonismo da mulher no mundo musical, e não apenas nos assuntos “femininos”, senão em todos. A edição 2018 do Women's Music Event será realizada esta semana, mais exatamente de sexta (16) a domingo (18), no Centro Cultural São Paulo, na capital paulista, com a presença de 70 mulheres que ocupam posições de liderança na música participando de 12 painéis, seis oficinas e três shows.

"Sempre que queriam fazer entrevista e tirar foto levavam a gente para uma praça, queriam algo bucólico, umas perguntas absurdas, queriam que a gente ficasse abraçadinha, sempre nos textos falavam de beleza..."

Karina Buhr, compositora e cantora

Com as dificuldades de inserção, de mostrar seu valor, de se sobressair, não surpreende a ocorrência de números tão díspares de participação feminina na música. Bem, não deveria surpreender. “Todas as mulheres que entrevistei ficaram surpresas com os números”, conta Christina Fuscaldo, que cursa um mestrado sobre a participação feminina na música e foi convidada pela UBC para elaborar o relatório. Para ela, inconscientemente as mulheres acabam interiorizando atitudes machistas e não entendem que estão sendo vítimas de boicotes ou desprezo por parte dos homens. “A Sueli Costa, com quem eu falei, é de outra geração, começou nos anos 1960. Estava tão acostumada ao machismo nosso de cada dia que teve dificuldade de se lembrar de uma história que sofreu. Depois, lembrou-se de um festival em que ficou num dos primeiros lugares. Então, um compositor homem se aproximou para 'elogiá-la' e disse que ela nem parecia mulher compondo. Isso a marcou para sempre.”

"Nos últimos 20 anos vivo da música, e de uma música que não é benquista (por certos círculos), que é o rap. Mas ainda olham para mim com um olhar de 'o que é isso? Uma mulher negra produtora musical?"

Eliane Dias, empresária do Racionais MCs e advogada

Questões como a divisão das tarefas domésticas, mais respeito pelas mulheres no mercado de trabalho e a necessidade de educar meninas mais empoderadas surgiram entre as proposições de atitudes que podem mudar esse quadro. Gisele, que está grávida do segundo menino, diz estar fazendo sua parte ao educar seu filho para ver as mulheres em igualdade de valor e condições: “Nós sempre temos que lutar mais, provar mais, passar mais perrengue. Isso tem que acabar.”

A dúvida, a atitude condescendente e a simples desqualificação são obstáculos diários. “Nos últimos 20 anos vivo da música, e de uma música que não é benquista (por certos círculos), que é o rap. Mas ainda olham para mim com um olhar de 'o que é isso? Uma mulher negra produtora musical?”, queixa-se Eliane Dias. “Eu, como advogada, achava que o mundo da música era muito cool, tranquilo, leve, relax, aquela coisa linda e florida, alto-astral... Depois de um ano, vi que não era nada disso. Precisamos lutar, e lutar muito, por nosso espaço.”

 

As mina pá!

A questão da presença da mulher no machista mundo do rap, que já apareceu na nossa reportagem especial na última edição da Revista UBC, também foi lembrada por Eliane quando ela comparou um evento de que participa a filha de Cláudia Assef, o Girls Rock Camp, com o universo do hip hop. “Seria impossível um evento que permitisse a 90 meninas rappers tocar livremente e ser atendidas por outras tantas mulheres adultas e profissionais que lhes dessem assistência. Simplesmente porque não há essa quantidade toda de mulheres no rap. E as condições financeiras são muito inferiores do lado de lá da ponte. Vejo MC Soffia e pouco mais, sou pessimista, mas não deixo de lutar. A gente, que está em posição de poder, tem que estender a mão a outras mulheres, tem que valorizar o talento delas, tem que votar em mulher. Só assim as coisas vão começar a mudar.”

Clique aqui e assista ao debate completo.


 

 



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