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Fernando Brant: 70 anos de nascimento; uma obra eterna
Publicado em: 07/10/2016

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No aniversário do saudoso compositor e ex-presidente da UBC, relembramos sua trajetória humanista, fonte de inspiração não só para belas letras, mas para a luta de toda uma vida pelos direitos autorais

Por Eduardo Tristão Girão, de Belo Horizonte

 

“Na minha casa, somos dez irmãos: Roberto, Ronaldo, Maria Célia, eu, Lucy Maria, Paulo, Moacyr (Beso, como o chamamos), Ana, Vina e Pedro. Com eles, aprendi desde cedo a dividir, conviver em grupo e respeitar o outro. E também a valorizar sentimentos como os de fraternidade e amizade.”

Assim o compositor mineiro Fernando Brant, um dos grandes da nossa música, definia o início de sua formação pessoal – que, sem dúvida, embasou a luta de toda uma vida pelos direitos autorais, pela dignidade da profissão de compositor musical e pelo empoderamento do artista brasileiro em geral.

Neste domingo, 9 de outubro, Fernando - que por quase uma década foi presidente da UBC, até sua triste e prematura morte, em junho do ano passado - estaria completando 70 anos. O legado como letrista talentoso desse que foi um dos principais parceiros de Milton Nascimento e, não menos importante, sua dedicação à valorização da nossa classe seguem intactos, inspiradores. E beberam, sem dúvida, na mesma fonte: a educação profundamente humanista e plural, desde pequeno, na cidade de Caldas, no Sul mineiro, onde nasceu, em 1946.

De Monteiro Lobato, Machado de Assis e Olavo Bilac, nos primeiros anos, a faroestes de época e seriados de super-heróis, passando, mais tarde, já em Belo Horizonte, por Drummond, Pessoa, Jobim, Bach, Coltrane, Fellini e Glauber, Fernando sempre respirou arte. Observador atento do cotidiano, das misérias e das alegrias humanas, era um cronista inato.


Fernando Brant na escola

“Dormíamos no mesmo quarto, e me lembro que ele tinha a própria biblioteca, com livros de autores como Julio Cortázar. Nosso irmão Roberto, mais velho, e meu pai, que era jurista, influenciaram muito esse gosto pela literatura. Já em BH, participou de cineclube, e os professores dele também contribuíram muito para sua formação, eram pessoas de altíssimo nível literário”, conta o irmão Moacyr, de 62 anos.

Seguindo costume da época, Fernando optou por cursar Direito, pois não se interessava por Medicina ou Engenharia. Isso em 1966, primeiros anos da ditadura militar no Brasil. Foi uma experiência transformadora: participou ativamente de protestos, correu muito da polícia e fez amigos que, como ele, viam no Direito uma maneira de exercer atividades paralelas tais como jornalismo, teatro, cinema e literatura.

As conversas com essa turma tinham sempre como cenário os bares no térreo do edifício Maletta, no centro da capital mineira. As mesas da Cantina do Lucas, que existe até hoje, eram as favoritas de Fernando Brant (bem como de intelectuais, artistas e jornalistas), e, a alguns metros dali, no extinto bar Oxalá, que ficava no fundo do corredor, era comum ver os próprios frequentadores de violão em punho. Foi lá que Milton Nascimento lhe mostrou suas primeiras composições. Nasceu ali uma das mais significativas parcerias da MPB.

 

Uma amizade que deu belos frutos para a MPB

Na época, entretanto, Bituca era crooner, cantava num bar e frequentemente tinha de atender pedidos da freguesia. Isso o irritava. Num dos desabafos com Fernando, chegou a anunciar que desistiria de ser artista para ganhar a vida de outro jeito, já que havia se formado em contabilidade. O amigo (e futuro parceiro) o consolou e disse para não desistir tão fácil, que era preciso batalhar. De fato, o caminho foi difícil e, no caso de Fernando, que trabalhava como escriturário no Juizado de Menores de Minas Gerais, um tanto inesperado.


Milton Nascimento e Fernando Brant em 1969

Milton foi para São Paulo, participou da segunda edição do Festival Nacional de Música Popular da TV Excelsior, em 1966, e foi considerado o melhor intérprete com “Cidade Vazia”, parceria de Baden Powell e Lula Freire. Os contatos que fez na ocasião renderam frutos, o cantor foi ficando por lá, e Elis Regina resolveu gravar sua “Canção do Sal”. Ele e Fernando não perderam contato: ao contrário, um ia sempre visitar o outro. Num desses reencontros, Bituca lhe mostrou a melodia que viria a ser a de “Travessia”.

A princípio, Fernando achou que o pedido para que fizesse a letra fosse brincadeira. Milton já compunha com Márcio Borges, mas achou que aquela ideia musical não combinaria com o estilo de fazer versos de nenhum dos dois. Apenas deu o mote: a história de um caixeiro-viajante que não consegue prender seus amores porque está sempre mudando de cidade. Quando foi mostrar a letra para o parceiro, num bar, ficou tão aflito que a deixou sobre a mesa e correu para se refugiar no banheiro.

Essa foi a primeira composição de Fernando Brant e a que ajudou, ainda que não imediatamente, a definir o rumo que sua vida tomaria a partir daí. Em 1967, sem que ele ou Milton soubessem, o cantor Agostinho dos Santos, de quem Bituca havia se aproximado havia pouco, inscreveu “Travessia” e mais duas músicas do novo amigo (“Morro Velho” e “Maria Minha Fé”) no Festival Internacional da Canção, da TV Globo. As três foram classificadas, feito incomum naquele contexto. “Travessia” ficou em segundo lugar, e os convites para gravar discos apareceram.

“Foi uma grande surpresa e tivemos de arrumar um terno emprestado para ele subir no palco do Maracanazinho. Viu que seu dom para a composição era real, e sua relação com o pessoal que viria a formar o Clube da Esquina tornou-se mais forte. Com a parceria com Milton, ele pôde colocar para fora seus escritos, de forma pública. Era uma pessoa muito sensível, humana”, diz o irmão Moacyr.

Décadas depois de ver Travessia ganhar o Brasil, Fernando declarou: “As coisas vieram num turbilhão, e eu as recebi sem grandes alardes, com recato, sem me dar muita importância. Mas foi muito bom.” A emoção de ver o amigo Bituca defender a canção que fizeram juntos diante da plateia foi enorme e ele, de fato, ainda não conseguia assimilar que fazia realmente parte de tudo aquilo. Voltou para sua vida em BH, mas, no ano seguinte, pediu licença não-remunerada do juizado em que trabalhava. Já estava envolvido com o “negócio da música”.

 

Engajamento político em tempos de chumbo

Era época de ditadura, e os jovens artistas da MPB estavam na mira da censura. Mesmo assim, Fernando não deixou de colocar em suas letras o que pensava e, para evitar atrair a atenção da repressão, tornou-se habilidoso em transmitir mensagens algo cifradas, mas sem ser hermético – na maioria das vezes, usando metáforas. Bom exemplo é o da canção “Aqui É o País do Futebol”, que escreveu com Bituca para o disco “Milton”, de 1970, e na qual fala do Brasil “vazio na tarde de domingo”, ou seja, distraído com o futebol e distante de outros temas, numa crítica à falta de engajamento político.


Fernando Brant na década de 1970

“A gente era muito crítico, e a censura estava no nosso calcanhar o tempo todo”, lembra o cantor e compositor mineiro Sirlan, autor de “Viva Zapátria” (com Murilo Antunes), canção de protesto que comoveu o público no sétimo Festival Internacional da Canção, em 1972. Ele foi perseguido e vigiado sem trégua pela ditadura, mas não deixou de compor e teve Fernando como um de seus grandes parceiros. Praticamente metade das músicas do único disco que conseguiu gravar, “Profissão de Fé” (1979), é fruto do trabalho entre os dois.

“Ele olhava para o mundo de maneira muito pessoal, a poesia dele tinha assinatura. A crônica na música dele é muito importante, como em “Saudades dos Aviões da Panair” e “Maria, Maria”. Tem muito do vivenciar do dia a dia, o corpo a corpo com as pessoas. Ele não fez as coisas a partir de si, mas percebendo o outro a redor. Isso dá durabilidade e grandiosidade à obra dele”, analisa Sirlan.

Não por acaso, Brant assina canções com as quais conquistou grande público, todas marcadas por versos diretos e absolutamente tocantes, a exemplo de “Canção da América”, “Ponta de Areia”, “Nos Bailes da Vida”, “Raça”, “Encontros e Despedidas” e, obviamente, “Maria, Maria”. Milton foi, sem dúvida, seu grande parceiro, e, sobre essa conjunção de talentos, o também compositor Márcio Borges escreveu em seu livro “Os Sonhos Não Envelhecem”: “Uma comunhão de talentos destinada a fazer história e se consagrar como uma das mais belas e fecundas parcerias da música brasileira de todos os tempos.”

Para o cantor e compositor mineiro Sergio Santos (com quem Fernando Brant fez apenas uma música, “Dois Rios”, também assinada por Tavinho Moura), o diálogo com o sentimento popular é um traço forte no cancioneiro do amigo: “Não era à toa que eram sucesso. Poucos artistas conseguiram essa comunhão, e isso é muito bonito na obra de qualquer artista. Na do Fernando é gritante como isso foi a sua inspiração.”

 

Letras. De todas as formas

Além de compositor, Fernando Brant foi repórter da revista “O Cruzeiro”, trabalhou com publicidade e atuou como diretor de criação da rádio Inconfidência, sempre em Belo Horizonte. O engajamento político que demonstrou nos anos 1960 o acompanhou por toda a vida e, por meio da música, ele militou pelas causas em que acreditava. Durante a campanha das Diretas Já, no início dos anos 1980, apoiou Tancredo Neves no histórico movimento pela redemocratização do país.

Nessa mesma época, mais precisamente em 1985, foi um dos signatários da “Carta de Araxá”, documento redigido durante o Congresso Nacional de Música Popular, na cidade mineira de Araxá, e entregue a Tancredo. Ampla, continha análises sobre problemas ligados ao direito autoral, adversidades enfrentadas pelos músicos no mercado de trabalho e até discussão sobre formação musical para crianças. Muito outros nomes importantes da MPB assinaram a carta.

Esse foi apenas um dos seus muitos lances como defensor do seu ofício e dos direitos da classe. Ao lado de Milton, Ronaldo Bastos e Márcio Borges, fundou nos anos 1970 a Três Pontas, uma das primeiras editoras musicais do país, com o objetivo ter maior cuidado e controle sobre as próprias criações. Também foi integrante do Conselho Nacional de Direito Autoral (extinto em 1990), entidade pela qual participou de diversos encontros e debates, numa mostra de que compreendia a importância de conhecer a fundo o tema para poder se posicionar e lutar pela categoria.


Gonzaguinha, Fausto Nilo, Fernando Brant, Hermínio Bello de Carvalho e Moraes Moreira

“Ao lado de companheiros de profissão como Gonzaguinha, Joyce, Paulinho Tapajós e Ronaldo Bastos, entre outros, abraçou a luta pela garantia desses direitos no Brasil. Juntos, contribuíram para conquistas significativas, como a inclusão do artigo que garante a defesa dos direitos do autor na Constituição de 1988. Dez anos mais tarde, a grande conquista foi a promulgação da Lei de Direitos Autorais”, analisa Isabel, filha do compositor.

Fernando Brant se filiou à União Brasileira de Compositores em 1991 e foi nomeado seu presidente em 2006. “As duas décadas dedicadas ao trabalho na UBC também trouxeram importantes conquistas e reconhecimento nacional e internacional. Acredito que o fato de ele ser um autor ocupando lugar na discussão e na defesa dos direitos trouxe muita credibilidade e também intensidade para esta luta”, diz Isabel. “Meu pai ficava horas conversando com um autor que tivesse alguma dúvida ou interesse pelo tema. Não necessariamente era preciso que se concordasse com ele em todos os pontos, mas ele fazia questão de enfatizar a necessidade de todos os autores conhecerem os seus direitos para poder defendê-los”, ela completa, evocando marcas da vida de Fernan do que continuarão a nos inspirar aqui na UBC: a chamada para o diálogo e a ideia de que juntos somos mais fortes.

Veja mais fotos da trajetória do artista

   

Fernando Brant na Infância


Fernando Brant na juventude


Fernando Brant e família


Erasmo Carlos, Marcos Kilzer, Joyce, Fernando, Gonzaguinha, Ronaldo Bastos, Márcio Borges e Roberto Carlos


Fernando Brant e Roberto Carlos


Fernado Brant e Ronaldo Bastos (década de 2000)


Fernando no Show Conspiração dos Poetas (anos 2000)


Entrevista para o livro "UBC 70 anos - O Autor Existe" com Paulo Sergio Valle, Abel Silva e Ronaldo Bastos (2012)


Fernando, Mariana Brant e Geraldo - fotos do último disco (outubro de 2014)


 

 



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