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Charles Gavin: todos os meios
Publicado em: 03/07/2017

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Baterista celebra uma década de seu bem-sucedido programa sobre vinis na TV a cabo, estreia espaço no rádio e se prepara para lançar novo álbum (que terá, claro, versão também em LP)

Por Kamille Viola, do Rio
Fotos por Juliana Torres

Em 2007, Charles Gavin ainda era o baterista dos Titãs quando foi chamado para apresentar o programa “O Som do Vinil”, no Canal Brasil. Dez anos depois, ele está na 11ª temporada da atração. Por conta dela, sua carreira acabou tomando rumos inesperados: lançou livros com íntegras das entrevistas e foi trabalhar no rádio, veículo para o qual acaba de retornar, em nova atração. Sentindo que seu trabalho na TV corresponde a “um doutorado em música brasileira”, ele revela que não abandonou sua antiga paixão, a bateria, e que está finalizando um álbum, a ser lançado este ano.

“A gente documentou aproximadamente 270 discos da música brasileira. É uma marca muito boa, se você considera o que acontece na TV a cabo: é um veículo de alta rotatividade”, analisa Gavin, que arrisca um palpite para a longevidade do programa. “O assunto é fascinante, falar não só sobre o disco em si, sobre as carreiras: a gente tem trajetórias que passam pela história da música brasileira, mas também pela história recente do país. Na temporada passada, por exemplo, tivemos um episódio com o Geraldo Azevedo, que foi preso, torturado, uma coisa horrível. Ele me contou com detalhes, até me surpreendeu a naturalidade com que contou”, lembra.

O envolvimento foi tanto que, além de apresentar o programa, Gavin passou a assinar a direção, ao lado de Gabriela Gastal, o que aconteceu de forma muito espontânea. “Nos primeiros episódios, o material ia para a mão dos editores e, quando voltava, eu não estava satisfeito. Percebi que quem está editando o programa tem que conhecer muito bem a história da música brasileira e ter paciência para assistir a uma hora e meia de conversa e separar as coisas que a gente pode descartar e as que não pode de jeito nenhum. Num primeiro momento, passei para a ilha de edição, fui gostando, até que, três anos depois, estava com crédito de diretor”, diz.

E gostou tanto do processo que acabou dirigindo e produzindo o DVD “O Pirulito da Ciência Ao Vivo”, em 2009, e o DVD “Marcos Valle e Stacey Kent — Live at Birdland — New York City”, de 2016. “São DVDs com documentário, making of, muito conteúdo. Tudo isso é consequência do 'Som do vinil'. Acabei me interessando, abri uma nova possibilidade profissional. Gosto de estar atrás da câmera.”

Em todo esse tempo à frente da atração, nos últimos anos ele viu a cultura do vinil ganhar novo fôlego. “Quando começamos, 11 anos atrás, vinil era uma coisa basicamente restrita a sebos. Ele nunca deixou de ser fabricado, mas não era tão comum quanto hoje, quando, se você tiver dinheiro, lança um álbum no formato. Para nós, foi ótimo, nos possibilita falar com pessoas que, se não fosse assim, não poderiam estar no programa. Um exemplo é a Céu, que é relativamente nova, tem 15 anos de carreira. A retomada do vinil permitiu não só resgatar clássicos, coisas que estão lá atrás, como o que está acontecendo hoje. Não somos um programa retrô, a gente procura mapear a música brasileira — dentro das possibilidades. O Zeca Pagodinho, que foi ao ar em maio, lançou o último vinil dele em 96”, exemplifica.


Roberto Menescal em participação no programa "Ao Som do Vinil" com Charles Gavin

Para ele, embora restrito a um nicho, o formato é imbatível. “O streaming tem faixa por faixa, sem capa, você pensa: 'Isso vem de onde? Quem está tocando? Quem gravou? Em que estúdio? Que imagem está associada a isso?' A internet matou um pouco isso. O Spotify está lá, o Deezer, mas não têm informação associada às músicas. É uma crítica construtiva que eu faço, uma hora vão ter que reformular, queiram ou não”, analisa o artista. “O vinil é uma coisa apaixonante, que propõe outra audição. Ele veio para ocupar outro lugar dentro disso, onde ficou tudo meio descartável. O espaço que o artista plástico tinha para fazer uma capa para vinil, muitas vezes você comprava o disco pela capa, lacrado, sem saber o que estava dentro... O CD matou isso, e o streaming enterrou. Mas, assim como TV a cabo é nicho, o vinil também é. Ele é uma invenção muito bem pensada. Esse formato que a gente ouve hoje, que é o vinil de 10 ou 12 polegadas, com 31 centímetros, isso aí vem da década de 1940. Ele sobreviveu todo esse tempo, resistiu a todas as revoluções de mídia que você pode imaginar”, derrete-se.

Se o programa ganhou desdobramentos em livro (com entrevistas na íntegra lançadas em 2015), todo o conhecimento adquirido pelo artista nos últimos anos sobre o tema vai levá-lo a outro formato: o rádio. Ele estreia ainda este mês na Rádio Globo, no programa “Em Cartaz”, às segundas-feiras, na faixa das 23h. “Será só sobre música brasileira também e vai contemplar esse acervo que acumulei esses anos”, adianta. Essa não é a primeira incursão do artista no veículo. “Fiz rádio em São Paulo, na Eldorado, durante três anos. Adorei fazer, acho o máximo! São liberdades diferentes. Não necessariamente o que eu coloco na rádio funciona na televisão. O programa tem uma hora, na televisão isso seria impossível. O rádio é muito poderoso, e no Brasil ele continua com importância muito grande.”

"O baterista existe, ele não se aposentou"

Charles Gavin

Sem dúvida, Charles Gavin é um homem multitarefas — por sinal, antes de se tornar músico profissional (ele passou pelo Ira! e pelo RPM, e só depois entrou nos Titãs), operava computadores de grande porte. “Eram gigantes, custavam uma fortuna, a gente usava cartão de papel, disco magnético”, recorda. Mas em seu peito nunca deixou de bater um coração de baterista. Depois de sair dos Titãs, o músico lançou com Toni Platão, Dado Villa-Lobos e Dé Palmeira o grupo all-star Panamericana, com repertório de canções de outros países sul-americanos, com o qual se apresentou algumas vezes. Agora, está com um novo álbum em fase de mixagem, a ser lançado em agosto em formato digital e, mais para a frente, em vinil — é claro.

"Quando comecei a pensar em sair dos Titãs (ele deixou a banda em 2010, depois de 25 anos), levava uma vida que, naquela época, estava difícil para mim. Era um momento familiar em que eu precisava ficar mais em casa, minhas filhas (Dora, nascida em 2003, e Sofia, em 2005) estavam crescendo, a gente passava muito tempo na estrada, eu me sentia no (seriado) 'Túnel do Tempo', um daqueles caras que numa hora estava em casa e, de repente, num outro lugar, completamente diferente. Quando saí, fiquei três anos sem tocar no instrumento. Mas era muito legal fazer aquilo, viajar, conhecer gente nova. Então, eu estou tentando preencher essa lacuna que está aberta desde que saí. O baterista existe, ele não se aposentou”, anima-se.

 

 



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