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A batida forte do eletrônico brasileiro
Publicado em: 18/04/2018

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Com Alok como o nome nacional que mais toca lá fora, atenção de gravadoras e produtores estrangeiros se voltam para cá, dizem DJs

Por Kamille Viola, do Rio

Aos 26 anos, o DJ goiano Alok (foto) é, atualmente, o principal nome da música brasileira no exterior. Os números impressionam: ele alcançou a 19ª posição entre os melhores do mundo no ranking da revista inglesa “DJ Mag” (a mais alta entre nomes da América Latina) e se tornou o primeiro brasileiro a superar os 100 milhões de execuções no Spotify com a faixa “Hear Me Now”, que também contabiliza 230 milhões de visualizações no YouTube. Alok tem 5,6 milhões de seguidores no Instagram, mais de 1,2 milhão de inscritos em seu canal de YouTube e 6 milhões no Facebook. Até Mick Jagger encomendou um remix ao artista, da faixa “Gotta Get a Grip”. Filho de DJs de psy-trance, fundadores do festival Universo Paralello, Alok criou até um novo nome para classificar sua música: Brazilian Bass.

“O Alok foi um divisor de águas, sim. A gente já teve outros DJs de renome (internacional) antes dele, teve o Marky, teve o Murphy, de dez anos atrás, que conseguiram chegar na BBC, em Londres, conseguiram coisas expressivas”, comenta o DJ e produtor Dazzo. “Mas o Alok foi um divisor, muito bom, que abriu uma porta muito grande para novos talentos, que é o que está acontecendo hoje no mercado. Essa história tem muitas páginas dedicadas a ele”, diz.

Filho de um maestro, Dazzo começou a produzir músicas em 1999 e a atuar como DJ em 2010. Abriu diversos shows de Alok e tem músicas ao lado do goiano, como “Do It” e “Liquid Blue”. Recentemente, lançou a faixa “Oh You”, ao lado de Schutzer e Caelu. Ele também tem sua própria gravadora, a [re:agent], junto da Plusnetwork, agência que trabalha com diversos nomes da música eletrônica. “Hoje o artista (de música eletrônica) não tem aquela necessidade extrema de estar num selo gringo para ser reconhecido. Os olhos estão virados para nós”, acredita.

DJ Dazzo: gravadora própria e parcerias para levar sua música lá para fora

Se a próxima parceria de Alok vai ser com ninguém menos que Anitta (“Vai ser uma mistura de reggaeton e eletrônico e eu espero, do fundo do coração, que saia no primeiro semestre ainda”, ele contou à revista “Capricho”), o seu maior sucesso, "Hear Me Now", teve entre os parceiros Marcos Lobo Zeballos, também conhecido como Zeeba. Americano de San Diego, ele é filho de brasileiros e, depois de uma temporada no Brasil, voltou a morar por lá, engatando mais cocriações com o amigo e parceiro Alok. O momento é propício: o pop, o rock e, virtualmente, qualquer estilo estão mais do que abertos a produtores de música eletrônica nacionais. 

Nome de destaque da cena drum’n’bass que despontou no Brasil no início dos anos 2000, Ramilson Maia é um deles. DJ desde 1989 e produtor desde 1996, ele remixou grandes artistas e lançou discos sob o nome Ram Science. Também integrou o projeto Kaleidoscópio, com Janaína Lima, e foi DJ do trio elétrico de Daniela Mercury no carnaval baiano. Atualmente, além de se apresentar solo, faz shows com o Trio Titanium (formado por Ney Aguiar, no violino; Keder Cândido, na viola, e Júlio Pelloso, no violoncelo) e é professor do curso de tecnólogo em Produção de Música Eletrônica da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo.  Para ele, como em tudo, há vantagens e desvantagens no cenário de hoje.

“A tecnologia e a informação eram escassas em relação a hoje. Antigamente, você saía batendo de porta em porta para divulgar um trabalho. Hoje, bota na internet e, às vezes, nem CD faz mais. (O que importa) é quem é mais ouvido na rede, quem é mais curtido na rede”, compara. “Em compensação, as músicas ‘duravam’ mais, não tinha essa proliferação que tem hoje na internet, nós tínhamos hits. Uma música saía, e você ia no clube para ouvir a faixa do DJ em questão”, analisa.

Ramilson Maia: destaque do drum 'n' bass, ele vê mais vantagens que desvantagens na cena atual

Dazzo faz coro. “Pelo fato de haver muitos DJs hoje, acaba ficando um pouco difícil você ter um espaço. Mas eu acredito que, se há um trabalho diferenciado, que não se baseia na obra alheia e tenta impor a sua identidade, vai conseguir chegar a algum lugar”, crê. “Quando eu comecei, mandava um CD para a Europa, ele levava dois meses para chegar, e eu não tinha resposta alguma, ficava esperando para ver se vinha alguma coisa. Era bem sofrido. Hoje é muito mais fácil”, diz.

Ele também vê uma evolução em relação ao uso de samplers pelos artistas brasileiros. “Tem uma grande parte que está se preocupando com isso, porque está se relacionando com gravadoras grandes e está entendo que há uma necessidade de compreender essa parte que a gente chama de burocrática, mas é vital. Afinal, como diria Raul Seixas, os homens passam, as músicas ficam. A faixa vai ficar, os royalties podem ficar para a sua família, a sua mulher e tudo mais”, explica Dazzo. “Na [re:agent], se existe um vocal que não tem autorização, a gente não lança. Nesse percurso, aparecem pessoas muito boas focadas em fazer um trabalho autoral, o que não é tão fácil assim. Porque, durante muito tempo, a gente ficou fazendo com o que dava, que era pegar um a capella de alguém na internet, fazer e achar que ‘ah, tá legal’. Afinal, ninguém olhava para a gente aqui. Agora, não: devido à mudança que o Alok fez no mercado, as gravadoras olham para a gente, e elas querem uma coisa diferente, que seja fruto das nossas mãos. Eu sinto que faz dois anos que começou uma mudança nessa área”, comenta.

"Devido à mudança que o Alok fez no mercado, as gravadoras olham para a gente."

Dazzo

Ramilson Maia lembra que hoje há um grande número de músicas isentas de direitos autorais disponíveis para remixagem e samplers na rede. “Existem coisas boas liberadas pelos próprios softwares de produção de música”, diz. Ele conta que sempre frisa para seus alunos a importância de registrar suas músicas. “Primeiro, porque você registra que aquele trabalho é seu filho, e segundo que você pode rentabilizar isso de forma não só num nível nacional, mas internacional”, analisa.
 


 

 



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