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Um Dia Nacional do Forró duplamente feliz
Publicado em 13/12/2021

Após gênero ser declarado Patrimônio Imaterial, registro raro de show de Gonzagão é lançado nesta segunda (13)

Por Chris Fuscaldo, do Rio

Capa do disco com o registro histórico e raro de Gonzagão num festival há exatamente meio século

 

Esta segunda-feira, 13 de dezembro, é especialíssima para todo forrozeiro que se preze. Enquanto se comemora o Dia Nacional do Forró, chega às plataformas digitais uma gravação raríssima de um dos maiores mestres do gênero, Luiz Gonzaga (cuja data de nascimento, 13 de dezembro de 1912, não por acaso virou celebração a todo o forró). O álbum “Baião dos Hippies” resgata o áudio da participação dele no Festival de Verão de Guarapari (ES), gravada em 1971 e guardada até hoje no baú de Marcelo Froes, pesquisador musical e dono do selo Discobertas. E, como se fosse pouco, há cinco dias o forró foi eleito Patrimônio Imaterial Brasileiro unanimemente pelos integrantes da comissão do Iphan que analisava o pleito proposto há uma década.

“Eu tenho esse material há mais de dez anos, desde que comecei o Discobertas”, conta Froes, referindo-se à gravação do áudio do festival realizado há exatamente meio século. “Cheguei a usar parte (dela) em um projeto do Taiguara. Depois, usei em um do Soma, outro da Bolha e em um do Jards Macalé. Eu lembrava que tinha Luiz Gonzaga no festival também, mas achava que era uma coisa curta. Um dia, conversando com o Daniel Gonzaga, veio a ideia: ouvi e percebi que era uma pérola maravilhosa, porque se tratava de quase 30 minutos, tempo razoável pra um vinil e para um CD.”

Neto de Luiz Gonzaga e responsável por administrar a obra do avô, Daniel Gonzaga também se surpreendeu com o material. E mais ainda com a história. Em 1971, Gonzagão estava para se aposentar, afastado da mídia, quando recebeu o convite para participar do evento capixaba. Como diz o jornalista Renato Vieira no release do lançamento, “a escalação de Gonzaga gerou polêmica, porque o baião, o forró e o xote pareciam muito distantes do universo dos hippies que estariam na plateia. Gilberto Tristão, um dos organizadores, admitiu que o artista poderia até mesmo ser vaiado.”

A produção estava bastante desorganizada, não pagou o cachê dos músicos. Ainda de acordo com Vieira, “a prefeitura da cidade assumiu a organização e afirmou ter entregue a direção do evento ao multimídia Carlos Imperial, que preferiu dizer para a imprensa que estava apenas tentando ajudar, enquanto Chacrinha ocupava o posto de mestre de cerimônias.” Por causa da falta de pagamento, muitos artistas não compareceram. Gonzagão foi mais generoso: em vez de cancelar o show, não convidou outros músicos e se apresentou acompanhado apenas de seu acordeão.

A essa altura, Luiz Gonzaga já havia sido regravado por Wilson Simonal, Gilberto Gil e Gal Costa. Com isso, vinha sendo redescoberto pelas novas gerações. Nada ingênuo, ele atacou com seus maiores sucessos (“Hora do Adeus”, “Asa Branca”, “Juazeiro", “O Xote das Meninas", “Moda da Mula Preta”, “Boiadeiro”) e levou os “hippies” da plateia ao delírio. Aquela energia fez com que o Rei do Baião voltasse aos estúdios para gravar um álbum para os jovens: “O Canto Jovem de Luiz Gonzaga” saiu naquele mesmo 1971, mas isso já é outra história.

“Aprendemos com ele a ter coragem de fugir do sertão com 17 anos e virar rei, no Brasil, quiçá no mundo. Aprendemos com ele a cantar os passarinhos, como ele mesmo falava. Mas aprendemos com ele também a sermos políticos, cantando as vozes da seca, cantando a triste partida da migração de um povo sofrido. Aprendemos com ele um Brasil que o próprio Brasil desconhecia”, derrama-se Daniel Gonzaga. “Eu me sinto feliz de ter mais material para estudar, porque quem não conhece o seu passado, a sua história, é incapaz de produzir um futuro coerente com seus sonhos.”

Daniel tem razão: é por causa do passado que o forró chegou a esse lugar de patrimônio imaterial, tão sonhado por artistas e entidades, entre elas a Associação Cultural Balaio do Nordeste, da Paraíba, responsável pelo pedido de reconhecimento. Ao realizar o pleito, em 2011, a associação anexou uma coletânea de livros, LPs e DVDs do gênero musical e um documento com mais de 400 assinaturas de representantes das comunidades forrozeiras de todo o país.

Em 2015, junto a participantes do Encontro Nacional para Salvaguarda das Matrizes do Forró, que ocorreu na cidade de João Pessoa, a associação elaborou e enviou ao Iphan uma Carta de Diretrizes para Instrução Técnica do Registro das Matrizes do Forró como Patrimônio Cultural do Brasil. O objetivo do documento era orientar todo o processo de pesquisa que envolveu a produção do dossiê de patrimonialização. “É como se a gente (antes) tivesse um filho pagão. Ele hoje está batizado e reconhecido”, declarou Joana Alves, presidente da associação e Coordenadora Nacional do Fórum do Forró de Raiz.

Para Gilberto Gil, que estava à frente do Ministério da Cultura quando o processo foi iniciado, trata-se de uma grande vitória. Apaixonado por Luiz Gonzaga desde quando ainda era criança em Ituaçu – cidade do interior na Bahia onde foi criado e ouviu o artista pela primeira vez, o que lhe fez ir estudar acordeão –, o cantor e compositor lembra à UBC que foi por causa do Rei do Baião que o forró saiu do âmbito folclórico para se tornar um dos gêneros mais populares do Brasil:

“Luiz Gonzaga fez essa passagem do elemento folk para o elemento pop. Os modos harmônicos e melódicos ali do Nordeste foram para as canções com ele e, também, com letristas como Zé Dantas e Humberto Teixeira. E com todos que vieram depois deles, tantos outros compositores, como João Silva, João do Vale, Jackson do Pandeiro... Tem uma quantidade enorme de compositores e instrumentistas que foram acrescentando a essa unidade básica do forró elementos que foram consolidando o forró como um gênero popular, e não mais folclórico, das comunidades interioranas. Essa era uma reivindicação muito antiga. Já estava lá na época do nosso ministério. Tanto o pleito do forró quanto o samba de roda. O forró já nem carecia mais de registro patrimonial, porque ele já é.”

Ganhadora do troféu UBC Tradições em 2021, a cantora e compositora Anastácia estava na região quando o anúncio foi feito. A Rainha do Forró lembra que soube através de Luiz Gonzaga que sua voz já era sucesso no Nordeste, quando ela já havia gravado seu primeiro disco, mas ainda era tesoureira do escritório de seu empresário. Naqueles anos 1960, ela ainda saiu em turnê, abrindo shows do “padrinho” pelo Nordeste. De lá para cá, Anastácia compôs mais de 800 canções, sendo quase 300 delas em parceria com Dominguinhos (“Eu Só Quero um Xodó” e “Tenho Sede”, por exemplo), e sempre apoiou a a ideia de tornar o forró um patrimônio nacional.

“É tempo de festa para todos nós que gostamos de forró. Conseguimos o registro do forró como patrimônio imaterial da música brasileira. Graças ao trabalho incansável da Dona Joana Alves perante ao Iphan. Água mole em pedra dura tanto bate que acontece. Muito obrigada, com muito carinho, a todos os amantes do forró, a Dona Joana, ao Iphan. Viva a música nordestina! Viva a música brasileira!”

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