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Erasmo Carlos: “a estrada está me esperando"
Publicado em 10/02/2022

Aos 80 anos, Tremendão revisita Jovem Guarda em novo disco e já pensa em álbum de inéditas

Por Alessandro Soler, de Madri

Foto de Guto Costa

Erasmo Carlos atende o telefone com a voz rouca. Não sabe quantas entrevistas deu só na última semana. A promoção do seu novo álbum, “O Futuro Pertence à… Jovem Guarda” — uma radical atualização de sucessos do gênero, com novos arranjos e sonoridade ultracontemporânea — o tem feito falar muito nos últimos dias. Mas o que ele quer mesmo é cantar. "A estrada está me esperando, bicho. Não vejo a hora disso acabar”, diz, referindo-se à pandemia cujo recrudescimento o fez cancelar os próximos shows da turnê, entre eles em Belo Horizonte. 

Aos 80 anos, e mantendo uma rotina de criação constante, o Tremendão se associou ao produtor Pupilo e ao diretor artístico Marcus Preto, com participação do seu filho e produtor pessoal Leo Esteves, para revisitar as canções do movimento artístico e comportamental que o lançou musicalmente — ao mesmo tempo em que introduzia o rock no Brasil. Mas o resultado é tudo, menos saudosista. Para isso contribuiu o timaço de músicos formado por Luiz Lopes e Pedro Baby (guitarras), Rike Frainer (bateria), Pedro Dias (baixo), José Lourenço (piano e teclado), Pupilo (percussão), Maestro Tiquinho (metais), Paulinho Viveiro (trompete),

Marcelo Pereira (sax barítono), Hugo Hori (sax tenor), Carlos Trilha e André Lima (sintetizadores), Felipe Pacheco (cordas).

“Tivemos que selecionar só oito músicas entre as tantas que marcaram aquela época. O critério foi o nível do sucesso. São músicas de que eu gosto, que eu sempre ouvi os outros cantarem mas que eu nunca tinha gravado. Ao cantá-las, vi a força delas, das letras. ‘Alguém na Multidão’ (composição de Rossini Neto, sucesso dos Golden Boys), por exemplo, é uma letra profunda, triste. Cheguei a me emocionar cantando. Surpresas que eu nem sabia que teria”, conta o cantor e compositor. 

OUÇA MAIS: O álbum na íntegra

Além do hit que ele menciona, outros que ganharam nova roupagem foram “Nasci para Chorar”, versão brasileira de “(I Was) Born to Cry” (Dion DiMucci) escrita por Erasmo em 1964, “Ritmo da Chuva” (Demétrius), versão brasileira de “Rhythm of the Rain” (John Claude Gummoe), “O Tijolinho” (Wagner Benatti), “Esqueça” (Roberto Corte Real), versão brasileira de “Forget Him” (Mark Anthony), “Devolva-me” (Lilian Knapp/Renato Barros), “O Bom” (Eduardo Araújo/Carlos Imperial) e “A Volta”, única parceria com Roberto Carlos.

“É que simplesmente já não tem música minha com ele que eu não tenha cantado nem gravado. Às vezes me perguntam: ‘mas não tem mesmo nada perdido no fundo do baú?' Não tem, bicho. O baú é grande, mas já chegou ao fundo faz tempo. Esgotou”, ri, ressaltando que a fase das parcerias com Roberto apenas deu um tempo, mas não acabou. “Já tem dez anos que não compomos juntos, mas não descartamos, não. O que a gente combinou é que já não vai mais escrever música romântica juntos. Cada um vai fazer a sua. Se forem outros temas, aí a gente faz.”

Reverenciado e procurado por nomes das novas gerações, Erasmo está em fase de composição por encomendas e em parcerias com jovens talentos. É o caso, por exemplo, de uma nova canção que ele acaba de compor e que agora receberá letra de Tim Bernardes, líder da banda O Terno. Ambos se juntaram na obra que será gravada pela cantora Alaíde Costa.

“Mas também componho muito só. Já estou pensando no meu próximo álbum autoral, que devo lançar daqui a dois anos. Na brincadeira com o violão vão surgindo coisas. Pode começar pelos acordes, mas também rola de musicar uma letra. Pode ser um tema que eu não tenha nem violão, comece a fazer mentalmente e depois pegue o violão para ir aperfeiçoando. Tem uma porção de variedades nesse processo”, descreve, lembrando um caso recente em que ele criou inteiramente a letra sem pensar nos acordes, que acabaram compostos por Adriana Calcanhotto. Foi na canção “Seu Sim”, o último disco de inéditas dele, “O Amor É Isso”.

E o que o inspira? 

“O amor. Temas políticos e sociais também. Pode ser a necessidade de criar, a encomenda que te força a pensar sobre um tema. O mundo pulsa, né? As coisas que ele mostra você aprende e põe em música. Eu uso meus sentimentos, coisas que acontecem com os amigos, que eu leio, vejo num filme ou que acontecem na vida e eu leio no jornal. E nem sempre é uma pessoa que existe, pode ser personagem ou história que eu invento. Quem foi a musa inspiradora da música tal? Nenhuma! São todas as mulheres do mundo. A criação é livre.”

Assim como livres ele espera que estejamos em breve, conforme a pandemia comece a dar uma trégua e os reencontros sejam possíveis. “Até fiz lives e coisa e tal. Mas não dão retorno financeiro, só ajudam mesmo você se manter visível de alguma forma. Nada substitui o encontro cara a cara com o público”, pondera o cantor e compositor que reconhece o poder da internet e das redes sociais para promover uma carreira musical hoje em dia, mas assegura fazer um uso bem específico dos seus perfis: 

"Uso para falar da minha agenda, do disco que estou lançando, do show que eu fiz ou vou fazer. E, claro, para fazer pesquisa, ouvir música… De fofoca estou fora. Você não vai me ver postando vídeo escovando os dentes ou comentário sobre minha vida privada. Entendo quem se exponha para ser notado. A popularidade que não se consegue com a arte às vezes vem por aí, a pessoa quer ser famosa se mostrando. Eu quero mais é sair da rede, sair de casa, ir para o mundo. Faz dois anos já, né, bicho? A vida está lá fora, esperando.”

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