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Análise: as listas de melhores álbuns são justas ou relevantes?
Publicado em 30/05/2022

Ausências de certos gêneros e pouco peso de mulheres, além de viés histórico, são problemas; jornalista e pesquisadora comenta

Por Kamille Viola*, do Rio

Recentemente, o podcast Discoteca Básica divulgou que uma votação com mais de 162 especialistas em música elegeu o álbum "Clube da Esquina" (1972) o melhor álbum brasileiro de todos os tempos. A notícia foi particularmente emocionante porque o artista já havia anunciado no fim de 2021 que sua próxima turnê seria sua despedida dos palcos — no último dia 17, ele divulgou as datas dos shows, e todas as apresentações no Brasil se esgotaram rapidamente.

Para chegar ao resultado, cada jurado convocado pelo podcast (entre jornalistas, youtubers, podcasters e músicos, produtores e outros, incluindo esta que vos escreve) escolheu os 50 discos que considerava mais importantes feitos por artistas brasileiros, de qualquer época, sem ordem de preferência. Assim, a equipe do Discoteca Básica chegou à lista final e ao grande vencedor, o que mais apareceu nos votos.

De tempos em tempos, novas listas do gênero são realizadas, não só no Brasil, mas diversos outros países. Listas são um bom roteiro para quem quer começar a se enveredar pela pesquisa musical, mas estão muito longe de ser unanimidade. O fato é que, seja para concordar ou discordar das escolhas, listas de melhores discos sempre chamam a atenção. Gostamos quando as escolhas nessas listas são as mesmas que faríamos, e adoramos ter a perspicácia de chamar atenção para algum trabalho importante que tenha ficado de fora.

O fato é que, embora se pretendam definitivas — e é inegável que elas marcam época, tanto que até hoje, em 2022, a lista Os 100 Maiores Discos da Música Brasileira, publicada em 2007 pela versão nacional da revista Rolling Stone, é lembrada —, essas votações são bastante subjetivas e, em geral, dizem respeito à época em que foram feitas. 

Um bom exemplo é a lista de 500 Melhores Álbuns da História da Música, da Rolling Stone original, dos Estados Unidos. Realizada pela primeira vez em 2003, ela foi atualizada em 2020, e chamou a atenção o fato de que, na nova versão, o rock perdeu força, e a música negra, em especial o rap, conquistou mais espaço. Será coincidência o fato de que essas duas características têm tudo a ver com o atual panorama da indústria da música norte-americana — e até mundial?

Mais de 150 títulos da lista de 2020 não estavam na de 2003. Obviamente, alguns deles não haviam saído até então. Mas em muitos casos o que mudou foi o olhar sobre discos já existentes. Por exemplo: "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" (1967), dos Beatles, deixou de ser o melhor disco: o posto passou a ser ocupado por "What's Going On" (1971), de Marvin Gaye. Importante também observar que boa parte dos discos é de canções em língua inglesa, com raras exceções — ou seja, diz muito sobre o país onde a lista foi feita, claro.

Aqui no Brasil, frequentemente chama atenção o fato de que as listas de melhores álbuns têm poucos trabalhos de mulheres e menos ainda de samba — o que é curioso, dado que esse é o gênero de nossa música que mais influenciou tudo o que foi feito por aqui. Também chama atenção a frequente e grande presença de discos da década de 1970. Na própria lista do Discoteca Básica, dos dez primeiros colocados, sete são discos da década de 1970. Também é notável a presença de discos de artistas que vivem ou viveram no Sudeste. São inegáveis a qualidade de trabalhos de nomes como Milton Nascimento, Novos Baianos, Secos & Molhados, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jorge Ben (na época, sem o Jor) e a relevância desses artistas até hoje. Mas será que daqui a uns anos essas listas estarão iguais?

Tudo leva a crer que não. Trabalhos lançados com pouco alarde no passado foram ressignificados anos depois. Um exemplo mais ou menos recente é o disco "Arthur Verocai" (1972), do arranjador e músico de mesmo nome, que foi ignorado durante décadas e ganhou novo status no início dos anos 2000, quando atraiu a atenção de rappers e colecionadores de vinil norte-americanos. Hoje, é disputado a tapa por fãs das bolachas, sendo vendido a peso de ouro. Tanto que irá ganhar reedição em vinil, 50 anos depois, pela gravadora Três Selos.

Artistas negros e mulheres também vêm atraindo um novo olhar sobre suas trajetórias e obras. Foi assim com Elza Soares, que teve uma trajetória marcada por altos e baixos mas que, desde 2015, com o álbum "A Mulher do Fim do Mundo", foi reconhecida como um dos grandes nomes da MPB. Foi assim como Johnny Alf, só recentemente reconhecido como precursor da bossa nova. E é o que busca fazer o recém-lançado álbum "O Que Meus Calos Dizem Sobre Mim", de Alaíde Costa, com produção de Emicida e Marcus Preto. Pioneira da bossa, ela foi deixada de lado quando o movimento estourou.

A tendência é que cada vez mais artistas que foram importantes mas sofreram apagamento com o tempo tenham sua imagem ressignificada. Para isso, é importante que as listas, historicamente feitas por uma maioria de homens brancos, tenham também mais diversidade. Unindo-se o trabalho de pesquisadores para jogar luz sobre artistas e álbuns injustiçados à pluralidade entre os votantes, é provável que, nos próximos anos, tenhamos rankings diferentes dos que tivemos até aqui.

Além disso, há alguns anos, gêneros como o rap e o funk não tinham a relevância que têm hoje no Brasil. Forró, brega e outros ritmos mais fortes no Norte, Nordeste e Centro-Oeste também são pouco lembrados nessas votações. Embora hoje frequentemente sejam colocados em um patamar abaixo da chamada MPB, eles vêm ganhando cada vez mais espaço na história da nossa música, inclusive fundindo-se a outros ritmos e influenciando outros estilos musicais. Será possível, nos próximos anos, continuar ignorando tudo isso?

*Kamille Viola é jornalista musical com anos de experiência, além de pesquisadora musical e autora do livro "África Brasil: Um Dia Jorge Ben Voou Para Toda a Gente Ver"

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