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Como nasce o museu online de uma lenda viva da música
Publicado em 28/06/2022

Curadora e coordenadora do projeto O Ritmo de Gil contam detalhes dessa iniciativa de escala inédita

Por Alessandro Soler, de São Paulo

Fotos de Chris Fuscaldo/arquivo pessoal

Laura Zandonadi (jornalista, cantora e compositora associada da UBC), Chris Fuscaldo e Gil num dos encontros para a criação do museu

Para muitos de nós, a palavra museu remete imediatamente ao passado — fruto, talvez, de uma maneira já datada de organizar itens sem muita contextualização em salas estanques de lugares com aspecto e cheiro de coisa antiga. Ela ganha um significado bem diferente, porém, quando se trata de designar um dos mais ambiciosos e abrangentes projetos de digitalização do acervo de um artista vivo em todo o mundo. Patrocinado pelo Google, O Ritmo de Gil — recém-estreado museu virtual com 41 mil itens dedicado ao cantor, compositor e imortal da ABL Gilberto Gil — guarda semelhanças, em seu processo de criação, com qualquer outra iniciativa ligada à memória. Mas principalmente tem muitas diferenças, e a gente conversou com sua curadora e sua coordenadora geral para entendê-las.

LEIA MAIS:Visite O Ritmo de Gil, hospedado na plataforma Google Arts & Culture

A curadora foi Chris Fuscaldo, jornalista e pesquisadora musical que se debruçou sobre um arquivo gigante — cheio de preciosidades e com alguns itens quase esquecidos —, facilitado pela coordenadora do projeto, Flora Gil, mulher do astro e diretora da Gege Produções Artísticas, que cuida da obra dele. Além delas, uma equipe multidisciplinar de 20 pessoas se dedicou por mais de três anos a pesquisar, organizar, investigar/confirmar dados, programar e desenhar todo o conceito desse museu virtual, inédito mundialmente nessa escala porque se trata da coleção de fotos, vídeos, textos e outros itens de um artista que não só está vivo, como continua a criar e gerar notícias continuamente.

"Quatro anos atrás tomei a decisão de digitalizar o acervo do Gil, que eu já vinha organizando, etiquetando e guardando fisicamente em caixas há umas duas décadas. Não queria fazer um museu póstumo. Queria algo que ele visitasse em vida, que lhe trouxesse memórias. E, sobretudo, que ele pudesse opinar", descreve Flora. 

"Foi um presente do céu ou dos orixás. Fui indicada (para ser a curadora), e foi uma das tarefas mais prazerosas da minha carreira", disse Fuscaldo.

Confira abaixo, em 5 tópicos, como foi esse processo.

Gil durante um encontro virtual com parte da equipe.

 

1. No princípio eram as caixas — e 10 mil itens digitalizados

Geralmente, um museu "normal" nasce com uma premissa específica e um acervo já quase totalmente conhecido. "O belo projeto do Museu Casa de Portinari fez uma exposição virtual do acervo dele: pegaram o que se sabe que ele criou e puseram lá. No nosso caso, tivemos que criar tudo do zero. O arquivo era riquíssimo e enorme, mas faltava organizar, conferir mil dados, corrigir imprecisões, montar as exposições. Foram três anos intensos", lembra Fuscaldo.

A equipe da Gege (Fafá Giordano, da Gege Produções; Eveline Alves, da Gege Edições) ajudou no garimpo, a família Gil contribuiu com dicas e lembranças sobre momentos variados da vida e da obra do artista, e a também jornalista Cristina Doria, contratada por Flora, ficou responsável pela revisão. "Eram caixas e mais caixas de fotos, papéis, um monte de fitas... Eu era a ponte, a pessoa do lado do Gil", lembra a diretora da Gege, que deu a Fuscaldo e aos demais pesquisadores o acesso aos cassetes e materiais que, num verdadeiro trabalho arqueológico, precisaram ser identificados. 

Além das caixas de que Flora fala, havia um escopo razoável de itens sobre Gil já digitalizados pelo Espaço Tom Jobim — coisa de 10 mil. O problema, lembra Fuscaldo, é que havia falhas na identificação de algumas imagens: 

"Um caso concreto é o do disco 'esquecido' que o (Ricardo) Schott (pesquisador musical) e eu encontramos. As fotos da gravação desse álbum estavam catalogadas lá como se fossem de um show. De um modo geral, precisamos revisitar várias vezes as mesmas coisas para poder fazer a checagem." 

2. Uma, duas, três, quatro... 140 exposições — e contando

Um acervo tão amplo (e gerado ao longo de seis décadas de carreira de Gil, com direito a farto material sobre sua passagem pelo Ministério da Cultura e sua atuação política) precisava ser organizado logicamente. Dele, pois, surgiram as mais de 140 exposições, das mais genéricas — como "8 Momentos Que Fizeram Gilberto Gil" — a outras específicas sobre a Tropicália, o exílio, a volta ao Brasil, o estouro internacional, a luta política por democratização, as influências que ele deixou e deixa entre outros artistas, além da sua vida doméstica. 

"Eu organizei as exposições, e os textos delas são feitos ou por mim ou por vários outros pequisadores. Algumas foram divididas em várias partes: por exemplo, a discobiografia gilbertiana, que ganhou uma descrição resumida, claro. Mas, ainda assim, Gil tem quase a idade dele em discos, quase 80, entre autorais, ao vivo, trilhas sonoras, discos em dupla... Acabou ficando em seis partes", explica Fuscaldo. 

A preocupação de recontar a história do grande artista não só aos fãs, mas também a quem não o conhece, ficou patente.

"A gente quis fazer uma vitrine grande para a geração Z aprender sobre Tropicalismo, ditadura… Quisemos algo 360, equilibrado, para que se pudesse entender o perfil de um artista", conceitua Flora, que lembra: entre o período em que a pesquisa acabou e o lançamento, Gil se tornou imortal da ABL. "A vida dele é muito dinâmica. E a gente não vai parar. Minha ideia é continuar a atualizar o projeto, de repente de seis em seis meses, com lançamentos e novidades relacionadas a ele."

Algumas das muitas fitas analisadas pela equipe de curadores; no detalhe, o álbum 'perdido'

3. Uma equipe especializada no universo gilbertiano

Havia uma quantidade grande de fitas e raridades nas caixas de Flora. E Fuscaldo chamou uma equipe superespecializada em Gil para analisá-las, um luxo que poucos museus podem se dar. Ricardo Schott, ela lembra, descobriu em minutos o mítico álbum desaparecido, que Gil lembrava de ter gravado e jamais lançado, mas cujo registro havia se "perdido" no tempo. 

"Mandei para ele um material, e ele de cara falou 'esse pode ser o álbum de que o Gil já falou e que nunca foi encontrado'. Fomos ao encarte da caixa Palco, lançada pelo Marcelo Fróes em 2002, em que Gil falava disso, revisitamos as fotos do museu do Tom Jobim, e o Liminha me ajudou a identificar os músicos. É uma emoção muito grande esse processo, um prazer indescritível quando as coisas confluem assim e se encaixam, quando tudo dá certo. É tipo um 'bingo!', uma sensação de estar fazendo história", comemora a curadora. 

Marco Konopacki, pesquisador e especialista em pontos de cultura, embarcou no projeto para analisar o legado da atuação de Gil no governo federal, como ministro de Lula. Ceci Alves, jornalista e pesquisadora, para esmiuçar toda a militância política do cantor e compositor desde os seus tempos de vereador em Salvador. E Merval Pereira, escritor, jornalista e também imortal da ABL, para escrever uma análise do impactante discurso de posse do agora colega, que chamou à concórdia e ao otimismo em tempos tão obscuros no país. 

"Foi uma força-tarefa de primeira, um time dedicado que criou algo de uma dimensão inédita. O Gil gostou muito", resume Flora.

4. De casa para o museu

Outro grande diferencial deste para a maioria dos museus tradicionais foi o acesso amplo que a equipe de curadoria teve ao material mais íntimo de um artista vivo. Álbuns e mais álbuns de fotos de família, gravações musicais caseiras jamais lançadas, vídeos de momentos em casa... Tudo foi filtrado por Flora e incluído na parte sobre a vida pessoal de Gil. "Foi a quarta e longa etapa do processo. Tinha um montão de fotos do casamento, dos aniversários dos filhos, dos netos...", recorda Fuscaldo. 

"Tinha muita foto e situação repetida: o Gil dentro de casa, a primeira live dele, momentos cotidianos. Eu mandava 10, 20 opções, e a curadora escolhia", conta Flora, que completa:

"É tanta coisa que o Gil ainda está visitando tudo. Mais de 40 mil itens, dezenas de exposições: é uma vida toda refletida ali, levou décadas para construir e anos para montar. Não dá para ver em um dia."

Só alguns entre os muitos livros que serviram de base para a pesquisa e a curadoria

5. Museu de grandes novidades

Não é só o disco perdido que surpreende os visitantes do museu virtual. Coisas como um emocionado depoimento de Caetano a Fuscaldo em áudio, atribuindo a Gil a mentoria intelectual da Tropicália (que virou uma atraente montagem com fotos da convivência entre os dois e do movimento artístico) e um vídeo exclusivo da reação de Gil ao saber que fora eleito membro da ABL, gravado também pela curadora num momento de feliz coincidência, diferenciam esse museu.

Em vez de se ater a contar a história pregressa, a equipe buscou construir um panorama da obra e da vida do artista surpreendendo, gerando discussão e jogando a bola para a frente. 

"Nosso sonho é atualizar com uma coisa do Gil que não foi encontrada ainda. Todo mundo acredita que não será. Mas quem sabe?... É o início de um disco de 1971, que ele gravava em Londres quando soube que poderia voltar ao Brasil. Ele largou tudo e voltou correndo. O próprio Gil não se lembra direito do processo nem das músicas", diz Fuscaldo. "Fica a dica para quem quiser tentar resolver esse mistério (risos)."

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