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Brasil e mundo rendem homenagens a Gal Costa, morta aos 77 anos
Publicado em 09/11/2022

Artistas, personalidades e imprensa estrangeira destacam talento e voz única de uma das maiores intérpretes do nosso país

Do Rio

Foto de Júlia Rodrigues

O Brasil e o mundo rendem homenagens a Gal Costa, morta na manhã desta quarta (9) em sua casa de São Paulo. Não foi revelada a causa da morte da cantora, que havia cancelado apresentações nos últimos meses — entre elas a do festival Primavera Sound, no fim de semana passado — para se recuperar de uma intervenção cirúrgica que fez em setembro, na qual foi retirado um nódulo de sua fossa nasal. Ela deixa o filho, Gabriel, de 17 anos. O velório público ocorre nesta sexta (11), na Assembleia Legislativa de São Paulo.

A inesperada desaparição, aos 77 anos, de uma das maiores vozes da história da música brasileira não deixou ninguém indiferente. 

"Muito triste e impactado com a morte de minha irmã Gaúcha", escreveu em sua conta no Twitter o cantor, compositor e músico Gilberto Gil, brincando com o apelido carinhoso que lhe dera. Gil foi parceiro de Gal na única canção em que a monumental intérprete figura como coautora no banco de dados da UBC: "Quando", do álbum "Doces Bárbaros", de 1976, coescrita também por Caetano Veloso. 

Em vídeo, Gil ainda disse: 

"Nossa irmãzinha se foi. O pesar, a tristeza, a saudade, ... essas coisas ficam com a gente. Ela deixou tanta coisa, tantos sinais, tantas marcar importantes nos nossos corações. Encantou tanta gente com aquela voz de passarinho. Enfim, nossa irmãzinha se foi."

No Instagram, Maria Bethânia, outra das maiores intérpretes do país, postou um vídeo cheio de emoção falando sobre Gal:

"Eu nunca pensei um dia chegar a vocês para falar sobre a dor de perder Gal. O Brasil que ela sempre encantou com sua voz única, magistral, hoje, inteiro chora, como eu. Uma amiga que, mesmo longe, sempre mantive admiração e respeito. Deus a receba em sua mais pura luz."

A cantora e compositora Ana Carolina também mostrou incredulidade ao comentar a morte de Gal. E ressaltou o que, para ela, eram os grandes destaques do trabalho da baiana:

"A Gal Costa é uma das maiores cantoras e personalidades e artistas do nosso tempo na música popular brasileira. Sempre gravou compositores variados, sempre teve um apreço muito grande por seu repertório, por escolher a dedo as canções de seus discos. Fez discos primorosos."

Zélia Duncan foi sucinta no Twitter: 

"Ah, Brasil... Que vazio. Sem Gal Costa, que tristeza sem fim."

Mesmo tom teve Milton Nascimento, que publicou um vídeo através das suas redes sociais em que prometeu: 

"Eu te amo e vou te amar pra sempre. As saudades serão eternas."

Rita Lee, Ney Matogrosso, Djavan, Zeca Pagodinho, Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Sandra de Sá, Preta Gil, Marisa Monte, Céu, Teresa Cristina, Nando Reis, Pedro Mariano, Marcelo D2, Roberto Carlos, Criolo, Toquinho, João Bosco, Samuel Rosa, Diogo Nogueira, Liniker, Iza e Silva, entre vários outros, também lamentaram a morte de Gal. Muito abalado com a perda repentina da amiga, segundo fontes próximas, Caetano Veloso não comentou nada pela manhã nas redes sociais. Sua equipe compartilhou um vídeo que a equipe de Gal postou logo cedo, antes de a morte dela ser conhecida. No trecho, eles cantam juntos "Sorte" (Celso Fonseca e Ronaldo Bastos) numa edição de 1986 do programa Chico & Caetano, da TV Globo.

Horas depois, em entrevista ao programa Estudio i, da Globonews, Caetano disse, muito emocionado: 

"Era a maior cantora do Brasil. Eu ouvi mais cedo Nelsinho Motta falando que a voz de Gal era cristal e veludo, mas também labareda. E é incrível porque passou o primeiro disco, era todo quase veludo, com algum cristal, e depois veio mais cristal... e, de repente, no 'Divino Maravilhoso', explodiu o aspecto labareda."

No mesmo programa, Gil voltou a falar sobre a perda: 

"Muita emoção, porque na hora em que recebi a notícia até me controlei, porque a morte faz parte da vida, a gente sabe disso. A gente sempre procura e, numa certa medida, encontra o modo de deixar que a notícia da morte de um ente querido chegue de forma tranquila. Depois, com a compreensão da grandeza dela e da abrangência do que ela fez, do que ela fazia, da música que ela representava, e da comoção que foi se revelando mesmo no país inteiro, através do espalhamento da notícia, eu fui ficando muito assim", disse, visivelmente emocionado e sem poder completar a frase.

Diretor-executivo da UBC e presidente do conselho de administração da Cisac (a Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Editores), com a experiência de décadas como executivo no mercado musical, Marcelo Castello Branco resumiu o sentimento da nossa associação: 

"Gal Costa foi uma das vozes mais viscerais de sua geração. Foi uma doce bárbara. Levou a categoria de intérprete a fronteiras inatingíveis. Cantou e representou como ninguém obras transcedentais. Nos últimos anos, rejuvenesceu seu público, desembarcando em outros portos e compositores contemporâneos. Nos despedimos de uma voz inesquecível e insubstituível. A União Brasileira de Compositores lamenta e se solidariza com a família, amigos, toda a MPB e seu público."

Pelo mundo, mais homenagens, como a sentida publicação do cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler no Instagram:

"Maestra querida. Assim de vazios ficamos. Mudos. Te amaremos 'para siempre'."

Os sites de canais de TV como CNN e ABC (EUA), BBC (Reino Unido), France Info e France 24 (França), RTVE (Espanha) e SIC (Portugal), além dos jornais El País (Espanha), Clarín (Argentina), The Guardian (Reino Unido), Diário de Notícias (Portugal), entre muitos outros, deram a notícia e exaltaram a voz cristalina e afinadíssima e o talento natural da cantora, que tinha shows previstos para as próximas semanas na Europa. Seriam os mesmos que ela vinha apresentando no Brasil desde outubro de 2021, com a turnê "As Várias Pontas de Uma Estrela", uma revisita a grandes sucessos dos anos 80 da MPB, como "Açaí" (Djavan), "Nada Mais" (Stevie Wonder, com versão de Ronaldo Bastos) e "Lua de Mel" (Lulu Santos).

UMA HISTÓRIA LIGADA DESDE SEMPRE À MÚSICA

Nascida em 26 de setembro de 1945, em Salvador, Gal demonstrou ainda menina que tinha um talento ímpar para a música. Afinadíssima e dona de uma voz suave, ela encontrou o mito da bossa nova João Gilberto, ainda nos anos 1960, que, ao ouvi-la, cravou: "Você é a maior cantora do Brasil."

Depois do começo na própria bossa, ela abraçou o Tropicalismo ao lado de Gil e Caetano, do qual se tornou uma musa, imprimindo força, beleza e espírito rebelde a interpretações de hits como "Baby" e "Não Identificado" (Caetano Veloso) ou "Mamãe, Coragem" (Caetano e Torquato Neto). Dali, como uma migrante musical sempre curiosa pelo novo, foi para a MPB e abraçou o pop. 

Dorival Caymmi, Ary Barroso e Tom Jobim foram compositores responsáveis por álbuns inteiros de Gal, mas poucos foram tão presentes, e em diferentes fases da vida dela, como Caetano. Desde o LP de estreia dela, com a canção "Domingo", de 1967, ao lado dele, até "Recanto", álbum de 2011 inteiramente escrito por ele, foram dezenas de colaborações. 

O salto para o cenário nacional veio com a substituição de Nara Leão no musical "Opinião", em 1965, no Rio. Naquele mesmo ano, ela gravou seu primeiro registro num disco, a estreia de Bethânia. O dueto que elas fizeram em "Sol Negro" (Caetano) virou um clássico quase instantaneamente. 

Ao longo dos anos 1970, sempre próxima da contracultura e dos movimentos de contestação à ditadura militar, Gal se tornou uma espécie de mantenedora do legado da Tropicália enquanto Gil e Caetano eram exilados forçosamente no período mais duro do regime de exceção.

Quando eles voltaram ao Brasil, foram parceiros de Gal na concepção de alguns dos discos mais importantes da carreira dela — e da MPB —, como “Índia” (1973), “Cantar” (1974) e “Gal Canta Caymmi” (1976), que trouxeram interpretações clássicas de “Barato total” (Gil) e “A Rã” (João Donato e Caetano) e “Só Louco” (Caymmi). Na mesma época, os três mais Bethânia formaram o grupo Doces Bárbaros, que nasceu como show e, por uns anos, ganhou vida própria. 

O espírito libertário dela a tornou musa ainda das dunas da Praia de Ipanema, no Rio, rebatizadas com o nome Dunas da Gal nos anos 70, um território livre em que se forjavam movimentos artísticos e culturais. Nos anos 1980, já completamente embebida do pop em que militou por muitos anos, gravou canções de intérpretes tão variados como Tim Maia, Michael Sullivan & Paulo Massadas, Guilherme Arantes, Rita Lee, Roberto e Erasmo Carlos.

Nos anos 90, época da redemocratização, ela não deixou de provocar discussão. Gravações como "Brasil", de Cazuza, de 1988, continuaram a reverberar na década seguinte, bem como "Vaca Profana", escrita por Caetano. Em 1993, elas integraram o repertório do mítico show "O Sorriso do Gato de Alice", dirigido por Gerald Thomas, em que Gal mostrava os seios enquanto cantava "Brasil". A participação constante em programas de TV, como o lendário "Acústico MTV" de 1997, ao lado de Herbert Vianna e Zeca Baleiro, a manteve sempre no radar das novas gerações. 

Isso se confirmou no percurso que teve em sua discografia nos anos 2000/2010, sempre se renovando ao lado de compositores jovens. Se o já mencionado "Recanto" (de 2011), todo composto por Caetano, foi um dos responsáveis por catapultar a nova fase da carreira de Gal, em álbuns seguintes como “Estratosférica” (2014) e “A Pele do Futuro” (2018), ambos assinados pelo produtor Marcus Preto, ela se uniu a nomes como Mallu Magalhães, Marcelo Camelo, Tim Bernardes, Silva e Dani Black. 

Em 2017, fez uma de suas turnês de maior repercussão nos últimos anos: "Trinca de Ases", com Gil e Nando Reis, tema da capa da edição 33 da Revista UBC

Neste 2022, esperava-se que Gal recriasse, 50 anos depois, o show "Fa-tal" para sua apresentação do fim de semana passado no Primavera Sound. Não deu. Além da lembrança de uma das maiores de todos os tempos e das gravações de centenas de canções interpretadas por ela que permanecerão, ano que vem será lançada uma cinebiografia de Gal, com a atriz Sophie Charlotte vivendo-a na tela grande. Com tantas fases de ouro numa carreira profícua e ímpar, o foco de "Meu Nome é Gal" será o período de 1967 a 1971, em que ela ajudou a revolucionar a música nacional com a Tropicália.

VEJA MAIS: Trinca de entrevistadores: Gal, Nando e Gil mandam perguntas uns aos outros, em vídeo exclusivo para a UBC


 

 



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