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Paulinho da Viola: 80 anos com discrição e homenagens
Publicado em 22/11/2022

Artistas como Marisa Monte e Teresa Cristina, além de pesquisadores, falam da obra do Príncipe do Samba

Por Chris Fuscaldo, do Rio

Colaboração de Carlos Eduardo Lima, do Rio

Foto de Leo Aversa/Divulgação


“Sua música é fina, seus sambas são elegantes, suas harmonias, ricas, suas melodias, complexas. Ele faz um samba único, sofisticado e original, um diálogo singular e pessoal entre o choro e o samba, fruto de sua vivência ímpar.”

As duas frases proferidas por Marisa Monte na semana em que Paulinho da Viola completou 80 anos definem quem é o sambista que, diferentemente de todos os outros octogenários de 2022, passou o aniversário sem fazer muito alarde, tranquilo, na dele, lapidando ideias no seu tempo e se preparando para os shows da turnê de celebração.

“É muito sintomático todo mundo ter uma comemoração grande e o Paulinho, não. Ele não gosta do holofote”, explica o jornalista especializado em samba João Pimentel. 

Coerente com o seu modo de viver, com a história que construiu na música brasileira, com o que os fãs esperam do Príncipe do Samba. Dois anos antes de lançar seu último álbum de inéditas, “Bebadosamba” (1996), em uma entrevista à Rede Minas, atualmente disponível no YouTube em um especial da emissora sobre os 80 anos do músico, Paulinho da Viola confessou: 

“Eu durmo muito pouco e tenho uma vida muito caseira. Tem muita coisa que eu deixei de fazer. Jogar futebol, por exemplo. Eu fui um medíocre jogador, mas eu praticamente não jogo mais. Você tem que fazer opção por algumas coisas. A marcenaria, eu tenho habilidade desde menino, um hábito. Eu era o menino que mexia nas coisas, consertava os eletrodomésticos, fazia um banco. (...) Eu era um pouco viciado nisso. Precisava ficar cortando as coisas, no meu canto. Não sou de bares. Eu não sou de ir ao cinema, teatro. Vou uma vez ou outra. Eu sou mais marceneiro, entendo mais a técnica da marcenaria do que a da mecânica.”

Paulinho vive assim, fazendo pausas não de mil compassos, mas mais longas do que um mercado musical frenético costuma esperar de um artista tão basilar para a cultura brasileira. Nesses meios tempos entre compor e gravar, ele conserta carros e cria móveis como uma espécie de terapia. Mente e mãos de artesão também favorecem a criação das canções elegantes de que Marisa fala. 

Para a filósofa e cantora Eliete Eça Negreiros, autora da tese de doutorado “Paulinho da Viola e o elogio do amor”, defendida em 2012 pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, a obra do sambista é um convite a reflexões diversas:

“Além da beleza, da irradiação da perfeição de sua obra, há nas suas canções um olhar reflexivo sobre o mundo, sobre o ser humano e seus sentimentos e paixões. Um jeito de olhar o mundo, de falar do amor, da vida, enfim, das coisas que estão no mundo e que precisamos aprender. Na obra de Paulinho da Viola, muitas canções são um modo de filosofar. Há uma afinidade entre canção e filosofia. Neste sentido, há um texto da filósofa Olgária Matos que fala isto, que nas canções brasileiras muitas vezes se encontra uma filosofia moral, que nos ajuda a lidar com as alegrias e os reveses da vida. A obra de Paulinho da Viola é de grande beleza, graça e sabedoria. Ela representa um dos pontos altos da nossa brasilidade. E também da nossa humanidade.”


Marisa e Paulinho juntos. Foto: João Luís Soares


Quem é Paulinho da Viola

Paulo César Batista de Faria não caiu no samba por acaso: seu pai, César Faria, era integrante do grupo de choro Época de Ouro. Viver de música é que acabou sendo uma mudança, porém um tanto natural: de bancário, o jovem foi cada vez mais sendo absorvido pelos encontros musicais que já tinha dentro de casa, pela Portela, por parceiros que foram chegando à sua vida. 

“Paulinho absorve tudo em torno dele: o pai e os amigos chorões; na época em que era garoto, o carnaval de Botafogo, com desfiles de blocos um atrás do outro; o encontro com nomes como Walter Alfaiate e a regravação de suas composições; o encontro com Zé Kéti, importante para a chegada dele à Portela. E, quando ele tem uma oportunidade, a primeira coisa que faz é gravar a Velha Guarda, em 1970, juntando todos aqueles caras que admirava, Chico Santana, Manacéa, Casquinha, Monarco...”, diz João Pimentel.

Em 1965, depois de ficar amigo do produtor Hermínio Bello de Carvalho, acabou convidado a integrar o musical “Rosa de Ouro”, que lançou Clementina de Jesus, tirou Aracy Cortes do ostracismo e reuniu, entre outros, Elton Medeiros, com quem no ano seguinte lançou seu primeiro álbum, “Samba na Madrugada”. Com palavras doces, uma timidez marcante, Paulinho da Viola ganhou a alcunha de Príncipe do Samba.

“O samba tem muito disso: ‘Fulano é o rei do samba’; ‘Fulano é a mais alta patente do samba’. É bem preciso ele ser o Príncipe do Samba, porque o apelido traduz a simplicidade, a timidez, o respeito pelo mais velho, pela história. Ele é o herdeiro mais legítimo dessa Velha Guarda da Portela que acabou quando Monarco morreu”, analisa o jornalista.

Paulinho aprendeu com “essa” Velha Guarda – cujos integrantes aprenderam com Paulo da Portela, fundador da escola de samba – que sambista não devia andar descalço para não sofrer preconceito. E foi ele quem virou referência para os anciãos. Não à toa ganhou de Monarco uma homenagem-comparação na letra do samba “De Paulo a Paulinho”: “Paulo da Portela, nosso professor / Paulinho da Viola, o seu sucessor / Vejam que coisa tão bela / O passado e o presente / Da nossa querida Portela”. 

No mesmo ano que deu o empurrãozinho à Velha Guarda com a produção de “Portela Passado e Glória” (1972), apresentou ao mundo “Foi um Rio que Passou em Minha Vida”. Foi desse disco, lançado há exatos 50 anos, que Marisa Monte tirou a faixa-título, “Dança da Solidão”, para regravar em seu terceiro álbum, “Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão” (1994). Marisa conta que se aproximou de Paulinho por causa da Portela: 

“Conheci o Paulinho pessoalmente pela primeira vez no backstage de um show dele no Teatro dos Quatro. Fui apresentada pelo meu pai, que já o conhecia da Portela. Eu estava começando a cantar. A partir dali, nossas vidas se cruzaram várias vezes, e desenvolvemos uma relação de parceria e amizade. Um dos maiores prazeres para mim foi passar algumas tardes ouvindo LPs na casa dele. Ele tem uma discoteca incrível e é um grande DJ.”

Além de “Dança da solidão”, Marisa pinçou outras canções de Paulinho para discos seguintes: “Para Ver as Meninas” está em “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor” (2000), e “Pra Mais Ninguém”, em “Universo ao Meu Redor” (2006). 

“Realmente a obra do Paulinho é impressionante, são muitas canções maravilhosas e inspiradoras, mas essas escolhas (que faço) são sempre intuitivas. São músicas de que eu gosto muito e que também gostam de mim. Simples assim”, define Marisa.

Em 2000, a cantora realizou algo parecido com o que o Príncipe fez 30 anos antes: produziu um novo álbum da Velha Guarda da Portela, “Tudo Azul”: 

“Temos várias coisas em comum, o fato de sermos do Rio e amarmos o samba e a Portela. Somos reverentes em relação ao passado, gostamos de história.” 

Outra cantora importante para a divulgação da obra do Paulinho é Teresa Cristina, que em 2002 apareceu na cena carioca fazendo um tributo a ele em palco e em disco.

“O samba tem essa coisa meio cíclica. Cartola teve sua época, sumiu, encontraram lavando carro, ele voltou, gravou. E, quando há esses encontros, as portas se abrem. Sem dúvida, Teresa Cristina foi peça fundamental, fazendo aquele tributo com músicas conhecidas e menos conhecidas do Paulinho com uma voz limpa, bonita, econômica. Paulinho a ajudou a entrar no circuito, e Marisa ajudou a Velha Guarda a chegar a palcos maiores e ganhar autonomia de voo”, descreve João Pimentel.


Disco de Teresa dedicado a Paulinho: homenagem gravada


Carioca também, como Paulinho e Marisa, Teresa Cristina até hoje cultiva uma relação de fã com ele e reforça algo que pouca gente sabe: apesar de tímido, ele adora encontros e um bom bate-papo.

“Paulinho da Viola é um dos maiores compositores da música popular brasileira. Uma figura muito importante para o samba brasileiro. Ele sintetiza, na obra dele, o passado e o futuro do samba. E sempre nos coloca, aos fãs dele, olhando para a frente, para a cultura. Não somos amigos, gostaria muito... Claro, quando nos encontramos, conversamos. É um bom contador de histórias, que adora encontrar os amigos. Para mim, é difícil transpor esse lugar de fã. É muito tempo que gosto dele como artista, cantor, compositor, intérprete, portelense... Um exemplo de brasileiro vivo.” 

Apesar da distância física, Teresa Cristina voltou a se aproximar da obra de Paulinho indo mais adiante com as comemorações do aniversário do ídolo:

“Lancei um show agora, ‘Paulinho 80+20’, em que homenageio os 80 anos dele e revisito meu álbum com músicas dele, que completa 20 anos. Pelo momento que o país vive atualmente, uma música muito importante que fiz questão de colocar no repertório do show é uma parceria dele com o Elton Medeiros chamada ‘Recomeçar’. Esse é o espírito agora: arregaçar as mangas e reconstruir o país de novo.” 

Coautor (com Zé McGill) do livro “Mordaça - Histórias de música e censura em tempos autoritários”, Pimentel reconhece que há política na música de Paulinho, mas muito mais focada na crítica social: 

“Ele não chega a ser político, mas, na época dos festivais, apresenta ‘Sinal Fechado’, que acaba virando uma música que fala do medo de falar na época da ditadura. Na música do Paulinho tem política porque dentro do samba já tem muita crítica social. Quer coisa mais atual que ‘Pode guardar as panelas / Que hoje o dinheiro não deu’ (versos da canção “Pode guardar as panelas”, que abre o disco “Coração Leviano”, de 1985)?”

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