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Erasmo Carlos, 80 anos: após vencer câncer, ele lança doc e grava disco
Publicado em 05/06/2021

Em entrevista à UBC, Tremendão agradece por tudo o que a vida lhe deu, comenta o desejo de retomar os shows no pós-pandemia e fala sobre seus vários projetos em andamento

Por Kamille Viola, do Rio

Erasmo Carlos: na ativa desde meados dos anos 60. Foto: Guto Costa

 

Apesar da pandemia, Erasmo Carlos tem muito o que comemorar neste sábado, 5 de junho, quando completa 80 anos. O artista acaba de descobrir que está curado de um câncer, doença que só revelou na semana passada, quando também tomou a segunda dose da vacina contra a Covid-19. “Eu estou esperançoso, feliz, de uma certa forma. É o segundo do qual eu consigo me livrar. O primeiro foi de garganta, há uns 20 anos, e agora esse no fígado. É uma vitória muito grande. Aí, em seguida, eu me vacino com a segunda dose. Me dá uma esperança. Sem querer fazer trocadilho (risos), me dá uma injeção de vida, de ânimo”, conta à UBC.

O Tremendão parou todas as atividades há mais de um ano, com o início da pandemia no Brasil, e se “refugiou” em casa, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, com a mulher, a pedagoga Fernanda Passos. “A gente dispensou as pessoas todas que trabalhavam mais próximo, eu parei de fazer shows. Não saímos para jantar fora, ir ao cinema, nada. Ficamos em casa. Nós somos o que chamam por aí de idiotas, mas nos consideramos ‘idiotas’ inteligentes”, disse, referindo-se a uma fala do presidente Jair Bolsonaro sobre pessoas que ainda estão em isolamento. “Já me vacinei duas vezes, mas continuo seguindo as regras de cuidados, com distanciamento, máscara, assepsia, essa coisa toda. Quando a ciência liberar, aí eu me liberto, voltarei para minha vida antiga, para a estrada”, garante.

"Hoje em dia eu sou um cara que só agradeço, não peço mais nada.”

A exceção foi a gravação para o documentário “Erasmo 80”, produzido pela equipe do programa “Conversa com Bial”, na semana passada. A estreia está prevista para este mês. “Foi a única saída que eu dei. Eu com minha banda. Olha, foi uma saudade imensa a gente tocar junto! Há um ano e quatro meses que a gente não tocava junto. Que saudade, que bom, sabe? Isso é o ar que eu respiro, a estrada, minha vida e tudo mais. Eu estou sem isso. E outros por aí”, lamenta.

Ele estava pronto para gravar um novo álbum — o mais recente é “Amor é isso”, de 2018, e no ano seguinte lançou o EP “Quem Foi Que Disse Que Eu Não Faço Samba…” — quando a pandemia se instaurou no Brasil. Agora, espera o cenário no país melhorar para gravar “O Futuro Pertence à Jovem Guarda”. O título é uma frase de Lênin que inspirou o nome da coluna “Jovem Guarda”, de Ricardo Amaral, e posteriormente do programa de TV apresentado por Erasmo Carlos, Roberto Carlos e Wanderléa entre 1965 e 1968, que terminaria por batizar um momento musical do qual os três foram os grandes expoentes. O Tremendão vai gravar músicas do período que não foram compostas por ele.

Erasmo conta que ficou cerca de um ano sem pegar no violão, porque estava focado no trabalho que planejava lançar e viu tudo ser interrompido abruptamente. “A minha estreia está represada na garganta. Assim que se abrir a janela, se abrirem as portas todas para a volta da ‘normalidade’, entre aspas, eu já estou com o trabalho em cima, vou sair quicando a bola para fazer a cesta”, brinca. Mas ele adianta que agora está criando uma letra para uma parceria com Supla, que vai voltar com a dupla Brothers of Brazil (ao lado de João Suplicy, seu irmão), e compôs uma melodia que vai ganhar letra de Emicida, a terceira parceria dos dois. A canção vai para o disco de Alaíde Costa produzido pelo rapper ao lado do produtor musical Marcus Preto.

"Não era esse o mundo que eu imaginava, não, nos anos 70. Eu imaginava um mundo mais compreensivo, estou sentindo a humanidade involuir."

Ele revela que o momento atípico e difícil que estamos vivendo o tem feito refletir bastante. “A pandemia obrigou a gente a parar de trabalhar, então obrigou a gente a fazer balanço da vida. Eu estou procurando me adaptar aos tempos e seguir as coisas que têm que seguir, procurando me aperfeiçoar sempre como ser humano. E aprendendo muito, principalmente com o comportamento das pessoas nessa pandemia, e me decepcionando um pouco”, admite. “Não era esse o mundo que eu imaginava, não, nos anos 70. Eu imaginava um mundo mais compreensivo, estou sentindo a humanidade involuir. Com tanto avanço tecnológico, era para o mundo estar muito mais esclarecido, mais direto nas metas principais de sobrevivência, de bem-estar, de acolhimento e aconchego à população. Mas não estou vendo nada disso. Vejo cada dia mais egoísmo, mais individualismo. É isso que não me deixa ser feliz totalmente. Com meus 80 anos, eu me sinto um cara muito feliz. Mas não posso ser feliz totalmente sabendo dessas coisas todas que rolam por aí, desses preconceitos todos, das intolerâncias, do ódio”, desabafa.

O Tremendão: isolamento em casa e fé na ciência

 

Ainda assim, ele se sente grato por chegar aos 80 anos sendo tão prestigiado e querido pelo público, com uma carreira em plena atividade. “Fico me sentindo realizado como ser humano. Fico analisando minha vida, minha honestidade, minha dignidade, minha coerência com as coisas. Fico vendo como meus netos me tratam, como meus filhos me tratam, a admiração deles, o carinho que eles têm por mim. Minha mulher, maravilhosa, como ela me ama. As palavras de carinho das pessoas que eu encontro por aí, os shows, como eu sou recebido, o respeito que as pessoas têm por mim. Isso me deixa com uma satisfação imensa, eu não tenho palavras para agradecer isso tudo que aconteceu e acontece comigo. Eu queria muito menos, almejava muito pouco da vida, almejava só um teto para morar, e consegui muito mais do que isso. Hoje em dia eu sou um cara que só agradeço, não peço mais nada”, garante ele.

"Há um ano e quatro meses que a gente não tocava junto. Que saudade, que bom, sabe?"

Nada mal para um artista que, quando lançou seus primeiros compactos, em 1964, não tinha noção de que sua carreira teria tanta longevidade. “Eu estava contando uma história: eu tinha 18 anos quando apareceu o jeans no Brasil. Eu amei, comecei a usar e disse: ‘Puxa, gostei dessa roupa, pena que não vou poder usar ela quando eu tiver meus 40 anos, porque aí vou estar de terno e gravata.’ Aí, quando cheguei aos 40, disse: ‘Poxa, pena que não vou poder usar meu jeans quando fizer 60 anos.’ Aí foi passando, já estou com 80, continuo a usar jeans e pretendo continuar usando sempre”, diverte-se.

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