No

cias

Notícias

Jaime Alem e Nair Cândia: do pioneirismo independente aos NFTs
Publicado em 28/03/2022

Dupla relança álbum cult dos anos 70 — ainda atual — e aposta em certificados digitais colecionáveis

Por Alessandro Soler, de Madri

No final dos anos 1970, eles foram pioneiros na produção, gravação e distribuição independentes, enquanto o modelo tradicional ainda estava longe da crise que a pirataria traria. Em 2022, inovam ao aderir aos NFTs enquanto a maioria de nós ainda tenta entender o que exatamente são esses certificados digitais colecionáveis. Com o mesmo espírito experimental e de vanguarda, Jaime Alem e Nair Cândia, parceiros na vida e na arte, relançam o álbum "Amanheceremos", que, nestas quatro décadas de existência, virou peça de culto — mantendo-se atual em suas letras, temas e sonoridades.

Num papo com a UBC por telefone, Alem, que é maestro, arranjador, compositor e intérprete — e, por 28 anos, foi diretor musical de Maria Bethânia —, explica por que os dois decidiram resgatar o disco em versão remasterizada. E comenta como imagina que os NFTs ajudarão a revolucionar o financiamento direto dos fãs aos artistas. 

 

"Amanheceremos", lançado em 1979, traz um espírito de explosão democrática, de fim de ditadura. O momento agora é outro, para muitos quase oposto. Acha que a mensagem continua atual?

JAIME ALEM: Integramos o movimento de músicos e produtores independentes nos idos dos anos 70, em plena campanha pela abertura democrática. Esse LP tem uma história linda de engajamento no movimento pela Anistia, naqueles tempos de chumbo. Achamos muito apropriado relançarmos no digital agora, tanto pelos fãs, que nos pediam para fazê-lo, quanto pelo momento que vivemos. Aliás, muitos o consideram atualíssimo. Além disso, o disco tem muitas publicações no YouTube, com milhares de visualizações, feitas por fãs, gente que o colocou ali porque não estava disponível em outro lugar. Acho bacana o interesse pelo "Amanheceremos", mas são publicações de qualidade questionável. Então, achamos que é uma lacuna que precisaríamos preencher.

A atualidade das gravações também fica evidente quando constatamos que vocês quase não mexeram nos arranjos...

Exato! Quase não tocamos neles. O Gian (Uccello, do selo Agente Digital, pelo qual o disco está sendo relançado), quando ouviu a primeira sessão aqui em casa, disse "que som é esse? É muito forte!”. É muito mais pop que MPB, tem pegada muito forte. Nas letras, abordamos sempre questões políticas, e não me refiro à política partidária. São questão atuais, o que vivemos no dia a dia, como nossas decisões sociais afetam a nossa vida. A gente se preocupa muito com isso e pensa nisso como forma de dar uma contribuição amorosa às dificuldades que vivemos. Duas das músicas, "Misturei, Mandei", parceria minha com Carlos Roberto Rocha; e "Coração Vazio", uma composição minha, são das mais pop que fizemos. Na época, por limitação de espaço mesmo, tivemos que deixá-las de fora. Agora as oferecemos no pacote dos NFTs...

A dupla num show na época do lançamento original do disco, em 1979. Foto: arquivo pessoal

E como surgiu essa ideia dos NFTs?

Foi através do Gian. Fizemos reuniões, ele adorou o projeto "Amanheceremos" e topou o lançamento. Aí propôs transformar conteúdos exclusivos em NFTs, para que os fãs possam colecioná-los, ter a propriedade de algo relacionado ao trabalho. É muito interessante, potencialmente revolucionário. Ainda tenho dúvida sobre o alcance do NFT no Brasil, ainda está começando. Mas, se pegar, é uma chance de o artista financiar o seu trabalho. Para a gente, pode ser a possibilidade de subsidiar o novo álbum de Jaime e Nair, que queremos lançar até o fim do ano.

O que são exatamente os NFTs que estão oferecendo?

São 5 conteúdos diferentes (MP4, certificado de blockchain, três fonogramas inéditos, vídeos exclusivos e registros da época), com 10 cópias de cada unicamente. É algo bem exclusivo. O leilão para tentar adquirir um desses NFTs é feito digitalmente, no endereço https://kickoff.market/

Por que não incluíram essas músicas inéditas no próprio disco?

A ideia era mesmo oferecer algo diferente como NFT. São músicas que ficaram em fitas perdidas, extraviadas, durante 40 anos, imagina! Então, de repente, durante a pandemia, e com todos dentro de casa, fomos remexer nos arquivos e as descobrimos. Fizemos uma boa remasterização com o Ricardo Garcia, que é um grande profissional. Tem também a gravação de uma música extra que cantamos durante um show em Juiz de Fora (MG) em 1978. Disponibilizamos essa versão do show acústico, voz e violão.

A capa original do disco: produção completamente independente. Foto: reprodução

Você mencionou um novo disco de inéditas no fim do ano. Tem composto muito? Como é o seu processo criativo?

Durante a vida, meu processo criativo foi mudando. Era muita inspiração, muita motivação, na juventude. Compus muito, muito mesmo. Atualmente, é claro que a gente produz menos, mas a motivação persiste. Por exemplo: a pandemia. Na pandemia eu compus pelo menos 15 músicas. Você vive situação em que quer se expressar. O Trio Janaju, formado por mim, a Nair e a Jurema, que também é cantora, lançou a música "Homens de Pedra" durante a pandemia. E, nesse período tão complicado, nós acabamos fazendo muitas coisas criativas, muitas lives. Eu apresentei muitas músicas novas nas lives. Então, material para um disco novo tem com certeza.

"Homens de Pedra" fala da expectativa do ser humano: esperar que alguma coisa ou alguém ou entidade ou milagre caiam do céu para nos salvar. Quando, na verdade, tudo tem que ser feito por nós, pelo homem. Fizemos um vídeo, que está no YouTube, em que mostramos cenas de alguns rituais religiosos, tudo com cuidado e respeito. No final, tem um texto, um discurso político que diz, mais ou menos, assim: se não tivermos amor, solidariedade, consciência, empatia, não haverá céu. Podemos terminar numa guerra nuclear. E o final do vídeo é uma explosão nuclear, apenas o som dela. Foi profético, num certo sentido, é o que está acontecendo (com a guerra na Ucrânia e o perigo, não totalmente descartado, de um conflito nuclear em escala global). A humanidade realmente não aprende nada.

LEIA MAIS: Mú Carvalho: "quando alguém traz no DNA a composição, faz toda a diferença"

LEIA MAIS: Eduardo Lage, maestro de Roberto Carlos: "deu tudo certo pra mim"


 

 



Voltar