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5 dicas para produzir a sua primeira turnê na Europa
Publicado em 10/06/2022

Tocar no verão europeu é um desejo de muitos artistas brasileiros; produtores contam o que é preciso

Por Eduardo Lemos, de Londres

Foto de Djavan durante show em Londres: Bruna Casotti

Se você passar por algum aeroporto da Europa nos próximos meses, é capaz de encontrar Marisa Monte, Milton Nascimento e Gilberto Gil. Ou ainda as bandas indie Francisco El Hombre, Cao Laru e Boogarins. E as cantoras Céu e Marina Sena. E o Alceu Valença, o Silva, a Anavitória… a lista é grande.

É que vai começar o verão europeu. A estação, que dá as caras oficialmente em 21 de junho, representa não apenas a chegada do calor ao continente, mas também a alta temporada de shows, festivais e eventos ao ar livre, o que abre espaço para artistas do mundo inteiro se apresentarem, incluindo os brasileiros que costumam ocupar lugar de destaque nestes line-ups.

Mas e os artistas que desejam levar a sua música para o outro lado do Atlântico pela primeira vez? Como começar esta relação com o mercado de lá? Quais os desafios atuais com a desaceleração da pandemia? A UBC conversou com produtores brasileiros com larga experiência na produção de turnês europeias e traz 5 dicas para artistas brasileiros estrearem em grande estilo nos palcos do Velho Mundo.

1 - Planejamento

Os especialistas recomendam que a produção de uma turnê internacional comece com 12 a 18 meses de antecedência. "Para organizar e montar turnês pela Europa e Estados Unidos, é necessário ter muita antecipação de contatos, estudar o mercado dos países por onde se vai passar, ficar atento às características de cada local. Não é como no Brasil, que você organiza um show da noite para o dia", alerta Carlo Bruno Montalvão, empresário e dono da Brain Productions Booking, empresa especializada na realização de turnês de artistas independentes brasileiros no exterior. Ele já excursionou por mais de 15 países com bandas como Glue Trip, The Baggios, Atalhos e Quarto Negro.

"A antecedência permite reduzir muito o custo de passagens e hotéis. Além disso, existe a vantagem de se poder abrir a venda de ingressos meses antes. Isso é especialmente importante em cidades grandes, onde é mais difícil alcançar o público", reforça o produtor Manitu Szerman, diretor da companhia britânica Backstage Productions, responsável por levar Milton Nascimento, Gal Costa, Zeca Pagodinho, Gabriel, O Pensador, Djavan, Maria Rita, Roberto Carlos e outros nomes da MPB para os palcos de Inglaterra, Itália, Espanha e Portugal.

"Para um artista que nunca excursionou para fora do Brasil, é importante ter em mente que ele vai construir tudo do zero", lembra Carlo. Portanto, para alcançar o verão europeu de 2023, a melhor hora para começar é agora.

2 - Apresentação

Muitas vezes, o primeiro contato que um programador ou booker tem com a banda é lendo o seu release, vendo as suas fotos ou assistindo aos seus vídeos. Por isso, caprichar na criação destes materiais é essencial. "É importante também que tudo esteja traduzido para o inglês, pelo menos. No caso de vídeos, pode ser interessante legendá-los", observa Manitu.

"A palavra do manager e booker é importante, mas ela só funciona se o artista tiver um bom conteúdo para apresentar. Meu conselho para artistas iniciantes é: crie bons conteúdos; grave vídeos onde os promotores de shows e festivais possam ver a sua performance ao vivo; e produza videoclipes de qualidade. Em resumo, crie formas de destacar seu trabalho", diz Carlo.

3 - Pesquisa

Em geral, todos os países da Europa têm festivais e casas de shows que contratam artistas brasileiros, do indie ao mainstream. Manitu e Carlo são unânimes em apontar Portugal como o território mais interessante para o artista brasileiro atualmente, mas ambos também destacam Itália, Espanha, Reino Unido, Irlanda (em especial Dublin) Alemanha e Holanda (em especial Amsterdã). "O Leste Europeu não deve ser negligenciado. Certamente é mais difícil de ser trabalhado, mas existem ótimas oportunidades por lá. Vale a pena pesquisar festivais na Polônia, Romênia, Hungria e República Tcheca", alerta Manitu, que continua:

"É importante fazer uma boa pesquisa, ver quais bandas estão indo para estes países, em que casas de shows elas estão se apresentando e quem são os contratantes. Busque casas e festivais cuja programação tenha sinergia com o seu trabalho. Isso aumenta a probabilidade de os programadores contratarem o show. E o público desses festivais e casas, que já está acostumado a ver atrações semelhantes por lá, pode se interessar também pelo seu show."

Em seguida, é hora de fazer contato e mandar os materiais. Este trabalho pode ser feito pelo próprio artista, no melhor estilo do it yourself, ou por um profissional especializado. Manitu lembra que bookers (responsáveis pelo agendamento de datas) e promotores (responsáveis pela divulgação do show) trabalham de maneira distinta. "Promotores costumam lidar só em um território. Já os bookers normalmente atuam em um grupo de países. Por exemplo, quem vende shows na Holanda normalmente também o faz nos países próximos, como Bélgica e Luxemburgo".

Cartaz da turnê do The Baggios este ano na Europa

4 - Relacionamento

Há uma palavra - em inglês - que aparece diversas vezes na fala dos dois profissionais: networking, ou o bom e velho contato. Ambos são enfáticos quanto à necessidade de se relacionar com o mercado europeu antes de viajar.

"De nada adianta você montar uma turnê no exterior se você não conhece a cena local, se não tem pontes e laços com as pessoas que promovem os shows e se não tem vínculos com o território onde pretende excursionar", explica Carlo.

Ele sugere que o artista busque o apoio de parceiros locais ("amigos, outros músicos, bandas, casas de shows, promotores, talent buyers etc"); bookers e produtores; bandas ("importante para dividir experiências, possivelmente excursionar junto e dividir despesas e/ou até mesmo abrir shows para eles"), selos ("isso é uma das coisas mais importantes e também mais difíceis de se conquistar e pode ajudar a viabilizar turnês e a promover seu trabalho em outros países") e, por fim, que o artista tenha um manager ou agente de shows em cada região.

5 - Começar em casa

Enquanto não chega a hora de fazer as malas, há diversas ações que o artista pode realizar à distância, segundo Manitu. "Além de fomentar o networking usando a internet, é possível trabalhar as suas redes sociais direcionando publicações para cativar a atenção do mercado europeu. Se possível, é bom investir em impulsionamento, e no começo não precisa ser um grande valor."

Outra dica é definir detalhes artísticos antes de cair na estrada, como, por exemplo, criar um roteiro de show que chame a atenção do público internacional. "Além disso, é preciso lembrar que um dos maiores desafios na vinda do Brasil para a Europa é a questão logística. Hotéis, passagens aéreas, transportes internos… tudo isso é caro. É importante pensar numa forma bem enxuta de trazer o seu trabalho", afirma.

Por fim, Carlo lembra que a experiência adquirida no Brasil é primordial para o sucesso de uma turnê internacional: 

"Uma das coisas mais importantes para um artista que gostaria de realizar shows fora do Brasil é ter uma trajetória já estabelecida em seu próprio país. Ter um histórico de shows, uma certa 'casca de estrada'. Isso não quer dizer que você não pode realizar uma turnê sendo um artista iniciante. Você pode e deve. Mas faz muita diferença entender como funciona uma turnê antes de viajar."

Ah! É bom lembrar que ainda estamos em uma pandemia

Em 2020, o mercado de música ao vivo quase não trabalhou presencialmente. No ano seguinte, houve uma abertura lenta e parcial dos espaços. É somente agora em 2022 que público e promotores estão de fato experimentando um cenário menos restritivo.

"O mercado de música ao vivo na Europa ainda está sob pressão, embora pareça estar voltando bem e de forma estável", diz Alexander Walter, diretor da WOMEX, uma das mais importantes feiras de música do mundo, cuja edição desse ano acontece no mês de outubro, em Lisboa (POR).

Alexandre Walter. Divulgação

O executivo acredita que este pode ser um momento mais difícil para agendar shows. "Muitos concertos inicialmente acertados para 2020 ou 2021 só estão sendo realizados agora, o que significa um cenário mais desafiador para novos artistas", explica. Por outro lado, Alexander entende que o público está valorizando mais os eventos presenciais: 

"Ainda que as pessoas pareçam um pouco cautelosas e estejam deixando para comprar ingressos de última hora, elas estão prontas para consumir música ao vivo."

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