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Pesquisa quer mapear cantoras negras e indígenas da Bahia
Publicado em 16/09/2022

Projeto espera reunir dados que orientem políticas públicas e o mercado; veja como participar

De São Paulo

Viviane Pitaya, criadora da ideia original do levantamento. Foto: Carla Captural

Do extremo isolamento nasceu o impulso de conexão. Trancada em casa no período mais duro da pandemia, com os shows de lançamento do seu primeiro projeto autoral cancelados, sem renda nem perspectiva, a associada da UBC Viviane Pitaya — cantora e compositora baiana radicada em São Paulo — se lembra ter tido um estalo: "como estarão enfrentando essa situação outras cantoras como eu, negras, indígenas?" Sem nem sequer saber quantas eram e onde estavam essas artistas, ela começou a mapeá-las. Chegou a 500 nomes em menos de um mês e criou um bom banco de dados. Mas o que fazer com essa informação?

Aquele cadastro inicial, gérmen do projeto Frequências Preciosas — que já rendeu saraus, eventos e até um congresso para dar visibilidade às talentosas mulheres inscritas na plataforma — agora está virando pesquisa acadêmica. E o objetivo é produzir dados de qualidade para que o mundo da música possa entender onde estão as artistas pretas e indígenas, que tipo de som elas produzem, quais as características do seu modo de trabalhar, qual o potencial do mercado para elas. Não menos importante: toda essa informação, ela crê, poderia ser a base de políticas públicas que as incluam, num ciclo virtuoso que beneficiaria o mercado musical como um todo.

Viviane procurou a pesquisadora Júlia Salgado, que está cursando um mestrado na Universidade Federal da Bahia (UFBA), tinha a intenção de tratar do mercado musical no seu projeto e abraçou prontamente a ideia. Nascia a pesquisa "Cartografia das cantoras negras e indígenas da Bahia", que, a princípio, terá esse importante estado nordestino como foco, podendo se estender a todo o país num segundo momento. A coordenação geral é de Júlia, e também participa, como coordenadora de produção e gestão estratégica, a diretora criativa Raína Biriba. 

"Nunca fui da turma da música na Bahia, vim do teatro. Aliás, vim do gospel, fui de igreja. Meu objetivo inicial de apenas me conectar, de entender como estavam se virando pessoas como eu, acabou se transformando em outra coisa. Queremos dar visibilidade a muitas mulheres que o mercado não conhece porque, de repente, nem está procurando", diz Viviane. "Já passamos de 100 entrevistas muito detalhadas feitas, mas o potencial é enorme. Só no gospel, de onde eu vim, devem ser milhares de intérpretes e também compositoras pretas e indígenas na Bahia."

Este momento é chave para tornar a pesquisa uma fonte de dados robusta. Elas precisam que as mulheres da música se disponham a responder, acessando o site www.frequenciaspreciosas.com.br. O prazo dessa etapa de respostas ao questionário se encerra em 10 de outubro.

"São só 50 perguntas muito bem elaboradas, sucintas. Queremos saber coisas como cor, gênero, raça, serviços musicais aos quais têm acesso, se têm agente, estúdio, de que infraestrutura técnica e emocional dispõem", afirma Júlia. 

Júlia Salgado, a acadêmica responsável por coordenar a pesquisa. Foto: Aline Portela

Todas as fichas das artistas mapeadas terão foto, vídeo, informação de contato, links para suas obras em plataformas de streaming (se disponíveis). Mas perfis de todos os tipos são buscados.

"Temos colocado cartazes em bares, para que mulheres que cantam e tocam na noite também possam participar. Queremos mapear as desigualdades e características intrínsecas de todos os gêneros e estilos em que elas militam", descreve a coordenadora da pesquisa. 

Ela planeja a criação de uma espécie de interação georreferenciada no site, na qual quem consultar o banco de dados possa passar o cursor por uma determinada região do Estado da Bahia e saber quais cantoras/compositoras/musicistas atuam ali, em que gênero e de que perfil são.

"Não se trata de uma pesquisa de impacto econômico nem tem a pretensão de ser um censo. É uma percepção de realidade específica da economia da música, a das mulheres negras e indígenas que, tantas vezes, são invisibilizadas", analisa Júlia, que busca parcerias com secretarias de cultura e organismos que possam, a partir dos dados, pensar em ações específicas para fomentar a atividade musical de uma forma dirigida e baseada em informação de qualidade.

Elas estão em negociações com a SIM São Paulo para apresentar o projeto na próxima edição do megaevento, em dezembro. A predisposição do mercado para falar do tema pavimenta o trabalho, que tem apoio do Instituto Goethe. "Temos visto cada vez mais pesquisas sobre o tema, cada uma vai agregando uma coisa", celebra Júlia. 

"Todo mundo quer esse tipo de pesquisa. A gente antes não imaginava que dava para fazer algo tão focado e que trouxesse dados que pudessem se traduzir numa melhora para as mulheres na música", descreve Viviane. "Aí vieram a UBC (com o relatório Por Elas Que Fazem a Música), a Dani Ribas... e a gente viu que dava."

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