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Música latina, uma onda global que bate com força no Brasil
Publicado em 17/01/2023

Com 1% consolidado do mercado nacional, gêneros hispânicos furam bolha local e emplacam hits; especialistas analisam

Por Alessandro Soler, de São Paulo

Bizarrap e Shakira, nomes por trás da colaboração que foi para o topo das audições do Spotify global. Divulgação

Shakira lançou na quinta passada sua nova canção — uma colaboração com o estelar produtor argentino Bizarrap cuja letra é uma bomba atômica contra o ex dela, o ex-jogador do Barcelona Gerard Piqué. Um dia depois, na sexta, já era simplesmente a mais tocada do mundo no Spotify. Foi a segunda vez em poucos meses que uma estrela latina – a primeira foi Anitta, em março, com “Envolver” — chegou ao top 50 global da maior plataforma de streaming do planeta de forma meteórica. Mas tudo faz pensar que essas aparições serão cada vez mais frequentes. 

Algo especial acontece com a música latina no mundo, reverberando também no Brasil. E esse movimento parece ter vindo para ficar.

Ano passado, hits cantados em espanhol — sobretudo do gênero reggaeton (ou reguetón), mas também de rap, trap e pop — alcançaram a inédita marca de 6% do mercado americano, salto de 34% em dois anos, nas contas da consultoria Luminate (antiga Nielsen Music). Das 25 maiores turnês mundiais do ano, três (12%) foram de música latina. “Inventor” do reggaeton (ao menos no mainstream) com o megahit “Gasolina”, há quase 20 anos, o porto-riquenho Daddy Yankee planejou um modesto tour de despedida da sua carreira ao longo de 2022. Seriam 26 shows, a maioria nos EUA. Os milhares de ingressos para um megaconcerto num estádio em Los Angeles se esgotaram em meia hora, e a gira acabou se estendendo a 86 shows em diversos países. 

No Brasil, os números ainda são menos explosivos, mas igualmente inéditos. 

“A música hispânica chegou a 1% fixo do mercado brasileiro. Se surge um 'Despacito' (Luis Fonsi) ou um 'Malamente' (Rosalía), a coisa muda, cresce bastante. Mas 1% fixo é sem precedentes, sempre foi menos”, diz Paulo Junqueiro, presidente da Sony Music Brasil, gravadora que, segundo ele, abarca 56% do cancioneiro latino pop no nosso país. “Temos Shakira, temos Ricky Martin, temos Camilo (disco de ouro no Brasil em 2021). A aposta é clara. Ainda não é uma realidade mainstream, mas tem potencial para vir a ser.”

De fato, a ainda grande distância entre os números lá de fora e os daqui fica clara quando analisamos o Top 50 Global do Spotify e o seu equivalente nacional. Na lista internacional, Shakira continua lá em cima nesta terça-feira (17), agora em segundo lugar, desbancada por Miley Cyrus. Entre os 15 primeiros, aparecem também o colombiano Manuel Turizo, o porto-riquenho Bad Bunny e o espanhol Quevedo, todos com canções de gêneros variados (reggaetón, bachata, trap e rap) cantadas em castelhano.

Já no Top 50 Brasil, Shakira surge num honroso 18º lugar, com tendência de alta, e é a única representante hispânica numa lista dominada por Marilia Mendonça, Ana Castela, MC Menor HR, Mari Fernandez, MC K.K. e outros astros e estrelas nacionais do sertanejo, do funk e do piseiro.

Porém, a mera aparição de hits em espanhol na lista do Brasil, um dos mercados que mais consomem a própria música no planeta, já é algo a notar. Segundo dados levantados pelo Spotify com exclusividade para a UBC, só em 2022 a alta nas audições de artistas latinos por aqui foi de 12%, com a espanhola Rosalía como a artista mais ouvida. A faixa “Despechá” e o disco “Motomami”, ambos dela, foram, respectivamente, o single e o álbum em espanhol mais escutados (à exceção, claro, de “Envolver”, de Anitta, também cantado no idioma de Lionel Messi).

A espanhola Rosalía, a hispânica mais ouvida no Spotify Brasil em 2022. Divulgação

Outros dados apurados pela plataforma dão uma ideia do potencial de crescimento: ambientes urbanos (São Paulo na cabeça) e novíssimas gerações (18 a 24 anos de idade) são os líderes de consumo de canções latinas. No mundo, o reggaeton teve um salto de audições de 147% em só dois anos; o trap latino cresceu ainda mais, 187%. É só uma questão de tempo até que essa onda bata com força equivalente por aqui. 

“Bad Bunny vai ser headliner principal no próximo (festival) Coachella. É a primeira vez que isso acontece. O fenômeno é mundial e vem influenciando o Brasil também”, resume Carlos Taran, produtor e empresário no Brasil de artistas como o uruguaio Jorge Drexler. 

Drexler é, inclusive, um caso curioso. Ele não compõe ou interpreta reggaeton nem nenhum dos outros gêneros-locomotiva do novo trem latino. Ainda assim, faz sucesso por aqui.

“Jorge fala português, e isso é fundamental para estabelecer relações artísticas, profissionais e pessoais. Ao longo dos anos, ele foi fazendo uma troca artística (com criadores do Brasil). Também tem um fator muito importante: ele ter ganhado o Oscar (com a canção “Al Otro Lado del Río”, para o filme “Diários de Motocicleta”, de 2004). E, claro, sem nos esquecermos do mais importante: a música! O público se identifica e gosta do que ele faz”, descreve Taran.

Jorge Drexler: prestígio e carreira sólida no Brasil, mesmo fora dos gêneros mainstream latinos. Divulgação/Antón Goiri

Quem também aposta em gêneros diferentes aos desse novo mainstream latino global é a banda colombiana Monsieur Periné. Eles fazem uma originalíssima fusão de pop, jazz, bolero, sons africanos, sons ciganos. Com duas passagens pelo Brasil e shows em lugares tão diferentes como Recife/Olinda, Ouro Preto, Rio de Janeiro e Caraguatatuba (SP), a banda pôde analisar com precisão certas características do nosso mercado que facilitam — e outras que dificultam — o intercâmbio entre locais e hispânicos.

“Na primeira vez em que estivemos aí, o que primeiro me chamou a atenção foi o fato de tantas pessoas falarem inglês, e quase ninguém falar espanhol. Somos vizinhos! Também me pareceu muito forte entrar nas enormes lojas de discos de então e só ouvir música brasileira. O mercado daí é tão forte, tão gigantesco, que é compreensível o domínio total da música local”, afirma, por telefone, Catalina García, vocalista e uma das líderes da banda radicada em Bogotá. 

A barreira linguística, ela avalia, é uma chave para explicar a relativamente tímida abertura a canções em espanhol. No caso de Catalina, antropóloga que fala e compõe perfeitamente em português, francês e inglês, a ponte ficou fácil: foi a banda quem a construiu, ao se expressar no nosso idioma e costurar colaborações e proximidade com artistas locais.

“Sempre fomos fãs do Brasil e da sua música, todos nós. A música daí tem elementos com os quais nos conectamos: é sofisticada, tem poesia e tem alegria, celebração. E ao redor dela há um sentimento de comunidade que também é muito colombiano. Além das influências africanas, indígenas e europeias. São muitos os pontos de conexão possíveis”, descreve, na mesma entrevista, o multi-instrumentista Santiago Prieto, outro líder do Monsieur Periné. 

Santiago e Catalina, do Monsieur Periné: pontes culturais e linguísticas. Divulgação/Raul Higuera

Admiradores de nomes como Emicida, Tulipa Ruiz e Tiago Iorc, eles rapidamente trataram de fazer contatos com artistas do Brasil. Um caminho que, para Paulo Junqueiro, da Sony, é o mais óbvio. 

“Num mercado tão avassalador e gigante, fazer feat com artista daqui é chave para abrir portas”, diz Junqueiro. 

Ele alude às muitas e crescentes parcerias que vêm sendo feitas entre artistas brasileiros como Anitta e Gusttavo Lima, por exemplo, e hispânicos como Maluma e J Balvin (Colômbia), Cardi B (EUA), Kany García (Porto Rico) e Gente de Zona (Cuba). Parcerias que, na avaliação de Junqueiro, são mutuamente benéficas, à medida que também abrem as portas de artistas brasileiros com aspirações internacionais ao suculento mercado global em espanhol.

Com tantas misturas, é natural uma certa tendência à padronização sonora — o que poderia ser interpretado como limitador, em termos criativos, mas também uma oportunidade para um intercâmbio ainda mais fluido entre artistas de diferentes nacionalidades. A lógica é simples: se os sons daqui e dos de Colômbia, México, República Dominicana ou Chile soarem cada vez mais parecidos, as fronteiras perdem o sentido. 

Maluma e Anitta: feats e colaborações mutuamente benéficos. Reprodução

“Já acontecem coisas assim atualmente. Só que, muitas vezes, o público não é consciente. O sertanejo atual bebe muito na bachata caribenha, na cúmbia. O sertanejo dos anos 80 já era similar ao regional mexicano. Imagine se um brasileiro ouviria regional mexicano nos anos 1980. Até Michael Jackson chegava com certo atraso!”, ri Marcel Klemm, diretor-geral da editora Warner Chappell Brasil e, por anos, gerente musical da TV Globo, responsável pelas trilhas de inúmeras telenovelas que contiveram hits latinos. 

Na opinião dele, “vai ficando difícil diferenciar Anitta de uma Rosalía, por exemplo”. Mas isso não é ruim:

“Bombardeados pelas mesmas referências, acabamos estimulando o novo. Todo mundo quer se diferenciar num mercado no qual o mainstream tem certas fórmulas. Com os sons interconectados entre si, a barreira da língua perde força. Já está acontecendo. Há décadas, Julio Iglesias tinha que cantar em português para entrar aqui. Canções interpretadas por Luis Miguel ('La Barca') ou Alejandro Sanz (“Corazón Partío”) só estouraram no Brasil, mesmo em espanhol, porque nós as colocamos em novelas. Não é mais assim. O streaming mexeu com tudo. Já não é preciso a mediação da novela, da gravadora. O público tem acesso ao catálogo global a um clique. E entendeu por si só que os sons latinos são bons, são ricos. Este sucesso de agora é só o começo.”

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