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Plínio Profeta, na lista de votantes do Oscar: ‘vamos furar o bloqueio’
Publicado em 08/07/2024

Compositor de trilha original fala sobre convite para integrar a Academia de Hollywood e analisa oportunidades para o audiovisual brasileiro

Por Alessandro Soler, de Madri

Plínio Profeta, telefone em mãos, demorou uns instantes a perceber o que ocorria. Estava numa chamada telefônica recebendo os parabéns do produtor da próxima série para a qual compõe a trilha original. Na hora, pensou que a razão do cumprimento era ter sido de novo indicado ao Prêmio do Cinema Brasileiro (agora rebatizado como Prêmio Grande Otelo).

“Ele falou em ‘academia’, e eu imediatamente pensei que fosse a Academia Brasileira de Cinema, que entrega o prêmio nacional”, descreve à UBC este compositor, multi-instrumentista, DJ e produtor musical carioca, com quase duas décadas de experiência na composição de trilhas.

Não era. A academia em questão era a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que acaba de incluí-lo na seleta lista de pouco mais de 50 brasileiros membros com direito a voto no Oscar.

Compositor de trilha original para mais de 40 filmes e séries documentados em sua página do portal imdb.com, Plínio já ganhou quatro vezes o mencionado Grande Prêmio (e está, de fato, duas vezes indicado na edição deste ano), além de ter recebido inúmeros outros troféus e indicações de uma lista variada de festivais e láureas, como os prestigiosos Prêmios Platino, o Festival de Séries de Cannes e o Prêmio Guarani. Mesmo assim, até agora não está 100% certo de como acabou convidado pela instituição que distribuiu a estatueta mais famosa da indústria cinematográfica mundial.

“Mas tenho uma boa suspeita. Ano passado, concorri com as trilhas de ‘Nosso Sonho’ e ‘O Sequestro do Voo 375’ no Festival do Cinema Brasileiro de Los Angeles (ganhou com a primeira, e são essas mesmas duas trilhas pelas quais concorre ao Grande Otelo). Depois de uma dessas sessões de exibição em cinemas de lá, um cara veio falar comigo. Me deu um cartão, e eu o contatei. Achava que era uma espécie de agente que trabalhava no mercado americano, mas ele me disse que era um membro da Academia de Hollywood. Mandei meu imdb para ele, e a coisa ficou por ali”, conta Plínio, que se soma ao também associado Carlinhos Brown e a Antônio Pinto, Marcelo Zarvos e Sérgio Mendes na lista dos criadores musicais brasileiros com direito a voto no Oscar.

Uma das coisas que o misterioso membro da Academia disse a Plínio é que há um desejo real de internacionalização e diversificação em Hollywood — algo que, de fato, já vem se refletindo há alguns anos na indicação de produções coreanas (“Parasita”) ou francesas (“Anatomia de Uma Queda”, “O Artista”) ao principal prêmio do Oscar, o de melhor filme. Alguns desses trabalhos inclusive ganharam o troféu, ajudando a construir uma nova dimensão global para uma premiação que, apesar de seu enorme glamour, sempre foi vista como essencialmente estadunidense.

Para o associado Plínio, a inclusão de mais brasileiros agora pode ajudar a aumentar as chances de um sonhado primeiro Oscar para o Brasil. Além dele, acabam de entrar para a lista de votantes os cineastas José Joffily, Juliana Rojas, Jorge Bodansky e Carlos Segundo, a atriz Maeve Jinkings e as produtoras Renata de Almeida Magalhães e Tatiana Leite. Outros que já estão ali há anos são, por exemplo, as atrizes Sonia Braga e Fernanda Montenegro, a documentarista Petra Costa, os diretores Carlos Saldanha, Kleber Mendonça Filho, Anna Muylaert, Karim Aïnouz, Walter Salles, João Moreira Salles, Laís Bodansky e Fernando Meirelles, o ator Wagner Moura e os produtores Paula Barreto, Andrea Barata Ribeiro, Vânia Catani e Rodrigo Teixeira.

“O cinema tem uma capacidade de mostrar o país de uma maneira muito interessante. É uma espécie de propaganda, um comercial de uma nação. A gente está se devendo esse Oscar, já devíamos ter um, pelo menos. Já batemos na trave, com ‘Central do Brasil’ e ‘Cidade de Deus’, nos últimos anos”, lembra Plínio. “Lógico que o Oscar não é exatamente uma competição de justiça, uma competição esportiva. Mas é importante pro país ter representatividade num evento desses. Quanto mais brasileiros estivermos participando disso, melhor, vamos furar o bloqueio. Um bloqueio que a gente tem em parte pela língua, uma língua não tão falada como um espanhol, por exemplo. Estar ali (na lista de votantes) tão bem acompanhado será ótimo.”

Para além da força dos votantes brasileiros, Plínio vê um momento excelente de atuais e futuras produções que podem dar nova visibilidade — e chances de prêmios como o Oscar — aos criadores nacionais.

“Nunca trabalhei tanto. Vejo sinais contraditórios da indústria, mas sou um otimista, vejo o copo meio cheio. Ao mesmo tempo em que muitas plataformas de streaming estrangeiras que vinham investindo forte em produções brasileiras nos últimos anos começam a desacelerar, ao não ver um retorno financeiro tão evidente, a gente tem a Globoplay fazendo coisas grandes, séries incríveis. E, principalmente, um novo investimento do governo, de empresas públicas, em patrocínios e editais, o que deve começar a dar frutos a partir de 2025, sobretudo no cinema”, calcula.

De acordo com ele, a volta do público às salas físicas também é óbvia:

“‘Nosso Sonho’ teve um número de pagantes muito bom. Temos as comédias que vêm atraindo muita gente também, lideradas por gente como a Tatá (Werneck) e a Ingrid (Guimarães, coprotagonistas de ‘Minha Irmã e Eu’, filme brasileiro mais visto de 2023 nos cinemas). São comédias, são biografias? São. Mas não importa. Cada filme comercial que leva mais de 2 milhões de pessoas ao cinema incentiva os investidores a entrarem nesse negócio. Esses blockbusters empurram o cinema alternativo. Vejo com bons olhos essa crescida (no público das salas), que já aconteceu lá fora. Os números pré-pandemia já voltaram, e a gente está chegando lá.”

Com mais produções a concorrer às premiações, e a companhia de mais brasileiros nessa rede mundial de criadores que traz novas oportunidades de trabalho e possibilidades de conexão, Plínio só vê vantagens. E, como ele brinca, ser membro da Academia de Hollywood também lhe trará um particular bônus pessoal.

“Eles dão passes para todos os votantes irem às pré-estreias e verem online todos os filmes indicados a cada ano. E não só os finalistas; TODOS. Quando é que a gente, aqui do Brasil, poderia ver o filme enviado por digamos, a Venezuela, para concorrer ao Oscar? Vou ver filme até cansar. Estou animadíssimo”, diz, aos risos.

 

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