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Clovis: 'Espiritualidade não tem a ver com escolha política'
Publicado em 17/11/2022

Artista do gospel indicado ao Grammy Latino comenta expectativa pelo prêmio, esta noite, e pede pacificação no mundo evangélico

Do Rio

Clovis está em compasso de reflexão e espera. Pela entrega do Grammy Latino, na noite desta quinta-feira (17), no qual concorre pela primeira a melhor álbum gospel em português com "Epifania". E espera também pela pacificação do mundo evangélico, após a forte polarização que marcou o processo eleitoral.  

“Igreja não é lugar de pregação política. Me posicionei e fui quase cancelado, me atacaram de muitas maneiras. Mas a espiritualidade de uma pessoa não tem a ver com suas escolhas pessoais, inclusive políticas", reflete. 

Ele é o autor do single "Ninguém Explica Deus", um raro caso de canção gospel "ecumênica", que faz sucesso inclusive fora dos meios evangélicos e católicos — prova disso é que se aproxima das 800 milhões de visualizações no YouTube e em plataformas como Spotify, o que a torna a música gospel mais bem-sucedida nessa plataforma em todo o mundo. Clovis tem uma explicação para esse êxito: 

"Na letra, eu também incluo os ateus, os que não têm religião, os que têm outra religião não cristã... Digo 'do crente ao ateu, ninguém explica Deus.' Porque é isso: qualquer um de nós, independentemente do seu credo ou das suas práticas pessoais, pode alcançar o divino. E ninguém é capaz de entendê-lo totalmente. Acho que consegui pegar quem está fora das igrejas também, e a coisa é bem essa: é importante unir, e não separar", diz Clovis, que aparece como coautor, com vários outros artistas, do recém-lançado hit "Messias", interpretado por Leonardo Gonçalves. 

A letra, potente — e, por isso, polêmica no mundo gospel — diz que a Bíblia não é nem de direita nem de esquerda. E este é o espírito da atuação deste artista de valor, que bateu um papo com a UBC:

 

Como está a expectativa pelo Grammy Latino? Já caiu a ficha?

Essa indicação representa um lugar muito importante conquistado, que nem chegou a ser sonhado. Eu venho da Ilha de Itaparica (BA), sou filho de pescadores… Não tinha muita perspectiva. Comecei a fazer o trabalho e fui acreditando, pelas reações e pelo envolvimento da galera. A indicação significa um lugar conquistado que representa muita gente que vem de onde eu venho: preto, nordestino, que se aventurou a vir pra São Paulo encontrar oportunidade e encontrou um lugar de crescimento e consciência. Me sinto representando muita gente do Brasil.

Você fala em consciência. Que consciências a música e, especificamente, o gospel lhe trouxeram?

A maior aula da minha vida tem sido isso, tem sido essa coisa da religião, das pessoas da religião. Ao mesmo tempo em que tem a pureza muito grande do cara que está ali e é devoto e acredita de verdade no Deus que ele está buscando, existe muita coisa que me ensinou a criar espinhos de proteção. Sobreviver dentro desse meio é difícil, uma caminhada muito solitária. Em compensação, falar de fé hoje no Brasil e ser parte dessa resistência é a grande revolução.

A que você se refere com resistência?

Fundamentalistas tentaram tirar as pessoas que estão pregando e falando de Deus, com base numa vida que eles escolheram, e que querem impor aos demais. Mas faço parte de um time de cristãos que não arredam pé da sua fé. Sou um cristão da resistência e sei que há muito trabalho a ser feito para libertar outras pessoas que pensam da mesma forma, que são cidadãos do mundo, sabem que a espiritualidade de uma pessoa não tem a ver com as escolhas que ela faz no dia a dia.

Escolhas inclusive políticas?

Inclusive políticas. Não precisamos ser uniformes. Todo mundo é livre de ter opinião. A gente acredita na diversidade ideológica. Por ter me manifestado, estou vivendo o rabo desse foguete. Defendo aquilo em que acredito. Está sendo uma aventura boa e, ao mesmo, angustiante. O pessoal não aceita, grita, quer anular a sua cristandade através de uma posição política. É muito louco. Mas também tenho recebido muito apoio.

O gospel, de fato, é um meio muito diverso e em crescente expansão. A que você atribui todo esse sucesso?

Se expande porque a religião também se expande. E o faz com base numa propaganda muito forte feita sobre o evangelho que vende a ideia de que Deus vai te dar vida próspera, vai te dar triunfo na vida. Entendo que essa demanda acontece a partir do momento em que o cidadão brasileiro vai ficando muito carente nesse aspecto. O evangelho, no Brasil, de alguma forma é um sucesso, se a gente pensar nessa demanda de expectativa. Mas também tem um outro lado, de fé. Essa carência de crer em algo maior que o brasileiro tem no sangue. Uma devoção mesmo, de botar fé em alguma coisa e ir até o fim. 

Como tem sido a rotina profissional depois da indicação?

Ando numa fase bem tranquila. A gente tem uma previsão de voltar a ter um movimento (agora, depois das eleições). 

Você tem composto? Também compõe ou já compôs música secular?

Eu venho da Bahia. Então, meu primeiro contato profissionalmente foi com o Carlinhos Brown, lá em Salvador. Me deu a oportunidade de gravar algumas coisas no disco dele, backing vocals, e começamos a falar sobre um projeto chamado Hip Hop Roots. Mas, diante de um convite de uma pastora evangélica, a Bispa Sônia, e eu já queria fazer parte da igreja dela, vim para São Paulo. Fui ao Brown para dizer que não dava mais, que era uma questão de chamado, de fé…. Faria tudo ao contrário hoje, se tivesse oportunidade. Mas na hora fez sentido, e não me arrependo. Tem sido um aprendizado muito grande. Sempre tive a ideia de que ia crescer tanto que, uma hora, sairia da música gospel e faria música para todas as pessoas. Meu caminho tem mostrado que não, que é possível estar aqui no lugar onde estou. Tem gente precisando do posicionamento de um cristão que revele essa coisa atualizada. Que a gente entenda que fé é fé, e estilo de vida é estilo de vida, cada um tem o seu. 

De fato, como você diz, não é preciso sair do gospel para alcançar outros públicos que não o religioso...

Não há diferença nenhuma entre compor canção gospel ou secular, se falamos essencialmente de música: os caminhos melódicos e harmônicos são semelhantes. Os códigos da música são os mesmos. Mas, quando você escreve pensando numa mensagem que possa despertar e falar diretamente com o espírito das pessoas, com a alma delas, acho que naturalmente isso vai gerando um comprometimento maior. Deixa de ser uma música, um serviço musical focado apenas no capital e na sua realização pessoal, e passa a ser uma missão vocacional. É assim que eu me sinto um pouco. 

Você tem feats com Claudia Leitte, Harmonia do Samba, Fernando & Sorocaba. O fato de muita gente de fora do gospel fazer parcerias, querer estar ligada a nomes do gênero, mostra que houve mesmo uma aceitação e uma normalização totais, não?

Está rolando, sim, uma normalização do gospel, é perceptível. Tanto que as nossas mensagens estão se expandindo para fora do gospel. "Trem Bala", da Ana Vilela, "Era Uma Vez", da Kell Smith... Foi criada uma nova linha mostrando que é possível comunicar com a espiritualidade das pessoas sem ser uma música evangélica. Isso também me ensinou muito, está me ensinando a falar com as pessoas de um lugar de consciência, espiritualidade, saúde… de música como terapia, mesmo, como fonte de cura. Vejo o Brasil muito aprendendo esse caminho, é muito novo. Mas a gente chega lá. Quem sabe a minha filha vai ter muita mais liberdade que eu?

O que ainda falta alcançar?

Eu não faço ideia, porque não costumo mesmo criar essas expectativas. Já sofri com algumas. Aprendi a não ficar domando meu destino mais. Simplesmente caminho enquanto houver caminho. Se não tiver, a gente cria. Agora estou nesse momento: não sei o que virá depois disso. Espero que seja um bom caminho para todos nós, um bom futuro.

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