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Três tecnologias criadas no Brasil para o mercado musical
Publicado em 11/07/2025

Inovações em IA, blockchain e performance digital locais traduzem desejo de empresas do país de buscar soluções próprias

Por Nathália Pandeló, do Rio

Em um momento em que a inteligência artificial e o volume de lançamentos atingem níveis históricos, a gestão de dados, direitos autorais e performance musical virou uma das demandas mais urgentes da indústria. Dados recentes da Deezer mostram que a plataforma recebe cerca de 20 mil músicas geradas por IA por dia, acendendo o alerta sobre o impacto dessas ferramentas no ecossistema criativo. No Brasil, a resposta tem vindo não apenas de grandes plataformas internacionais, mas também de startups e soluções tecnológicas nacionais, que estão reformulando o acesso à informação, à transparência e à tomada de decisão por parte de artistas e compositores.

Esse movimento tem ganhado corpo em meio a uma transformação mais ampla. Segundo dados da startup Sling Hub, novas empresas de tecnologia musical no Brasil levantaram mais de US$ 6 milhões em rodadas de investimento apenas no primeiro semestre de 2024. Ainda assim, apenas uma pequena parcela das empresas do setor está capitalizada e com crescimento estruturado, o que evidencia o desafio e, ao mesmo tempo, o potencial desse mercado.

Hoje, soluções que usam IA, blockchain e big data já permitem detectar músicas geradas artificialmente, entender quais obras foram usadas como base de treinamento, automatizar planos de marketing e facilitar buscas em bancos com milhões de registros. E três dessas inovações, todas desenvolvidas no Brasil, se propõem a mudar a forma como os artistas lidam com a tecnologia.

APRENDIZADO DE MÁQUINA

No início de abril, o Ecad lançou o novo portal Ecadnet, sistema de consulta pública do repertório nacional e estrangeiro cadastrado no banco de dados do Ecad. Agora, totalmente reformulado com o uso de inteligência artificial e aprendizado de máquina.

"Com o uso de aprendizado de máquina, conseguimos introduzir muito mais filtros na hora de fazer as buscas”, explica Valéria Pessôa, gerente executiva de Tecnologia da Informação do Ecad.

Valéria Pessôa, do Ecad. Foto: divulgação

A proposta, segundo ela, é facilitar a localização de dados mesmo em buscas incompletas ou imprecisas — que são bastante frequentes.

A mesma lógica de facilitar o uso e interpretação de dados também norteia a proposta da startup Shake Music. Com foco em artistas independentes e do midstream, a plataforma criada por Bruno Martins, também CEO da agência de marketing digital musical Milk Music, reúne dados para ajudar os criadores a tomarem decisões de carreira.

"Uma das coisas que assustam o artista, além dos gráficos, é não saber realmente o que significa aquilo tudo que ele está vendo (na tela)", afirma Bruno, que diz evitar painéis complexos, priorizando métricas relacionadas à base de fãs e ao desempenho da música do artista.

Bruno Martins, da Shake Music. Arquivo pessoal

Carlos Gayotto, CEO da TuneTraders, segue por outro caminho, mas com um objetivo semelhante: tornar os bastidores da criação mais visíveis e justos. A startup desenvolveu uma tecnologia que detecta se uma música foi criada com o uso de inteligência artificial, apontando quais obras foram utilizadas no treinamento e em que trechos esses aprendizados aparecem:

“Entendemos que precisávamos construir um 'raio-x' musical, algo que não só detectasse se houve uso de IA, mas também mapeasse as fontes de aprendizado e os trechos replicados.”

A tecnologia da startup, com mais de 75% de precisão (a ideia, claro, é ir aumentando constantemente essa margem), é integrada a um protocolo em blockchain que promete rastreabilidade, auditoria e transparência.

DA ANÁLISE À AÇÃO

De diferentes formas, essas soluções apostam em transformar dados em ação. Uma das principais dores de artistas independentes, segundo Bruno Martins, é justamente não saber como agir após o lançamento de uma música. 

“O artista muitas vezes não é creator (criador de conteúdo), e o creator muitas vezes não é especialista em marketing ou empreendedor”, explica o executivo, que inseriu em seu software uma funcionalidade que sugere próximos passos e se conecta a outra ferramenta, o Shake AI, para auxiliar na elaboração de planos de marketing musical personalizados.

Já o Ecadnet, segundo Valéria, representa uma virada na forma de acessar informações sobre obras, titularidade e fonogramas. O que, claro, tem repercussão numa série de ações comuns no mercado musical, de licenciamentos à comunicação de shows, passando pelo preenchimento de cue-sheets (folhas que descrevem o uso de músicas em obras audiovisuais) etc.

"Acreditamos que esta inovação facilitará imensamente a localização das informações desejadas", ela diz.

A TuneTraders também mira um ponto de virada. Para além da mera identificação de músicas feitas com IA, Carlos defende que o sistema ajude a criar novos modelos de licenciamento, contratos inteligentes e micropagamentos automatizados.

“O ponto-chave é que hoje milhões de músicas são usadas como base de treinamento para modelos generativos, sem consentimento e sem remuneração. Isso enfraquece a cadeia criativa na raiz”, afirma.

Carlos Gayotto, da TuneTraders. Divulgação

Com tantas transformações em curso, não é surpresa que a inteligência artificial esteja no centro da maior parte das novas ferramentas aplicadas à música. Mas o avanço rápido da tecnologia também levanta questões reais sobre a gestão clara de dados, métricas de consumo e direitos autorais. Embora ainda haja muita discussão sobre os caminhos que este mercado cada vez mais complexo tomará, empresas do nosso país deixam claro: querem fazer parte do desenvolvimento de tecnologias-chave para abordar tantos desafios.

 

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