Affonso Gonçalves, editor de ‘Ainda Estou Aqui’; Léo Esteves, herdeiro de Erasmo; e Flavia Cesar, da Warner Chappell, debatem o setor na UBC
Por Eduardo Fradkin, do Rio
Affonso Gonçalves, Flavia Cesar e Léo Esteves (Fotos de Flávia Marcatti)
Quando Erasmo Carlos morreu, em 2022, era diretor vogal da União Brasileira de Compositores e falava disso com orgulho. Carregando essa lembrança, que chamou de "emblemática", seu filho e administrador de seu catálogo musical, Léo Esteves, chegou à Casa UBC, no Centro do Rio, nesta terça (6), para discutir o uso da canção "É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo" — parceria do Tremendão com Roberto Carlos — no filme "Ainda Estou Aqui".
Lançada em 1971, no álbum "Carlos, Erasmo", a faixa viralizou no ano passado, graças ao filme de Walter Salles, registrando um aumento de mais de 400% em streams. Sentado ao lado de Léo, o editor do filme, Affonso Gonçalves, contou histórias de bastidores e comentou as circunstâncias que dificultam a inclusão de músicas de compositores conhecidos em filmes.
Mediadora do debate, a diretora estratégica, comercial e de sincronização da Warner Chappell, Flavia Cesar, perguntou sobre os desafios na escolha do repertório do longa — inclusive, os orçamentários — e deu a Affonso a chance de esclarecer, para dezenas de associados da UBC presentes ao evento, as diretrizes por trás de uma trilha sonora.
"O desafio maior é sempre monetário. Um Tim Maia, tudo bem. Dois Tim Maias, não. Jorge Ben Jor, nem tenta, porque não vai rolar", introduziu Affonso, arrancando risadas do público. "Eu trabalhei com um supervisor musical que me disse: 'se você ouviu falar da banda, você não tem dinheiro para pagar'. Eu fiz um filme que teria uma montagem com (música dos) Rolling Stones. Custava US$ 200 mil. Era metade do orçamento do filme.”
Neste instante, Flavia complementou:
"Por isso, ele tem que falar com a editora para ser parceira dele e encontrar a música certa para aquele budget.”
GANHOS DOS DOIS LADOS
Trazendo à discussão o ponto de vista de quem gerencia catálogos musicais, Léo pontuou que as produtoras cinematográficas, ao requisitar uma canção, precisam dar a maior quantidade possível de detalhes sobre a cena em que ela será usada, o enredo do filme e a equipe envolvida, pois todos esses fatores são levados em conta por quem tem o poder de liberar (ou vetar) a obra musical. Do outro lado, os artistas e executivos de editoras devem entender que a trilha de um filme pode proporcionar ganhos impensados.
"Se formos ver o que esse filme fez pela música do meu pai, o valor cobrado foi irrisório", afirmou Léo.
Segundo Flavia, o cenário já melhorou bastante:
"O mercado audiovisual brasileiro cresceu muito de um tempo para cá, então vem (sendo feito) um trabalho educacional por parte das editoras e gravadoras de aproximação com os players do mercado. E as coisas têm mudado. As informações que a gente recebe, hoje, a gente não recebia no passado. Todo mundo tinha medo de mandar a sinopse do filme, a descrição de uma cena e o budget do filme. Agora, a gente consegue ter as informações de que os herdeiros e autores precisam para ver se querem aceitar a proposta.”
Os três durante o bate-papo no palco da Casa UBC, no Rio (Foto de Mila Ventura)
Outra questão importante levantada por Affonso foi a da flexibilidade dos autores (ou seus herdeiros) não só em negociações financeiras, como na seara artística. Afinal, quem edita uma cena pode querer editar também a música que a embala.
"Eu cortei um trecho da letra de 'É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo'. Eu queria que ele (Erasmo) falasse: 'Estou envergonhado, mas não vou ficar calado' (entre esses dois versos, havia outro que dizia: "Com as coisas que eu vi"). Para mim, essa frase era muito importante naquela hora, em que o Rubens (Paiva) aparece com a família. A música tem que fazer parte da narrativa do filme", justificou Affonso.
A HISTÓRIA DE UM SUCESSO
No início do debate, Flavia perguntou sobre a gênese daquela canção.
"Eu conversei com meu pai, uma vez, sobre a música, e ele me falou do momento complicado que o Brasil vivia. Roberto e Erasmo gostavam de trabalhar com temas. Eles pensavam em uma situação e desenvolviam uma música. No início dos anos 1970, o mundo estava muito complicado, principalmente para quem fazia arte. Roberto chegou, um dia, e falou: 'pô, bicho, tá difícil. A gente tem visto muita coisa errada. É preciso dar um jeito nas coisas!'. E o Erasmo disse: 'É preciso dar um jeito, meu amigo!'. Aí, eles falaram: 'caramba! Isso dá uma música'. Eles captaram esse sentimento e identificaram esse tema", observou Léo, destacando o brilhantismo dos versos "Mas não vou ficar calado/ No conforto acomodado" e lamentando não ter conseguido descobrir se foram escritos por seu pai ou pelo parceiro musical.
Ex-empresário do pai e atual de Roberto Carlos, Léo lembrou que todas as composições daquela época precisavam passar pelo crivo de censores, o que impossibilitava letras escancaradamente críticas. Mas, segundo ele, a dupla conseguiu dar, veladamente, seu recado político:
"Depois da Jovem Guarda, eles faziam músicas muito mais simples, e estavam sendo cobrados por uma MPB um pouco mais profunda. Eles tinham que provar seu valor. E fizeram isso com essa música e com outras, como 'Meu Nome é Gal' e 'As Curvas da Estrada de Santos'. Provaram seu valor, e o filme acabou coroando isso.”
MAIS PONTES
Ao fim do evento, o trio de participantes respondeu à reportagem do nosso site o que pode ser feito para estreitar os laços entre compositores e executivos da indústria do cinema. Flavia comentou que é necessário haver uma maior profissionalização, e que isso vem acontecendo na Warner Chappell:
"Eu e minha gerente, Natália, fizemos um curso de supervisão musical na Universidade de Berkeley, para trazer as melhores práticas para cá. A gente é o ponto de contato com o compositor. Então, a gente precisa passar as informações (do filme) da melhor forma para o compositor e até convencê-lo, quando acharmos que vale muito a pena".
Affonso observou que, embora não seja comum que compositores procurem editores ou cineastas, "nada impede que entrem em contato e disponibilizem suas músicas".
O herdeiro do Tremendão também opinou:
"Os compositores podem tentar se conectar com produtores (de cinema), e acho que a UBC pode contribuir dimensionando os catálogos deles para os players.”
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