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“A criança precisa ponderar, entender que as lutas valem a pena”
Publicado em: 24/10/2018

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Premiado e reconhecido no país e lá fora, projeto Pequeno Cidadão celebra dez anos de boas músicas ao juntar craques do cancioneiro brasileiro para compor temas cheios de mensagem e reflexão 

Do Rio 

Nestes dez anos desde que o projeto Pequeno Cidadão surgiu, a música para crianças mergulhou com força no mundo das imagens, dos games e desenhos, da interatividade. Mas os quatro grandes criadores que se uniram originalmente no grupo — Taciana Barros (ex-Gang 90 e Absurdettes), Arnaldo Antunes (ex-Titãs), Edgard Scandurra (ex-Ira!) e Antonio Alves Pinto (compositor de trilhas sonoras de filmes como Cidade de Deus, Central do Brasil e O Amor nos Tempos do Cólera) — apostaram na pureza e na força da música, das letras com mensagens diretas e reflexivas. E na cidadania. O que os juntou foi o fato de serem, à época, pais recentes e se depararem com as descobertas do mundo e de novas inquietudes através dos olhos dos filhos. 

Hoje, Arnaldo é colaborador, não mais integrante oficial. Mas a forma como os quatro interagem, criam em parceria e usam não só o olhar mas também as contribuições, sugestões e participações vocais dos filhos dá prova de que o projeto se solidificou. 

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Premiadas mundo afora e constantes em trilhas sonoras de filmes, novelas e séries de TV, as canções falam de sustentabilidade, tentam responder a dúvidas de coisas simples do cotidiano e pregam a tolerância e o convívio com a diferença. Sempre cheias de ritmo e acordes atrativos. “Damos voz às crianças e traduzimos as inquietudes dela. Em cada canção há adulto e criança cantando, sempre procurando pensar, entender o por quê das coisas. É educativo, mas nunca chato. E um dos segredos do sucesso, na minha opinião, é o entrosamento que temos criando. Temos muita confiança uns nos outros”, descreve Taciana em entrevista ao site por telefone que você confere abaixo. 

A música para crianças é um dos filões do momento. Mas grande parte do que se faz é calcado no audiovisual, nasce primeiro das imagens. Vocês apostam no poder da música para evocar imagens...

As histórias que contamos são as que viemos, que os nossos filhos vivem. Quando a gente se encontrou para gravar o primeiro álbum, no primeiro ensaio todo mundo já tinha um monte de música pronta: eram as que cantávamos para nossos filhos comerem, dormirem... Acho que o que dá força e verdade é que há de fato conexão com sentimentos e experiências todos nós vivenciamos de alguma forma. A da caveira (“Caveira Bagunceira”, de 2016) eu fiz porque uma amiga me contou que o filho descobriu, muito surpreso, que há uma caveira dentro de cada um de nós. 

Mas também trabalhamos com imagens. Temos um DVD com animação premiado no mundo inteiro. Só que o nosso foco não é o tatibitate, não é fazer música fácil para pegar. A gente faz porque acredita nisso. É possível fazer música boa para criança. 

Edgard, Taciana e Antonio, os três elementos fixos do projeto hoje em dia

 

Vocês têm uma grande entrada em trilhas sonoras, um mercado que pode ser altamente lucrativo. Foi uma decisão deliberada ou, simplesmente, surgiu?

Já foram dezenas ao longo destes anos, dez só agora, em três novelas infantis que estão no ar (“As Aventuras de Poliana”, “Carrossel” e “Chiquititas”). A gente fala sobre um pouco de tudo, sempre com uma pegada reflexiva. Aparecem a ciclovia e a necessidade de humanizar o trânsito, o esporte, a frustração da hora de largar a chupeta, da hora de dormir, aparecem o amor, as boas relações com as pessoas... Então, acho que acaba sendo algo que atrai os produtores de trilhas, porque sempre dá para usar uma música nossa numa situação diferente. Os convites começaram a surgir e se multiplicaram. É muito bom ir fazer show nos lugares mais remotos, onde se supõe que não nos conheceriam, e as crianças cantarem, reagirem às letras que já conheciam. Isso foi propiciado pela TV. 

Como é a participação de cada um de vocês atualmenteO Arnaldo no primeiro disco estava conosco. No segundo e no terceiro, entrou como parceiro. Mas Edgard e eu fazemos músicas há 35 anos. Com o Arnaldo também. Ou a gente vai à casa um do outro, começa a criar, ou vamos nos enviando pedacinhos de coisas ou letras inteiras e trocando ideia. O Antonio foi novidade para a gente. Conhecemos como produtor, virou parceiro. Acho que é uma coisa interessante: quando tem intimidade, como amigo e esteticamente, sempre que se senta para fazer música, sai. Ao longo dos anos, foi surgindo confiança e respeito. Já aconteceu de o Arnaldo mandar letra e perguntar: quer complementar? E eu: já tá boa. Ou o Antonio, com “Há Beleza em Tudo isso”, falando de bullying, que ficou inseguro e nos mandou... Quando o Edgard viu, falou: “está maravilhosa, não precisa mexer.” Criamos essa coisa e tem funcionado muito bem. 
 

Momento de um show do grupo, ao lado das crianças

 

Algumas das criações mais famosas de vocês, como “Bici Bike Magrela”, foram pensados a partir de iniciativas cidadãs. Acabou usada até pelo então prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, que tinha uma preocupação em espalhar ciclovias pela cidade...

A música não foi originalmente pensada para a prefeitura. Eu liguei para o Edgard, comentei que todo mundo estava detonando as ciclovias, mas nós éramos favoráveis. Andávamos e andamos de bicicleta, ele, eu, nossos filhos. Como São Paulo não percebe que isso é bom? A gente fez a música, na época em que o prefeito estava sendo esculachado pelos motoristas insatisfeitos com a redução do espaço para os carros, e ofereceu a ele. Em vez de acelerar, a cidade precisa desacelerar. Lutamos também pelo Parque Augusta, ficamos contra o Haddad nisso. É interessante a criança ouvir essas músicas, refletir sobre as mensagens, sobre como colocamos temas cidadãos ali. Ela precisa ponderar, entender que as lutas valem a pena. 

Ou seja, há uma intenção de pegada política, no sentido do exercício da cidadania. 

Isso, é viés cidadão. Respirar é um ato político. A gente foca um mundo melhor. O que queremos num mundo melhor? Um mundo com esporte, educação… com direitos e deveres. A criança entende rápido. Criança de qualquer lugar mundo entende isso. Entende que pertence à sociedade, que pode pensar, querer um mundo melhor, sugerir. Mas sem se esquecer de brincar, se divertir, viver seu lado lúdico... Por isso também temos coisas como “Vem Dançar”, cuja mensagem é muito simples: venha se divertir, pular, sem mais. Acredito que a cultura transforma. Não nos conformamos com coisas imutáveis escudadas numa suposta cultura dominante. A gente tem o poder de transformar.


 

 



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