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Cinco segundos para entrar o refrão
Publicado em: 21/01/2019

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Uso de métricas e padrões de audição de serviços de streaming influenciam produtores pop, que, no entanto, advertem: intuição e lado artístico são primordiais

Por Alessandro Soler, de São Paulo

Colaboração de Gilberto Porcidonio, do Rio

Na época de ouro do rádio (não a primeira, dos anos 40/50, mas a da FM dos 80), qualquer produtor do pop sabia: para prender a atenção do ouvinte e evitar a mudança de dial, era preciso fazer canções curtas, com várias repetições do refrão e que não gastassem horas numa interminável introdução. O resto era intuição e tentativa e erro. Na época de ouro do mundo digital, o princípio não variou muito, mas sim o conjunto de informações à disposição: sabe-se, por exemplo, que quase um quarto (24,14%) dos ouvintes do Spotify mudam para a próxima música antes dos cinco segundos de execução; que 28,9% o fazem antes dos dez segundos; e que quase metade (48,9%) não tem paciência para esperar o final de uma canção.

Mais: mulheres (45,23%) tendem a ser ligeiramente mais “inquietas” do que os homens (44,75%) na hora de passar para a próxima música. Assim como os jovens (mais de 50% de inconclusão de uma audição) em relação aos ouvintes de 50 anos ou mais (35%).

No que isso impacta seu trabalho, produtor contemporâneo? Em nada, caso seu estilo seja “minha intuição acima de qualquer outra coisa”. Ou consideravelmente, caso busque prender a atenção dos ouvintes e, assim, gerar engajamento e melhores remunerações nas plataformas de streaming.

Ignorar as métricas e os padrões de consumo já não é uma opção, opinam produtores da talha de Dudu Borges (Luan Santana, João Bosco e Vinicius, Michel Teló), Rodrigo Gorky (Bonde do Rolê, Pabllo Vittar, Preta Gil) e Pedro Dash (Projota, Anitta, Mc Guime). Mas com parcimônia. Todos coincidem em que se deve ter em conta a intuição, sob o risco de produzir, em cascata, hits iguais, indistintos. E terminar, ironicamente, afastando o público cada vez menos paciente e mais sedento do novidades.

“Ao produzir uma nova faixa, já pensamos nesses fatores, sim, não tem outro jeito. Já houve mais de uma vez em que, ao analisar uma faixa produzida, nós (da Brabo Music Team, o coletivo no qual trabalha) chegamos à conclusão de que deveríamos antecipar o refrão, que estava demorando demais”, conta o curitibano Rodrigo Gorky.

O paulista Pedro Dash analisa ativamente as métricas e os padrões de consumo dos ouvintes das plataformas de streaming — sem se esquecer das pesquisas de rádios, como a da Crowley, para ele ainda um fundamental termômetro do consumo de música no país. Familiarizado com os números, ele toma decisões que vão ao encontro da resposta esperada.

“Sempre trabalhei assim. A minha intenção sempre foi produzir um pop com começo, meio, fim, que faça sentido artisticamente e que não requeira adaptações ou edições para encaixar nas plataformas ou no rádio”, ele detalha. “Antecipar um refrão, pegar (uma batida de) post-rock, um teclado, um pad, fazer uma introdução que capte logo a atenção... Tudo isso os produtores já vêm fazendo baseados na análise dos padrões de consumo... É exatamente o que se fazia na época em que a música começou a ser fortemente difundida em rádio, TV e tudo mais. Não se trata de algo novo, mas sim de algo feito com muito mais embasamento.”

No sertanejo, talvez uma das mais autóctones manifestações do pop brasileiro, é a mesma coisa. Um dos principais produtores do gênero, o campo-grandense Dudu Borges crê que as métricas não são úteis unicamente para evitar que o ouvinte passe para a próxima música nos primeiros segundos de audição. São, antes, um instrumento para evitar erros. “Através do conhecimento desses dados, o produtor e o artista passam a ter maior conhecimento sobre o seu público”, ele opina.

Mas faz um alerta: uma coisa é estar atualizado, entender as tendências do mercado, e outra é se prender em excesso a rótulos que limitam as possibilidades de criação. “O novo só vai nascer se focarmos na música, se acreditarmos em algo diferente. Mesmo a gente tendo referências muito fortes, todo produtor tem a sua identidade, e é descobrindo isso que estourar ou, simplesmente, alcançar as pessoas torna-se possível. Dados, métricas etc. só são facilitadores e só servem se você sabe o que quer.”

Pedro Dash concorda e aconselha: “Prender-se unicamente às ondas, mirar só as métricas, é paralisante. O público jovem pop quer novidade o tempo todo, enjoa rápido. Por isso, a moda é lançar conteúdo mais frequente, vários singles, em vez de apostar tanto no álbum. E esse formato permite experimentar mais.”

Se a experimentação também casa com o que o seu público procura, então, é o melhor dos mundos: “Produzo exatamente o tipo de música que gosto de ouvir. O grande pulo é se colocar no lugar do ouvinte, antecipar-se, usar bem a intuição, misturando conhecimento de mercado e feeling. Dá mais certo do que se prender unicamente em métricas”, ensina Rodrigo Gorky. 

VEJA MAIS: Uma série de entrevistas em vídeo com dicas de produção musical (Kassin, Gorky e outros) 


 

 



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