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Rio2C e o mercado da música: o que está sendo, o que será e o que seria
Publicado em: 30/04/2019

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Um balanço com 10 aspectos presentes, futuros e passados do meio musical abordados durante a superfeira que tomou a Cidade das Artes, na capital fluminense, de 23 a 27 deste mês

Por Alessandro Soler, do Rio

Em meio a um oceano de 780 horas de painéis, conferências, bate-papos e sessões de promoção de negócios; 1.020 palestrantes aportando dados pluralíssimos sobre música, audiovisual e inovação; e 25 mil pessoas circulando pelos bonitos corredores da carioca Cidades das Artes, difícil peneirar o que houve de melhor. Mas a gente faz isso para você.

Confira 10 tópicos relacionados especificamente à música que foram debatidos durante o Rio Creative Conference (Rio2C), de 23 a 27 de abril, no Rio de Janeiro. Dividimos os temas entre o que está por vir, o que já é realidade e o que era promessa de tendência mas não chegou a se concretizar.

O que está sendo 

  • Gravadoras tornando-se agências de talentos e eventos: “Gravadora já não é lugar para gravar, todo mundo grava onde e como quiser. Estamos nos tornando agências de talentos, de captação e distribuição de criatividade”. Assim descreve seu trabalho Alexandre Wesley, diretor de shows, festivais e relacionamento com marcas da Som Livre. A empresa para a qual ele trabalha comprou o maior camarote do estádio do Itaquerão, em São Paulo, e criou uma minicasa de shows e eventos que agita o pré e pós-jogos. Festas promovidas pela Som Livre e encontros exclusivos com artistas têm sido espaços privilegiados de exposição de grandes talentos da casa. E a atuação da gravadora se estende também a outros gêneros, agenciando youtubers, influenciadores e atores e atrizes. Tendência, ele diz, irreversível.

  • Mulheres, negros, gays e outras “minorias” tomam seu espaço: “A visibilidade de corpos dissidentes, negros, gays, trans, está aí. A gente veio e conquistou espaço e um lugar de fala na sociedade e no mercado musical, especificamente”, afirma, citando movimentos como a bem-sucedida MPBTrans, Pablo Ramoz, consultor de conteúdos artísticos de favelas e periferias. As mulheres também vão ocupando seu merecido espaço, de forma clara, na indústria musical. “Estávamos tão acostumados a ouvir a voz masculina falando de música que acabávamos achando que era só isso. Mas as mulheres estão aí, e a prova disso é que já não temos dificuldades de encontrar maravilhosas especialistas que falem de tudo relacionado a este mercado”, conta Fabiana Batistella, diretora da SIM São Paulo, uma das maiores feiras de música da América Latina. “Em 2015, foi difícil escalar mulheres. Hoje, já temos mais mulheres do que homens entre os participantes. Foi um movimento natural. E é ótimo ver que se trata de algo que se espalha entre funções sempre ligadas aos homens, no backstage, na produção, nas bandas de apoio...”

  • Meu vizinho é um distribuidor digital: A transformação de pessoas físicas em minidistribuidores digitais democratiza a inclusão de músicas em plataformas de streaming, como Spotify, Deezer ou Apple Music, à medida que facilita a captação de pequenos criadores que não conseguiriam fechar com grandes agregadores. Já está acontecendo em cidades médias e pequenas, principalmente em regiões distantes do eixo Rio-São Paulo. “Estou capacitando representantes meus no Nordeste para se virar selos como MEI (microempreendedores individuais) e captar artistas locais que queiram subir suas músicas aos serviços de streaming. Então, ofereço a minha plataforma tecnológica para que eles façam o upload. É um modelo interessante e que dá resultados”, revela Felippe Llerena, desenvolvedor de negócios do distribuidor digital 100% nacional Nikita Music. 

O que será

  • Criação por algoritmos: A gente já falou disso na reportagem de capa da Revista UBC #32, sobre as tendências do futuro da música. Mas esse futuro está chegando, e rápido. A criação por algoritmos foi tema de falas e palestras de diversos especialistas que passaram pela superfeira, de Sergio Affonso, presidente da gravadora Warner Music Brasil, a François Pachet, diretor do laboratório de criação de tecnologia global do Spotify. O cientista francês comentou o álbum “Hello World”, totalmente composto por um programa informático, uma iniciativa do projeto Flow Machines, da Sony, com apoio do Spotify. E explicou em detalhes o processo de junção de vozes, acordes e harmonias de fontes variadas para formar algo completamente novo. “A inteligência artificial faz recombinações 'cromáticas', identifica padrões harmônicos de sucesso e os recria em canções que trazem inovação e, ao mesmo tempo, têm a marca de grandes hits. No futuro, não haverá criação sem, ao menos, consultar esses programas. É a interação entre homem e máquina para criar arte”, sentenciou Pachet.

  • Salas de criação (ou criação coletiva em geral) como regra quase obrigatória para compor: Acampamentos de criação e salas ao modo dos writers' rooms de roteiristas de TV e cinema já são realidade. Mas devem se tornar “o” modelo predominante — talvez, inclusive, com a interação de homens e máquinas, como sugere Pachet no tópico anterior. “Já é o formato corrente no sertanejo e no pop. Não há mais assinaturas individuais, as criações são todas coletivas. Vai se espalhar para todos os demais gêneros”, prevê Fabio Duarte, sócio fundador da Agência California Media House. A criação coletiva é a base dos mash-ups e misturas de estilos que têm marcado os principais sucessos do pop nacional e global (funk com rock, sertanejo com arrocha, e por aí vai) e que devem ganhar uma escala inimaginável no futuro próximo.

  • Prefeituras, estados e países dando incentivos financeiros para a realização de uma atividade em crise, os shows ao vivo: Num bate-papo no Lounge da Música, o produtor cultural Léo Feijó e seus convidados apresentaram iniciativas levadas a cabo pelas prefeituras de Barcelona, Buenos Aires e Londres para reanimar o mercado de shows ao vivo. Especialistas preveem a crise do modelo, à medida que avança a tecnologia de realidade aumentada (com óculos 3D, por exemplo), possibilitando uma experiência vívida de imersão sem sair de casa. Para não deixar a velha fórmula palco + instrumentos + gente de carne e osso morrer, isenções fiscais para as casas de shows, criações de circuitos de apresentações em diversas casas numa mesma cidade ou em várias delas e iniciativas de barateamento de ingressos e melhora da acessibilidade visam a manter atrativa a experiência da ida ao show.

  • Música como trilha sonora de experiências: Algum artista que gosta de ver sua arte como uma expressão única do espírito humano torcerá o nariz. Mas, na era do entretenimento, a junção de música a outras formas de fruição e prazer é um fenômeno sem volta. Feiras de videogames, para se ter uma ideia, já têm seções específicas para a música original dos jogos. “É tudo junto e misturado mesmo. Venho dessa experiência, não consigo nem mesmo me imaginar fazendo uma coisa só. E o sucesso junto ao público mostra que é irreversível”, descreve Lellê, conhecida por seu trabalho no Dream Team do Passinho, um grupo surgido nas comunidades do Rio de Janeiro que funde perfeitamente a música a artes visuais e dança. Essas fusões, no entanto, vão muito além. Até mesmo programas de realidade aumentada para tratamento de certas doenças psiquiátricas operam com base na música — e já têm um mercado de desenvolvimento de trilhas sonoras específico, como contou o brasileiro Heitor TP, que andou criando coisas para esse setor. Se a música parece perder “protagonismo”, ganha em escala e permitirá uma nova dimensão de lucros aos seus criadores. 

O que seria (mas, pelo menos ainda, não se realizou)

  • Produtores desaparecem; todo artista passa a se produzir: Chegou-se a prever, armagedonicamente, o fim do produtor. Com a facilidade de ter um miniestúdio em casa, e os aplicativos que ajudam a produzir, o faça você mesmo nunca esteve tão ao alcance da mão. Mas o mercado se sofistica e especializa, e a produção “tosquinha” pode não chamar atenção em meio a tanto ruído. “Eu vim do mundo do home studio. Começava e terminava música nos meus oito canais. É muito legal o artista ter noção, mas, às vezes, pode esconder músicas muito boas numa produção ruim”, alerta o produtor Plínio Profeta. “Às vezes acontece de o próprio artista fazer uma demo tão boa que dificilmente um produtor consagrado a melhorará num estúdio incrível. Mas não é a regra”, completa Liminha. “A democratização dos meios de produção trazida pelo digital somou muito, não há como criticar. Mas, como em qualquer atividade, estudar, aprender, evoluir e especializar-se traz outro nível de resultado, e o mercado exige isso”, conclui Daniel Ganjaman.

  • Artistas que cuidam, solitariamente, de todos (todos!) os aspectos da sua carreira: Outro vaticínio comum há alguns anos era o de que todo artista deveria entender de marketing, arranjos, distribuição, assessoria de imprensa/redes sociais, barba, cabelo e bigode... Não é bem assim. Times enxutos de auxiliares, mesmo que na base da colaboração desinteressada de fãs e amigos, dão um gás inestimável, deixando o criador com tempo livre para... criar. Até mesmo no âmbito meramente artístico, a segmentação do trabalho já é possível, graças ao mundo digital, que oferece diferentes formas de apresentação da criação. “Hoje em dia, tem o cara que é uma bomba digital, que arrasa no YouTube, mas que não é tão bom ao vivo no palco. Ele pode focar, sim, o digital e se dar bem. Com a estratégia certa e as múltiplas possibilidades de mostrar uma criação musical, não é mais preciso ser bom em tudo, como se chegou a acreditar que seria a regra”, afirma Fabio Duarte, da Califórnia Media House. 

  • Tecnologia acabaria com erros de identificação de músicas: Chegou-se a acreditar que, como num passe de mágica, os erros de identificação de músicas desapareceriam com a difusão do digital, beneficiando enormemente a arrecadação e a distribuição de direitos autorais. Não foi assim. “Um dado ao qual tive acesso mostra que, num dado território, que sou levada a crer que são os Estados Unidos, a cada 20 milhões de streams, dez milhões não tinham identificação. Continua dramática essa questão. Ninguém se responsabiliza, nem as editoras nem os selos nem os próprios artistas nem as plataformas de streaming. É preciso que quem produz se faça responsável: é o seu dinheiro que está deixando de entrar por isso”, critica a jornalista americana Susan Butler, criadora de uma exclusiva newsletter musical, o Music Confidential, que fornece informações preciosas do mercado a um seleto grupo de executivos e players. No caso do uso das canções pelo audiovisual, os erros nos cue-sheets (as folhas que trazem informações detalhadas sobre a inserção da canção em filmes, séries e novelas) também continuam frequentes. Tanto que a UBC vem insistindo na necessidade de melhora do preenchimento dos dados, numa verdadeira campanha em prol dos ganhos dos criadores. 

LEIA MAIS: UBC lança durante o Rio2C uma iniciativa de estímulo às carreiras dos seus associados: o Projeto Impulso

E, nos próximos dias, confira aqui no site uma reportagem da jornalista e curadora Fabiane Pereira sobre as sessões de pitching (venda de projetos) de música que agitaram o espaço RIOgaleao Pitching Show — e veja como se preparar, você mesmo, para essa crescente e certeira forma de mostrar seu trabalho a quem pode dar um gás nele.


 

 



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