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Sete perguntas para As Bahias e a Cozinha Mineira
Publicado em: 29/10/2019

Formada por duas mulheres trans, Assucena Assucena e Raquel Virgínia, e por Rafael Acerbi, banda paulistana está indicada ao Grammy Latino, promove seu disco mais plural e faz política com muita poesia 

De São Paulo 

Em duas semanas, As Bahias e a Cozinha Mineira, uma das bandas mais instigantes da nova cena musical brasileira, pode sair consagrada do Grammy Latino com o troféu de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa ao disco “Tarântula”. Seria um feito e tanto para um grupo surgido há pouco mais de sete anos. Mas não só: seria a primeira vez que um artista transexual receberia essa distinção. Um, não; duas, Assucena Assucena e Raquel Virgínia, que formam o trio ao lado de Rafael Acerbi.

Quatro anos depois de “Mulher”, dois anos depois de “Bixa”, o grupo insiste, com “Tarântula”, em suas verdadeiras investigações musicais que versam sobre feminilidade e politização, ao som de samba, rock, pop e outros gêneros. Ao batizar seu novo trabalho autoral com o nome de uma operação da PM paulista para “limpar as ruas” e “combater a Aids” que, em 1987, derivou numa série de assassinatos de travestis, os três aprofundam seu caminho de reivindicação. Sem jamais perder a poesia.

Egressos do curso de História da USP, Assucena, Raquel e Rafael produzem uma obra original, potente, plural, que os levou à indicação ao Grammy Latino (cuja cerimônia será no próximo dia 14) e a participar do último Rock in Rio. “Uma das vitórias mais lindas”, como eles descrevem nesta entrevista à UBC. 
 

O que a indicação ao Grammy Latino - a primeira a mulheres trans, como orgulhosamente afirmaram - representa para vocês?

ASSUCENA: É sintomático de um apagamento, silenciamento histórico e, também, da supressão social de nossos talentos. Mas acho também que essa indicação d’As Bahias e também da Liniker aponta para um novo tempo construído por nós.

O Brasil é um dos países que mais matam LGBTs, mas é também um dos únicos onde trans e pessoas de outras minorias sexuais alcançam o estrelato na música, têm milhões de seguidores nas redes sociais e atraem multidões aos seus shows. O que explica esse paradoxo?

RAQUEL: O Brasil é celeiro de resistência por via artística. Somos criativos por excelência e inventamos realidades, inventamos horizontes. Sempre tivemos artistas que chamaram a atenção do mundo todo pelo ineditismo e por contrariar as estatísticas genocidas do Brasil, por contrariar os interesses retrógrados e conservadores. Acho que só estamos seguindo nossa tradição ancestral de persistir e inventar.

A maioria desses artistas - ou, pelo menos, uma parte importante - desenvolve sua arte no universo pop, onde parecem mostrar-se mais “palatáveis”. Vocês buscaram um caminho mais difícil, por incomum, que é o da MPB. Foi/tem sido difícil?

RAFAEL: Na verdade, nunca nos prendemos ao rótulo MPB. Sempre fizemos nossas escolhas artísticas na música pensando o que queríamos esteticamente naquele momento. E não dentro de um formato pré-definido. É claro que o mercado acaba criando determinadas práticas comuns de formatação da música, principalmente nos grandes veículos de comunicação, como rádio e TV. Acho que As Bahias e A Cozinha Mineira participa desse jogo, mas não termina aí. Nosso último álbum, “Tarântula”, talvez o mais pop que lançamos, carrega consigo outras canções que também não são mercadológicas.

Nos títulos dos álbuns, nas letras das canções, na força imponente de Assucena e Raquel em cena, a pulsação da banda é claramente feminina. Qual é a contribuição do Rafael a essa equação?

ASSUCENA: O Rafa não é apenas um contribuinte, é um fundamento da banda que abraçou as temáticas propostas por mim e Raquel e construiu possibilidades musicais e executivas com a gente. O Rafa é o arranjador e articulador musical e de arranjo da banda, além de tudo.

E vocês chegaram ao Rock in Rio. Como foi essas experiência?

RAQUEL: Rock in Rio é um grande sonho para muitas bandas. Somos uma banda que sonha alto e nos permitimos sonhar e trabalhamos duro para chegar onde almejamos. Rock in Rio faz parte das nossas vitórias mais lindas. Cantar com Elza estará marcado para sempre na minha memória.

Já estão compondo para um novo álbum? Quais os projetos/planos de curto/médio prazo?

RAFAEL: Eu, Raquel e Assucena compomos o tempo todo. Nestes anos, acumulamos canções que deixamos guardadas. Temos várias músicas não gravadas e outras ainda a se fazer nesse período. Ainda não começamos a discutir o novo álbum, mas algumas canções já têm se mostrado interessantes para inaugurar uma nova fase.

Manifestar-se politicamente parece ter virado um imperativo, mas também um risco. É crescente o número de casos de censura (em exposições, shows, peças de teatro), linchamentos virtuais e até ameaças de agressões físicas contra artistas que omitem opiniões que firam certo discurso reacionário. Vale o risco?

RAQUEL: Acho que artistas se posicionam sempre. Mesmo que não falem. Não falar é uma posição. Eu prefiro falar. Faz parte do meu compromisso comigo mesma e com meus ancestrais. Não durmo bem quando finjo que não vejo absurdos. Faz parte da minha essência.

ASSUCENA: A arte é um compromisso com a verdade do artista. Se, na verdade artística, há o posicionamento político, ele tem de vir . Estamos num tempo onde se manifestar é tomar partido com verdade e justiça.

RAFAEL: Sim. Acho que tudo é político. Tanto o manifesto quanto a omissão são posturas que carregam teor político. Creio que a arte tem poder de conectar as pessoas e fazer pensar de maneira sensível sobre diversas situações da vida. Ela pode transformar radicalmente o modo de ver sobre algum assunto e, assim, mudar a realidade de alguém. Numa conjuntura tão difícil como a que vivemos atualmente na cultura, acho mais do que importante que o artista esteja nesse front de embate ideológico.

VEJA MAIS: O clipe de “Volta”, do álbum “Tarântula”


 

 



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