No

cias

Notícias

Margareth Menezes, livre como compositora
Publicado em: 12/11/2019

Baiana lança seu disco mais autoral, no qual exalta a mulher negra, pede paz neste momento conflituoso do país e também grava Gil, Jorge Vercillo e Flavia Wenceslau

Por Christina Fuscaldo, de São Paulo

Fotos de José de Holanda

Num universo dominado pelos homens, uma mulher, ao compor, realiza um ato político. Quando elas ainda eram poucas na criação musical, surgia na Bahia uma atriz e cantora que saltou dos teatros para os trios elétricos, com uma potente — e inexplorada — bagagem de composições próprias. Por insegurança, Margareth Menezes começou a cantar músicas alheias, e seu primeiro sucesso foi de um homem, Luciano Gomes: “Faraó”, em 1987. “A timidez me tolheu um pouco. Incentivada por Carlinhos Brown e Alê Siqueira (produtores do disco ‘Afropopbrasileiro’, de 2001) foi que decidi incluir mais músicas minhas”, lembra.

De 1988 em diante, Margareth Menezes foi incluindo cada vez mais de suas canções em seus álbuns e se tornando, pouco a pouco, uma das cantautoras mais representativas da música baiana. Mas é só agora, com “Autêntica”, que ela admite estar totalmente à vontade. “Venho vendo tanta menina cantando suas próprias composições que, quando estava planejando o ‘Autêntica’, pensei: ‘Ainda que tarde, tenho que gravar mais músicas minhas!’ Infelizmente, a gente se acostumou a obedecer alguns costumes, mas estou achando muito boa essa quebra de um paradigma meu.”

“Autêntica” não intitula nenhuma faixa, mas foi aceito como nome do álbum por Margareth Menezes depois que uma pessoa de sua equipe sonhou com o projeto antes de ele começar a ser concebido. “Não fui eu que escolhi, mas acho que o disco traz mesmo uma autenticidade”, reflete a cantora e compositora, também conhecida como Maga. Na obra, ela mistura afropop, samba reggae e tantos ritmos que, mesclados, têm tudo para levá-la de novo ao topo das paradas da chamada world music, onde já esteve tantas vezes. 

Produzido por Tito Oliveira e gravado entre vários estúdios, em São Paulo, Salvador, Nova York e Paris, o álbum reúne 13 faixas. Ao lado da inédita de Gilberto Gil “Paraguassu”, que Margareth cantou na edição de 2000 do festival PercPan, mas nunca gravou, e das regravações de “Por Nós” (Jorge Vercillo) e “Por Uma Folha” (Flavia Wenceslau), há seis canções assinadas pela cantora, algumas delas em parcerias. 

"A timidez me tolheu um pouco. Incentivada por Carlinhos Brown e Alê Siqueira (produtores do disco ‘Afropopbrasileiro’, de 2001) foi que decidi incluir mais músicas minhas."

“Para fazer uma parceria, acho que é preciso encontrar o parceiro. Não sei bem como acontece, mas tem música que começa até por telefone. Já fiz assim com Carlinhos Brown. E me impressionei quando, ao compor ‘Passe em Casa’ com ele, Marisa Monte e Arnaldo Antunes, gravada no projeto Tribalistas, senti neles uma conexão fantástica, coisa de grupo mesmo”, diz. 

Foi assim, agora, com “Querera”, escrita com Nabiyah Be, filha do músico jamaicano Jimmy Cliff com a brasileira Sônia Gomes, amiga de Margareth. “Nabiyah é uma cantora brasileira, baiana, negra, que tem uma carreira desenvolvida fora do país e agora está preparando seu primeiro trabalho”, explica.

Outra cantora brasileira, baiana e negra presente no álbum é Larissa Luz. Ex-vocalista da banda Ara Ketu e atriz expoente do musical “Elza”, a soteropolitana empresta o vozeirão para “Capoeira Mundial”, parceria de Margareth com Alfredo Moura e Mokhtar Samba. “Larissa tem essa defesa da mulher negra... Acho bacana essa galera nova valorizando as mulheres mais velhas que trazem um legado, como Elza Soares, Dona Onete...”, observa.

De fora da Bahia, Margareth trouxe ao disco a voz, a percussão, os arranjos e a produção do músico franco-marroquinho Ahmed Soultan. “Elegibô – Peaceful Heart”, parceria de Ahmed, Samira Ammouri e da própria Margareth, é uma referência ao momento: “Conhecendo um pouco de minha história, ele quis fazer algo ligado ao (álbum) 'Elegibô', que tem uma simbologia relacionada à paz, ao (elemento) pacificador. Estamos precisando de pessoas mais pacíficas. Isso não significa ser passivo, mas ter a capacidade de resolver conflitos da melhor maneira possível. É preciso falar dessas coisas para ver se mudamos o mundo um pouquinho.”

"Estamos precisando de pessoas mais pacíficas. Isso não significa ser passivo, mas ter a capacidade de resolver conflitos da melhor maneira possível."

“Perfume de Verão” (Carlinhos Brown e André Lima) e “Retrato 3x4” (Peu Meurray, Fábio Alcântara, Aline Barr e Magary Lord) são as canções mais dançantes e, junto com a romântica “Amor e Desejo”, de Margareth, as menos militantes do disco. Em “Minha Diva, Minha Mãe”, a compositora canta a força de sua progenitora. 

Já em “Mulher da Minha Vida” (Gabriel Moura e André Lima), Maga permitiu que dois homens, no caso os compositores, escrevessem sobre o lugar da mulher. “(...)Lugar da mulherada é em qualquer lugar / O que é que tá faltando pro homem entender / Mulher, mulher, mulher / O meu lugar é onde eu quiser”, canta o vozeirão de Margareth Menezes, que pede passagem para sua faceta criadora. Agora, ela garante, para ficar. 

OUÇA MAIS: O álbum "Autêntica"


 

 



Voltar