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Aos 75 anos, Lia de Itamaracá lança novo disco
Publicado em: 27/12/2019

2019 marcou uma série de homenagens à Rainha da Ciranda, que se junta a nomes como DJ Dolores, Ana Garcia e Yuri Queiroga para gravar constelação de novos compositores e releituras

Por Kamille Viola, do Rio

Nascida e criada na ilha de Itamaracá, em Pernambuco, Lia de Itamaracá, a Rainha da Ciranda, conta que, quando começou a compor, aos 12 anos, escrevia as letras na areia. O mar apagava tudo, ela ia lá e escrevia de novo. Essa imagem poderia ser uma metáfora da própria carreira da artista, de 75 anos, 63 deles dedicados à música. Como acontece com tantos criadores musicais brasileiros, especialmente os de gêneros tradicionais, ela viveu altos e baixos em sua trajetória. O sustento veio do ofício de merendeira de uma escola municipal, que exerceu por quase 30 anos, e do trabalho na Secretaria de Turismo, na própria ilha. Mas Lia jamais abandonou a música e acaba de lançar seu mais novo disco, “Ciranda Sem Fim”.

O quarto álbum da artista, que chega nove anos depois do anterior, foi produzido pelo DJ Dolores, sergipano radicado em Recife e expoente do mangue beat, além da produtora cultural Ana Garcia, do festival Coquetel Molotov. Com participações de Grupo Bongar, Yuri Queiroga e Lucas dos Prazeres, o disco vai além do ritmo que consagrou Lia de Itamaracá, passando por bolero e brega, tudo permeado pelas batidas eletrônicas características de Dolores. 

Com 11 faixas, “Ciranda Sem Fim” traz composições de Alessandra Leão (“Falta de Silêncio”), Chico César (“Desde Menina”), Lúcio Sanfilippo (“Ciranda Sem Fim Para Lia”), Juçara Marçal e Alice Coutinho (“Lua Ciranda”) e do próprio Dolores (“Companheiro Solidão”), bem como de Ava Rocha e Iara Renó (“Mulher Peixe”). 

Outras canções são “O Relógio”, bolero que, em sua versão em português, foi eternizado por Altemar Dutra, e “Apenas um Trago (Bom Dia Meu Amor)”, do cantor e compositor José Ribeiro, sucesso na década de 70. Ela encerra com um pot-pourri de “Vem Pra Cá, Morena/ Santa Tereza/ Despedida”.

“Ciranda é minha paixão. Não vou deixar de ser cirandeira, não. Eu quis mudar um pouco para ver como ficava”, Lia descreve. “Eu tinha que ver como ia ser, se eu ia ter capacidade de fazer. Mas, graças a Deus, fui bem, me dei bem. Gostei do resultado. O público está gostando, e eu também, isso é que é importante”, analisa ela.

O ano de 2019 trouxe várias homenagens à artista, que, em 2005, foi considerada “Patrimônio Vivo de Pernambuco” pelo governo estadual. Logo em janeiro, foi lançado um livro sobre sua história, “Lia de Itamaracá: 75 anos cirandando com resistência, sorrisos e simplicidade”, feito a partir da dissertação de mestrado do jornalista pernambucano Marcelo Henrique Andrade, também cria de Itamaracá. Ela conta que ficou muito feliz com o trabalho. “Amei e estou amando ter minha vida contada em livro. É bom você ver como era e pensar em como vai ficar”, diz.

Em agosto, ela ganhou o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco (UNPE). Antes disso, no carnaval, tinha sido celebrada em dois importantes blocos de Recife, o Galo da Madrugada e O Homem da Meia-Noite. “Estou achando que é o momento da minha carreira em que sou mais reconhecida, o trabalho é valorizado”, comemora.

A artista também atuou no elogiado “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho, filme premiado no Festival de Cannes. E conta que tem vontade de fazer mais cinema. “De tudo um pouco eu quero aproveitar, quero ver até onde posso chegar”, diz. Ela já havia aparecido na telona em “Sangue Azul” (2015), de Lírio Ferreira, e foi tema dos documentários “O Mar de Lia” (2010), de Hanna Godoy, e “Eu Sou Lia” (2003), de Karen Akerman, além dos curtas “Encantada” (2015) e “Recife Frio” (2009), de Kleber Mendonça Filho, entre outros filmes.

Vinte anos depois de ter tido a carreira revitalizada pelo Abril Pro Rock, a artista deu o pontapé inicial da nova turnê em outro festival em Recife, o Coquetel Molotov, e segue encantando as novas gerações. “É muito bom ver que os jovens gostam do meu trabalho, isso é muito importante. Eu me sinto muito alegre, feliz. Agradeço a todos os que me apoiam”, comemora.

“Estou achando que é o momento da minha carreira em que sou mais reconhecida, o trabalho é valorizado”

Apesar da boa fase, ela acredita que a ciranda não seja valorizada em seu próprio estado. E lamenta que o Centro Cultural Estrela de Lia, em Itamaracá, adquirido por ela em 2004, esteja sem funcionar. “Ainda está parado, sem poder fazer atividades, porque não tem condições. Está uma confusão muito grande. Teve uma emenda parlamentar (em 2016, pelo Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento Municipal, para a reconstrução do espaço), uma parte da verba foi paga, a gente subiu o palhoção, mas estão faltando camarim, vídeo, palco, banheiro, cozinha”, explica. “Para tudo tem que ter capital de giro, para poder tocar o barco”, resume.

Ela também se entristece com o estado atual da ilha que carrega em seu nome. “Você precisa passar por aqui para ver o desastre. A ilha está abandonada”, reclama. “Nasci, me criei, sou filha de Itamaracá. Eu me sinto triste, nunca vi Itamaracá desse jeito. Já estou com a idade que eu estou, mas nunca vi como está. Não sei como ela vai ficar, onde isso vai parar”, queixa-se.

Maria Madalena Correia do Nascimento, a Lia de Itamaracá, nasceu em 12 de janeiro de 1944. Compositora desde os 12 anos, ficou conhecida em 1967, quando Teca Calazans lançou um compacto com a faixa “Cirandas”, adaptação de temas de domínio popular que trazia os hoje famosos versos “Essa ciranda quem me deu foi Lia/ que mora na Ilha de Itamaracá”. Além do novo trabalho, “Ciranda Sem Fim”, tem mais três discos lançados: “Rainha da Ciranda” (1977), “Eu Sou Lia” (2000) e “Ciranda de Ritmos” (2010).

Mesmo sendo uma artista aclamada, tira seu sustento principalmente da aposentadoria como funcionária pública. Ainda assim, não pensa em parar tão cedo. “A ciranda me dá força, inspiração. Música é alegria. Enquanto eu puder, enquanto Deus me permitir, eu quero cantar e ir cada vez mais além”, planeja.


 

 



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