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Bebel Gilberto: “eu acho que eu criei uma marca, um nome, um som”
Publicado em: 02/09/2020

Em longa entrevista ao site da UBC, a cantora e compositora fala sobre a criação do seu novo trabalho, “Agora”, relembra “Tanto Tempo”, álbum que a lançou no exterior há 20 anos, e comenta relação com os pais, João Gilberto e Miúcha

Por Kamille Viola, do Rio

Mal Bebel Gilberto surge diante da câmera para a entrevista por videochamada, a cachorrinha Ella pula em seu colo. “O shih tzu é um cachorro muito companheiro. Eu tive poodle muito tempo atrás, depois só tive gato, e Ella é a paixão da minha vida”, derrete-se a cantora, que acaba de lançar seu novo disco, “Agora” (pela gravadora belga PIAS). De volta ao Brasil depois de 20 anos em Nova York, é com o animal de estimação que ela passa o período de isolamento, há quase cinco meses: “Vim passar 15 dias aqui, acabei ganhando uma cachorra e ficando presa na pandemia (risos).”

Há dois anos, Bebel voltou para o Rio de Janeiro, para ficar mais perto dos pais, a cantora Miúcha e o cantor e compositor João Gilberto. Os dois acabaram morrendo com seis meses de diferença: Miúcha em dezembro de 2018, João em julho de 2019. Ela já tinha se desfeito da vida nos Estados Unidos e resolveu passar um tempo aqui. Com a morte da mãe da cantora, Chico Buarque, irmão de Miúcha e tio de Bebel, se aproximou de João. O convívio reforçou o laço dela com Chiquinho Brown, neto de Chico, ao lado de quem a cantora já fez uma apresentação online e com quem pretende sair em turnê, quando possível. “Ele é multi-instrumentista, canta, faz vocal, é lindo. É um barato realmente, um presente ter meu “prímulo”, que é como eu o chamo, junto”, elogia.

Foram seis anos desde o trabalho de estúdio anterior, “Tudo”, até o atual, o recém-lançado “Agora”. Ela garante que a demora não foi por conta dos problemas familiares que teve no meio do caminho: em 2017, pediu a curatela do pai, que estava afundado em dívidas. Seu irmão João Marcelo (do casamento com Astrud Gilberto) foi contra a atitude de Bebel, e o caso ganhou repercussão na mídia. “Tinha muita exposição na imprensa, que eu não estava entendendo que iria ter, por causa de uma matéria de uma revista que foi horrível. O meu pai leu, viu e  ficou arrasado. Acho que era desnecessário com ele, comigo, com qualquer artista. Isso não tem por quê. Não era bacana o que ele estava passando, uma história extremamente triste”, lamenta. A partilha ainda envolve Luisa Carolina, filha mais nova de João Gilberto, do relacionamento com Claudia Faissol.

“Comigo, as coisas são muito orgânicas. Eu, na verdade, estava sem empresário. E tomei essa decisão de ir para a Puglia (na Itália) e ficar pensando”, lembra. “É muito difícil quando você tem essa coisa de o produtor lá te olhando: ‘Temos que fazer (o disco) até não sei quando.’ Isso existe, também, mas no meu caso foi importantíssimo dar esse tempo e compor as músicas sem tanto compromisso”, garante. Foi depois da viagem para a Itália que ela procurou o produtor norte-americano Thomas Bartllet (que havia trabalhado com nomes como Norah Jones e Florence + The Machine) e começou a montar o repertório. Fizeram 17 canções, das quais 11 entraram em “Agora”. Com pegada mais eletrônica que os trabalhos anteriores, o disco traz uma música-desabafo composta para o pai, “O Que Não Foi Dito”, e uma parceria com Mart’nália, “Na Cara”, que deu origem ao primeiro clipe da safra. “Eu gostaria de fazer um trabalho inteiro com ela, porque a gente combina”, diz sobre Mart’nália.

“Agora” é também uma espécie de homenagem a Suba, o produtor musical iugoslavo radicado em São Paulo Mitar Subotic, morto em 1999 em um incêndio, que introduziu elementos eletrônicos em diversos discos brasileiros da década de 90. Quando morreu, ele estava justamente no meio da produção de “Tanto Tempo”, álbum que lançou Bebel Gilberto no exterior, há duas décadas. “Agora” também chega 40 anos depois do marco do início da carreira da cantora, quando ela, ainda adolescente, cantou “Chega de Saudade” em dueto com o pai em um especial de TV.

Confira a entrevista da artista à UBC.

São 20 anos do “Tanto Tempo”. Olhando para trás, como avalia sua trajetória de lá para cá?

Ah, com  muito orgulho, né? Eu acho que eu criei uma marca, um nome, um som. Eu tenho agora me preocupado muito — que, graças a Deus, tenho mais tempo também — em poder falar: “Poxa, olha, eu realmente agora estou mais madura.” O “Tanto Tempo” foi como o nascimento de uma flor, mas era um disco que já estava na minha cabeça havia muito tempo, eu já namorava essa coisa de, não bossa eletrônica, que eu odeio essas labels, mas eu gosto dessa coisa eletrônica, de misturar, tem muito violão presente… Neste disco (atual), por acaso, não tem, mas (tem) essa coisa mesmo de ter criado um som diferente e, dali, eu ter achado o meu caminho. Quando eu olho para trás e vejo que se passaram 20 anos, não acredito, porque para mim eu ainda tenho 35 e, agora, achei a medida certa.

O “Tanto Tempo” foi muito incrível. E essas datas redondas, que temos outras, eu não tinha nem pensado. Eu me toquei que tinha feito 20 anos do “Tanto Tempo” por ser 2020, né? Começou a pandemia, não sei o quê… E eu, crente que estaria nos palcos do mundo, arrasando, fazendo meus shows megaeletrônicos. Vim passar 15 dias aqui, acabei ganhando uma cachorra e ficando presa na pandemia (risos). E aí começo a pensar tudo isso. Quando a gente estava gravando, não teve esse peso, tá? Porque a gente também nem sabia se ia sair em 2019, se ia sair em 2020. Tinha a coisa de quase fazer um tributo ao Suba, porque o Thomas Bartlett é muito, muito fã dele. Eu claro que não, porque morria de medo, porque o Suba era superexigente, nunca vou tentar copiar qualquer coisa dele. Mas acho que foi meio um tributo: a coisa de fazer um eletrônico, a coisa de ousar tirar o violão, de repente… Isso tudo.

Você teve o “Tanto Tempo”, e o novo disco se chama “Agora”. A questão do tempo é algo em que você costume pensar?

O “Agora”, na verdade, foi meio que quase uma coincidência. Porque eu repetia a palavra agora milhões de vezes. E a música “Agora” não se chamava assim. O Thomas, quando fazia uns scats, às vezes botava o nome do drinque que ele estava tomando. Tinha um que era “Loom”, eu nem sei o que é, que, quando ele fez o scat, sem eu estar presente no estúdio, ele já tinha feito. Aí um dia a gente estava gravando, já no final, meio pensando no título — porque eu sempre faço tudo ao contrário —, quando ele disse: “Bebel, o que é agora?” (imita o sotaque americano). Ele falava “what the fuck is agora?”. Eu falei: “Agora is now.” Aí eu me toquei: “E não é que eu repito ‘agora’ várias vezes? E por que não chamar ‘Loom’ de ‘Agora’?” A gente queria que fosse a música de trabalho, até hoje a gente não tocou. Espero que já entre para a trilha do “007”. Remete um pouco, né?, tem um som... Então eu falei: “Acho que a gente tem que tirar ‘Loom’, botar o nome de ‘Agora’.” E o álbum é um “Agora” porque é um momento tão importante. Tudo foi se encaixando, sabe?

Como surgiu a parceria da Mart’nália? Como vocês se conheceram?

A Mart’nália foi muito importante para mim dez anos atrás, num momento decisivo da minha vida. Ela foi amigona. Eu tinha me metido numa encrenca com uma pessoa, e ela teve coragem de me falar. Eu estava quase me casando com a pessoa. E ela foi de uma amizade, apesar de a gente se conhecer tinha pouco tempo, foi tão direta. Foi maravilhosa! E a mamãe e o Martinho tinham aquele ‘romance’ que já acontecia há tempos — não romance de verdade –, mas a todos os shows de Angola mamãe foi junto. Ela era sagitariana: falava em viagem, ela era a primeira ir. Foi um movimento lindo. E Mart’nália estava lá. A gente chegou à conclusão de que se conheceu ali. Lembrar de brincar junto não rolou, mas temos diferença de um ano. Começamos a ter muitos amigos em comum, justamente nessa época (dez anos atrás), aí ficamos amigas. Descobrimos que a gente gostava das mesmas coisas: de curtir, de uma praia, de uma cerveja, de ficar improvisando, cantando, gostava de dançar. Uma grande amiga dela ficou minha amiga, foi um presente, e o Erich Baptista, que dirigiu o clipe de “Na Cara”, é superamigo dessa amiga dela, a Flávia Zillo. Ela chegou nos meus últimos anos em Nova York, foi muito legal comigo. Eu já estava tendo esses probleminhas. E Mart’nália, madrinha dos filhos e superligada às crianças, vinha bastante. Então a gente fazia um esquema de sempre se encontrar, comer um hambúrguer junto.

Tem até um pedacinho no meu Instagram (de um vídeo feito em Nova York) que saiu na Fátima Bernardes, que a gente saiu animadíssima, tinham quatro meninos cantando gospel. Dali eu me animei: “Mart’nália, esqueci de te falar, estou com uma melodia que é a sua cara.” Isso muito antes de disco, de tudo. Aí comecei (cantarola): “Barabadaparapara, barabarabarara.” Ela: “Ai, achei ótimo, vamos fazer.” Claro, foi viajar, ninguém fez nada. Dois anos depois, quando eu estou no estúdio já gravando, falei: “E aí, está vindo?”. “Não, acho que eu vou em dezembro, não sei o quê…” É sempre assim: ela fala que vai, aí demora um pouco, de repente aparece de surpresa… Eu falei: “Não quer fazer jogo (com) essa letra, pelo WhatsApp, aqui mesmo? Escreve aqui.” Eu precisava dela para começar a letra, eu só tinha a melodia. Porque músicas, para mim, começam de várias formas: a melodia, às vezes a melodia e a letra… Nesse caso, tinha a melodia muito forte. Aí ela escreveu, tipo, em um dia: “Por que não fala na cara? Por que não diz o que pensa (cantarola)?.” E aquilo para mim foi o start. Eu falei: “Gente, que ideia genial!”. Cabia um monte de coisa para um monte de gente que a gente queria falar, ali, em off (risos). A música tinha saído. Para completar, logo depois que o papai tinha morrido, que eu voltei para Nova York para terminar o disco e meio que empacotar a minha vida, porque eu já estava voltando para o Brasil, ela gravou comigo, ela veio para o estúdio. E ainda teve “Raio”, em que ela faz um vocalzinho só, mas que eu compus com ela lá no estúdio. Eu gostaria de fazer um trabalho inteiro com ela, porque a gente combina. E tem essa coisa de que pensam que eu sou a boazinha e que ela é a mais louca… na verdade não é nada disso. Mas tem uma química, em que uma equilibra a outra, sabe? Acho que em “Na Cara” aparece muito isso.

Você veio para ficar perto dos seus pais e acabou que a Miúcha teve uma partida muito repentina…

Fala assim, e já dá vontade de chorar (enxuga as lágrimas). É, não era para ser tão rápido, mas a gente não pode controlar essas coisas.

Acabou que os dois partiram num intervalo muito curto. Você tinha vindo para ficar com eles. Decidiu ficar no Rio mesmo assim?

Decidi, porque eu desmontei a minha vida toda lá. Hoje eu dormi pouco, sabe quando você está um pouco assim, ri sozinha, depois chora sozinha? Estou emocionada. Não que eu não esteja triste mesmo. Mas também meio que tinha dado (viver em Nova York). Eu morava num apartamento alugado muito bom, era uma coberturinha, tinha um jardim, eu tinha uma vida maravilhosa. Mas eu acabava viajando o tempo todo, e (havia as) contas. Não conseguia passar para o level (nível) de uma senhora de 50 anos, que deve começar a guardar dinheiro, pensar no futuro, sabe? Chegou uma hora, principalmente quando os tempos de ouro do “Tanto Tempo” foram embora, eu sempre estava trabalhando, estava fazendo voz e violão. É aquela coisa que mantém, não estava em dificuldades, mas ainda estava ajudando pai, e tinha todo aquele problema, as vindas para cá, e eu não tinha onde ficar, com a mamãe não dava, que ela já estava com cuidadora... Foi barra. A Paula Lavigne e o Caetano foram incríveis comigo, me ajudaram muito nessa época. Mas enfim, não fazia sentido eu ficar lá. Eu falei: “Bom, se eu ‘moro’ na mala, se eu posso viajar, agora eu tenho uma casa aqui, eu vou ficar aqui, agora eu posso ficar perto da minha família.” Quando eu vi, eu vim passar 15 dias, antes da pandemia, estava vindo do Japão — tinha feito um show maravilhoso lá. A gente já tinha feito a homenagem à bossa nova, que não tinha nada a ver com a partida do papai, mas já estava marcada, e eu resolvi fazer, com o Sergio Mendes — que também foi superlegal, porque eu cantei um repertório de bossa nova que eu nunca tinha cantado, então foi importante, e aí fiquei. Com pandemia e tudo. Eu pretendia fazer cem shows este ano, no mínimo (risos). Então era uma forma para mim, também, de dar uma reestruturada economicamente. Eu sou taurina, tem que ter a casa, para quando eu volto da turnê. Eu me lembro que os porteiros falavam: “Mas você viaja tanto, por que paga aluguel?”. Eu falava: “Pois é, né, só para ter o prazer de chegar em casa e passar uma semana (risos).” Eu penso que vou voltar (para Nova York). No futuro, devo voltar, não sei como. Mas estou muito feliz de estar aqui, de estar divulgando o disco, que é quase todo em português.

Foram seis anos para lançar um disco de estúdio. É bastante tempo. Foi pelos problemas da vida, a questão do seu pai, as viagens?

Não foi nada disso. Meu pai, na verdade, a barra começou a pesar em 2013, quando ele fez aquela loucura (o artista fez um acordo com o Banco Opportunity cedendo 60% dos direitos de suas três primeiras obras; em troca, a instituição financeira assumiu a disputa judicial dele com a EMI-Odeon). Mas 2015 foi quando eu abracei a causa. Levei ele para o Copacabana Palace. Estava com outro advogado, uma confusão, foi fogo. Eu estava fazendo um show voz e violão que estava bombando. E era uma coisa muito prática para mim: eu estava cantando as minhas músicas, fiz uma regravação de “Creep” (do grupo inglês Radiohead), que até entrou para um disco que ficou meio no ar, é um álbum ao vivo ao qual a gente não deu muita atenção (“Live at the Belly Up”, de 2017). Eu estava fazendo turnê e, no final de 2017, comecei a compor. Fiz “O Que Não Foi Dito”, para o papai, porque eu já tinha ganhado a curatela, a gente não tinha conseguido conversar com calma — não é o tipo de coisa que você consegue conversar com ninguém que você interdita —, então foi um momento delicado. Mas isso não quer dizer que tenha sido porque: “Ai, eu não estou podendo ir para o estúdio.” Não. Comigo as coisas são muito orgânicas. Eu, na verdade, estava sem empresário. E tomei essa decisão de ir para a Puglia (na Itália) e ficar pensando, querendo ficar sozinha, fazer uma viagem sozinha, comer, beber, passear. Só esse tipo de coisa, na minha cabeça, já ajuda a compor o novo disco. É muito difícil quando você tem essa coisa de o produtor lá, te olhando: “Temos que fazer até não sei quando.” Isso existe, também, mas no meu caso foi importantíssimo dar esse tempo e compor as músicas sem tanto compromisso. E aí se passaram seis anos. Na verdade, o disco já estava pronto ano passado. Então seriam cinco (risos).

Você sempre foi discreta com sua vida e, de repente, teve toda essa questão do seu pai exposta. Foi por isso que quis fazer uma música para ele, foi um desabafo?

Um dos motivos foi (esse). Tinha muita exposição na imprensa, que eu não estava entendendo que iria ter, com uma matéria de uma revista que foi horrível. O meu pai leu, viu e ficou arrasado. Acho que era desnecessário com ele, comigo, com qualquer artista. Isso não tem por quê. Não era bacana o que ele estava passando, uma história extremamente triste. Ele se meteu com as pessoas erradas e, sem sair de casa, conseguiu armar a maior confusão do mundo. E, para completar, o meu irmão pirou, porque achou que eu estava fazendo tudo errado, sem nem saber o que era direito, sem nunca nem ter cuidado de ninguém e saber como é que se faz. Então tem que tomar muito banho de sal grosso (risos).

Essa questão de cuidar de idoso é muito difícil, sempre tem muito julgamento e acaba sobrando para as mulheres.

Exato. A Ruth de Aquino, inclusive, foi uma jornalista que deu a cara a tapa, eu não conhecia ela. Essa mulher, para mim, vou fazer uma estátua dela… Porque eu achei ela tão bacana. E ela tinha passado por uma situação similar. Ela estava falando: “Por que eu simpatizo com a Bebel Gilberto? Porque eu já passei por isso.” É a questão do idoso. Esquece João Gilberto, esquece tudo. É a delicadeza e o pepino que sobra para quem vai cuidar. Porque sempre fica muito malresolvido isso. Quando eu consegui falar com a (jornalista) Maria Fortuna, que é filha do Perfeito, que eu adoro, nosso professor, Circo Voador, toda aquela época dos anos 80, eu falei: “Quando eu fizer o disco, eu vou contar as verdades da história.” E deixar claro que eu não estava atrás de direito autoral, que eu não queria ser executiva, que eu não queria ser inventariante, que eu fui colocada numa posição que na verdade não foi discutida com tranquilidade comigo. Porque as pessoas também, cada um pensa de um jeito, às vezes o advogado acha que é melhor fazer assim, porque isso, isso e isso. E eu viraria executiva. E gastando uma grana, porque daí qualquer processo que abrissem contra mim, por achar que eu tinha feito alguma coisa errada, eu ia ter que me defender e contratar o advogado. Enfim, confusão, não precisava.

E este ano a gente ainda perdeu o Moraes Moreira. Quando eu lembro que você passou tanto tempo com os Novos Baianos, ele contou que compôs “Acabou Chorare” por sua causa…

Na missa de sétimo dia do papai, ficou sentado do meu lado. Muito pouca gente foi, eu fiquei muito tocada de ele ter ido. O Moraes teve uma participação enorme na minha vida, porque foi “Pirlimpimpim” (especial musical exibido pela Rede Globo, em 1982, em comemoração aos 100 anos de Monteiro Lobato, em que Bebel viveu a Narizinho do “Sítio do Picapau Amarelo”, e Moraes, o Visconde de Sabugosa), toda a coisa dos Novos Baianos, mamãe e Marília Moreira (ex-mulher de Moraes) eram superamigas. Depois eu fugi de casa, fui morar com eles um mês, foi quando eu fui para o Cazuza. Aí fui passar um carnaval em Olinda com a minha tia, voltei um pouco mais madura. Eu tinha me inscrito no curso (de teatro) do Asdrúbal (Trouxe o Trombone), em que o Perfeito era o professor. Quem estava lá no primeiro dia? Marília, que é maravilhosa e eu conheço desde os 5 anos, o Cazuza e o namoradinho que eu tinha arrumado em Olinda. Eu tinha 14 anos. Foram criados laços muito importantes nessa época, muito legais. Realmente foi muito triste o Moraes ter ido embora.

Quando passar a pandemia, você pretende fazer a turnê do disco?

Eu pretendo e estou marcada. São nove shows, acho, que estão marcados para maio. O primeiro é no dia do meu aniversário, 12 de maio, em Londres. E vamos ver. Não sei como vai ser. Outro dia eu dei uma entrevista que eu achei ótima, eu falei: “Não sei se vai ser drive thru, in, up, down, around… (risos)”. Se as pessoas vão levitando, numa bolha... Mas o que importa é que parece que está rolando. Corre o risco de ser desmarcado se acontecer uma nova onda. Até parece que as coisas melhoraram…

Aqui não melhoraram mesmo...

Não só aqui. Eu falo sempre com a Holanda, tenho dois amigos lá. Eles estão (na fase) laranja também, porque está no verão, as pessoas piram, principalmente os jovens, porque têm essa sede de sair e tudo mais — graças a Deus eu já saí dessa fase faz tempo. Fico morrendo de pena deles, eu falo: “Ah, coitados, eles não sabiam o que a gente vivia, a gente era tão feliz.” Agora todo mundo fica triste porque não foi dormir às onze, foi dormir à meia-noite. Eu acho um momento delicado. Mas, se a gente conseguir dar a volta por cima, coisas podem mudar, e a gente vai descobrir novas formas de fazer coisas. E nada contra fazer live, eu fiz até um festival agora com o Chiquinho, a gente ensaiou um show — o Chico Brown, meu sobrinho. Ele está arrasando, tocando muito. Aliás, o Chico Buarque (avô de Chico Brown e tio de Bebel) ficou superpróximo do papai no final da vida dele. Quando a mamãe morreu, eles se encontraram, porque o papai foi no hospital. Foi superlindo. E a gente depois foi para o hotel onde a mamãe estava — que ela resolveu morrer num hotel, não queria ficar em casa, também estava tendo obra no teto, ela não aguentava mais. Então ela ficou lindona, lá, na frente da Praia de Copacabana, onde ela nasceu, muito chique. E aí eu só vi a união dos dois se formando. O Chico começou a ir visitar (João Gilberto), foi no aniversário dele. E aí o Chiquinho estreitou os laços comigo muito forte.

Que legal essa parceria.

E eu já estava com essa ideia de querer fazer só duo. Não querer banda enorme, porque sempre foi: tem que tem o cara do som, tem que ter o cara do monitor, tem que ter isso, aquilo. Não, vamos fazer uma coisa simples. Sim, tem que ter o cara do monitor, sim, porque muita coisa é programada, mas o Chiquinho pode simplesmente pegar o violão, tocar “Aganjú” (de “Bebel Gilberto”, 2004) que nem a gravação original. Então tem esse lado, ele é multi-instrumentista, canta, faz vocal, é lindo. É um barato realmente, um presente ter meu “prímulo”, que é como eu chamo ele, junto. Porque na verdade a gente é primo, mas minha prima diz: “Você não pode chamar ele de primo, você é tia (risos).”

Vi você dizendo que sente seus pais perto de você. Como é isso?

É, eles vêm me visitar toda noite, aqui nesse canto da direita (aponta). E aí Ella começa a latir, do nada. Outro dia, eu estava um pouco mais tranquila: “É o vovô, é a vovó! É tanta gente que morreu, minha filha, que eu já nem sei mais, deixa os fantasmas em paz.” E aí eu comecei a rir de mim mesma, por estar falando aquelas loucuras, porque eu falo com ela o tempo todo. Eu acho que eles estão por aqui, sim. Porque eu acredito nessas coisas e acho que, bom, minha mãe, seria a cara dela vir me assombrar, porque ela sempre foi bruxa, me chamava de bruxona, bruxinha, sempre gostou dos ocultos, sempre gostou de procurar disco voador no céu. E o meu pai, eu recebi um aviso mesmo de um profissional, e o que ele dizia era muito parecido (com coisas que ele diria): “Vem para cá, onde é que você está? Vem para cá, vamos tocar violão. Porque finalmente agora a gente pode ficar junto.” Eram umas coisas… Então eu acho que estão por aí. Espero que estejam. Não tenho medo. Eu sempre senti isso: quando o Suba morreu, quando o Paulinho, meu primeiro namorado, também, Cazuza… Depois eu fui acostumando. Mas pai e mãe, né? Estão aí, nos porta-retratos. Eu acho que eles vêm me visitar, sim.


 

 



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