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Queridinho de 'millennials' e adolescentes, lo-fi explode na pandemia
Publicado em: 28/12/2020

Gênero tem no Brasil a adesão de artistas como Rico Manzano e o duo Dulcineia; entenda

Por Kamille Viola, do Rio

Rico Manzano. Foto de Marina Goulart

Chamada de “música dos millennials” e queridinha também dos adolescentes, a música lo-fi experimentou um enorme crescimento na pandemia. Canais dedicados ao estilo — como o ChilledCow (7,15 milhões de inscritos), o mais famoso do gênero, e o Chill Hop Music (3,03 milhões) — tiveram um boom de seguidores e plays. Nomes como o duo College Music (mais de 1,21 milhão de seguidores) também viram sua audiência crescer mais do que em qualquer época. Nomes como In Love With ou Ghost e City Girl lançaram novos álbuns durante o período de distanciamento social, o que só aumentou o engajamento do público. No Brasil, o estilo caiu nas graças de artistas como Rico Manzano e o duo Dulcineia, que também apresentam novos trabalhos. Também há um canal dedicado ao gênero que faz transmissões ao vivo 24 horas por dia, o Rádio Lofi BR. Mas o que é esse estilo?

O nome não é novo no universo da música. O termo vem de “low fidelity” (em inglês, baixa fidelidade) e inicialmente dizia respeito à forma como a música era gravada. Conta-se que o DJ americano William Berger popularizou o termo, em 1986, em seu programa de rádio, onde dedicava um espaço a gravações caseiras. Nos anos 90, lo-fi passou a designar uma opção estética associada ao indie rock ou rock alternativo (ou, mais especificamente, o college rock), por falta de recursos ou por escolha, como lembra o jornalista e crítico musical Rodrigo Ortega.

“Era a gravação feita de forma independente que, algumas vezes, (depois) passava para um tipo de produção mais ‘profissional’, com os primeiros e os úlitmos discos do R.E.M., por exemplo. Também havia aqueles que incorporavam o lo-fi como estética, como o Pavement, acho que minha banda preferida nessa linha”, explica. “Uma geração de ‘indies’ no Brasil adotou essa estética, acho que meio por gosto e meio por falta de opção. Lembro que uma das coisas que eu mais ouvi na adolescência foi uma fita cassete de uma banda de rock lo-fi do Rio chamada Cigarettes. Até hoje, não sei o que era produção precária e o que era opção deles (risos). Depois, isso passou a ser emulado por produtores profissionais para dar uma cara ‘alternativa” a bandas de jovens que claramente eram mais produzidas”, conta.

"As gravações lo-fi trazem esse ambiente caseiro. E é uma música que dá para ouvir fazendo outras coisas, ela procura estar ali em sintonia com o ouvinte, em vez de se impor."

Tiago Soares, do duo Dulcineia

Nos anos 2010, no entanto, o termo lo-fi passou a se referir a faixas com loops de batidas combinados a melodias relaxantes e etéreas, normalmente instrumentais. Muitas também trazem sons como o chiado dos discos de vinil. Uma das características dos canais dedicados ao estilo é fazer transmissões ao vivo — muitas delas com o título “beats para estudar/relaxar”—, evidenciando um dos principais atrativos desse tipo de música para seus ouvintes: o uso como trilha de fundo para suas atividades. Com mais gente trabalhando de casa na pandemia, isso se tornou ainda mais constante, uma das razões para esse salto na audiência. Diversos canais fazem transmissões 24 horas. Além disso, o próprio YouTube, por sinal, teve um crescimento como um todo. E, como essa música é frequentemente gravada na casa do artista, muitos continuaram produzindo material durante esse período.

“Durante a pandemia, ficamos em casa por muito mais tempo que o habitual, e, pelo menos para mim, aconteceu de querer ouvir músicas que me elevassem o espírito e que combinassem com o clima dessa nova rotina. As gravações lo-fi trazem esse ambiente caseiro. E é uma música que dá para ouvir fazendo outras coisas, ela procura estar ali em sintonia com o ouvinte, em vez de se impor. As gravações caseiras tiveram um boom em outras épocas também, mas o que é a novidade é o estilo musical, mais lento, mais suave, do hip-hop”, comenta Tiago Soares, que forma o duo Dulcineia com Gabriel Silva. Eles acabam de lançar seu primeiro álbum, homônimo, que tem o lo-fi como uma de suas influências.

As outras plataformas de streaming logo se deram conta do sucesso do gênero e aderiram a ele, o que acabou ajudando a popularizar ainda mais o lo-fi. “As plataformas (Spotify, Deezer, Amazon) também deram uma bela impulsionada, perceberam que era um nicho de mercado muito interessante, então começaram a surgir várias playlists editoriais”, explica o produtor e multi-instrumentista Rico Manzano, outro adepto do estilo. “Todo mundo começou a ouvir mais música em casa. É muito fácil para uma pessoa colocar um lo-fi enquanto está estudando, cozinhando, antes de dormir... É uma trilha sonora da vida, de fato. Fica um som ambiente, que não incomoda”, analisa.

O duo Dulcineia. Foto de Luiz Wachelke

De fato, como já definiu a pesquisadora Maria A.G. Witek, professora do Departamento de Música da Universidade de Birmingham, segundo o site Elemental, embora isso dependa da personalidade e do gosto de cada um, música lenta, repetitiva, suave e sem vocais costuma ajudar na concentração, pois age como um estimulante, mas sem distrair o ouvinte de sua tarefa. O estilo já era muito associado ao mundo dos mangás e dos animes — nos streamings, normalmente não há vídeos, e sim algum mangá. Por conta disso, acabou atraindo um público bem jovem. “Os adolescentes têm consumido muito lo-fi. Ele se atrelou muito ao mundo dos games e dos animes, por isso pegou essa parcela do público. A molecada gosta de ouvir lo-fi jogando videogame. É muito importante para qualquer estilo musical ter jovens escutando, isso dá uma impulsionada muito forte", defende Rico Manzano

Se o lo-fi surgiu com muitas referências ao downtempo e ao trip hop — é comum falar em lo-fi hip hop —, hoje o universo desse gênero está se tornando mais diverso. Além de subgêneros como chill e dreamy, ele está cruzando novas fronteiras. “Agora o lo-fi também está se mesclando a outros estilos musicais. Assim como nós fizemos, misturando com a MPB, existe também mistura com soul, forró, pagode, samba etc. Isso com certeza fez crescer o interesse por ele e fez o lo-fi se expandir para outros nichos”,  acredita Tiago Soares, da dupla Dulcineia.

"A molecada gosta de ouvir lo-fi jogando videogame. É muito importante para qualquer estilo musical ter jovens escutando, isso dá uma impulsionada muito forte."

Rico Manzano

Manzano também traz suas próprias referências para o estilo. Ele acaba de lançar o single “Soulfi” (que ganhou clipe semana passada), o primeiro de cinco que vai soltar até abril, quando sai o EP “Lofi Tropical”. “Além dos beats, meu trabalho traz influências da MPB, de regionalidade, sempre coloco alguma coisa brasileira, uma cuíca de fundo, alguns instrumentos brasileiros, um apito, algum sample de funk, para tropicalizar esse lo-fi, trazê-lo para um outro lugar”, explica.

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