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Tendências 2021: pacotes 360 no streaming ameaçam hegemonia do Spotify
Publicado em: 22/03/2021

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Ao oferecer música e também entregas grátis, vídeos e outros produtos, rivais como a Amazon crescem rapidamente, mas contratos atuais preocupam gravadoras e agregadoras

Por Alessandro Soler, de Madri

Um dos principais movimentos que vêm ocorrendo no mercado de streaming musical tem bem pouco a ver com música. Mas deve influenciar decisivamente a capacidade das plataformas de se manterem num meio extremamente competitivo. Players como a Amazon estão apostando numa estratégia agressiva para captar novos assinantes, oferecendo, por preços baixos, muitas outras vantagens além de um amplo catálogo de canções. Entregas grátis de pedidos feitos na Amazon, descontos exclusivos sobre milhares de produtos e acesso à plataforma de streaming audiovisual estão entre os "bônus" desse pacote, do tipo 360, que no Brasil custa R$ 9,90. O resultado imediato é que a plataforma, que chegou ao país há apenas um ano e meio, já desbancou a Deezer e se tornou vice-líder do mercado. 

Enquanto isso, o Spotify, primeiro lugar tanto no Brasil como globalmente – em base de usuários e receita para as gravadoras e distribuidoras – vê sua hegemonia sob ameaça, diversificando muito pouco seu escopo de serviços. Depois da música, a gigante criada na Suécia por Daniel Ek aposta na oferta de podcasts, que, apesar da expansão do formato, são produtos de muito menor apelo do que os incluídos no pacote 360 da Amazon. Mais: o preço mínimo da assinatura premium no Brasil é R$ 16,90. 

O que isso tudo tem a ver com você, titular de direitos autorais, e com o mercado como um todo? Muito. Dados obtidos junto a uma fonte da UBC, com estreita ligação com esse segmento, mostram que o Spotify, sozinho, é responsável por 80% de tudo o que as gravadoras recebem em termos de royalties pela execução de canções em plataformas de streaming musical no Brasil. Todas as outras somadas ficariam com os restantes 20%, sendo a fatia da Amazon estimada em menos de 3%. 

Isso se deve não apenas ao menor número de assinantes, mas também aos acordos de pagamento celebrados entre plataformas e gravadoras, que, no caso da Amazon, ainda não são tão vantajosos como os firmados com o Spotify. É justo pensar que o crescimento exponencial da Amazon traria mais ganhos absolutos, mas, para que o panorama relativo de lucros se mantivesse pelo menos em nível semelhante ao atual, seria preciso rever os contratos. 

De acordo com a mesma fonte, não são poucas as gravadoras, distribuidoras e agregadoras insatisfeitas com o repasse de lucros por stream feito pela Amazon.

Atualmente, embora ainda não tenha uma base de usuários na plataforma de música para competir de frente com o Spotify, a empresa fundada por Jeff Bezos usa outras ferramentas para conquistar os artistas e convertê-los. Echo Dot (assistente virtual) de presente para os artistas pedirem suas músicas e postarem em suas redes, lives na plataforma de vídeos, canais preferenciais e com estratégias exclusivas de divulgação na Twitch (que pertence à Amazon) e posts com mídia nas redes sociais são alguns dos diferenciais oferecidos.

Um movimento em comum que todos os players estão seguindo, aliás, é o foco nos novos artistas. Todos estão interessados em abraçar novidades até que elas virem nomes consagrados. O Spotify tem o programa global Radar. A Amazon lançou o Ecoando. A Deezer tem o Deezer Next. O YouTube tem o NextUp. A Apple tem o The A-List. O artista selecionado pode ganhar destaque em playlists, campanha nas mídias sociais e também off-line, com outdoors, por exemplo.

YOUTUBE E TIKTOK

Depois de liderar com folga o mundo da música através de sua plataforma de vídeos convencional, o YouTube viu a necessidade de criar um player de música para substituir o fracassado Google Play. Daí nasceu o YouTube Music. Embora ainda seja uma incógnita para grande parte dos usuários, que não entende a diferença entre YouTube Music e o velho YouTube, o app de música já passou a Apple em receita para algumas gravadoras e distribuidoras. Vale lembrar que a receita depende de qual é o foco da gravadora ou distribuidora. Por exemplo, como a Deezer saiu na frente no segmento gospel, até 2019 a plataforma era a mais lucrativa em receita para alguns artistas e majors. Depois de ficar atrás em receita e preferência da indústria, o Spotify contratou reforços nas áreas Editorial e de Relacionamento com Artistas e Gravadoras dedicados à música religiosa e conseguiu virar o jogo, deixando a Deezer para trás também nessa área. 

Outra plataforma que não é exatamente uma concorrente dos players de música, mas tem sido a queridinha de alguns artistas para fazer seus lançamentos e divulgações é o TikTok. Dependendo do acordo com a gravadora, distribuidora ou agregadora, a música fica disponível ali por 15 ou 30 segundos; mas há acordos mais raros em que se pode disponibilizar um minuto. Não existe remuneração para artistas por stream por enquanto (mas há tentativas de acordo em andamento, inclusive com o Ecad, para o pagamento de execução pública). Porém, como uma espécie de compensação, os artistas cujas músicas são executadas ali podem ganhar figurinhas dos fãs, conversíveis em dólares.

O que mais seduz os artistas no caso do TikTok são os números que uma música pode alcançar. Com lives que podem passar de 200 mil visualizações, os vídeos de desafios têm sido fundamentais para viralizar faixas e transformá-las em hits nos apps de música. Tanto é que o Spotify criou um uma prateleira chamada Viral Hits, com uma dezena de playlists oficiais para cada país; a global se chama Viral Hits, com mais de 1,5 milhão de seguidores. No Brasil, a playlist local dedicada ao TikTok ganhou o nome de Hits da Internet; e, na América Latina, existe a El Challenge. 

Apesar de ter essa base de usuários gigante, o fenômeno TikTok tem um desafio: mostrar que não é apenas uma plataforma para adolescentes que querem fazer coreografias e desafios. Para isso, eles têm trabalhado na “educação” de artistas de diferentes faixas etárias e campanhas de marketing para artistas de catálogo, como foi o caso de Gilberto Gil, que, aos 78 anos, fez uma bem-sucedida parceria recente com a plataforma de origem chinesa. 

Ao aliar essa estratégia com o movimento orgânico do revival de catálogo, o TikTok tem contribuído para um novo estouro de hits de outras décadas, como “Dreams”, do Fleetwood Mac, que chegou ao top 10 da Billboard mais de 40 anos depois de ter sido lançado. 

Se o TikTok está abraçando catálogo como prioridade, o Spotify precisa correr atrás. A plataforma não tem uma estratégia definida para trabalhar catálogo, o que é uma grande reclamação das majors. Por ora, os suecos seguem reforçando o slogan de que são uma plataforma de áudio, mais do que apenas de música, já que podcasts viraram a menina dos olhos da empresa. Mas será suficiente?

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