No

cias

Notícias

Pequenos e médios palcos de música: fórmulas para a recuperação
Publicado em: 29/03/2021

Evento internacional debate soluções para evitar a extinção em massa desses espaços formadores de público e mercado

Por Leo Feijó, de Londres*

Um elemento central no ecossistema da música e para a economia de muitas cidades corre um sério risco de desaparecer do mapa após a pandemia de Covid-19: é o circuito de casas de shows de médio e pequeno porte. Para debater o tema, a International Live Music Conference organizou o painel Grassroots: Route to Recovery, reunindo lideranças de associações de casas de shows, festivais regionais e pesquisadores de diversos continentes para analisar a situação.

A formação de organizações como MVT (Reino Unido), NIVA (Estados Unidos), Live DMA European Network (Europa) e Palcos do Rio (Brasil) e o crescimento das comunidades locais para apoiar esses espaços é um dos únicos aspectos positivos da pandemia. Durante a conferência, foi reforçado o discurso de que as soluções passam por medidas governamentais e fundos emergenciais adotados para impedir que a maioria desses espaços fechem as portas definitivamente. Também a cessão de prédios públicos ociosos para espaços de shows ao vivo, novos regimes de impostos para facilitar a proliferação de pequenos e médios palcos, o reforço nos eventos híbridos – com live stream monetizado e público presencial – e patrocínios de marcas e empresas foram algumas das soluções debatidas.

Não menos importante: os representantes das iniciativas presentes ao painel pediram implicação efetiva das grandes gravadoras e dos grandes serviços de streaming, através de ajudas diretas e mais oportunidades de parcerias, lançando uma ponderação mais do que pertinente: será que esses importantes players compreendem e valorizam os espaços de música ao vivo como vetor de inovação para todo o ecossistema?

LEIA MAIS: Indústria fonográfica mundial cresce 7,4% em 2020

LEIA MAIS: Tendências 2021: momento positivo para gravadoras e editoras

Segundo Audrey Fix Schaefer, diretora da NIVA (National Independent Venue Association), a associação dos espaços de shows independentes dos Estados Unidos, 90% dos palcos de música de médio e pequeno porte – e mesmo alguns palcos de grande porte – correm sério risco de não sobreviver. “O governo não está acostumado a oferecer prêmios para o setor cultural, em especial para palcos de música”, diz.

Um pacote de ajuda de US$ 1,25 bilhão em financiamento para casas de shows, dentro de um grande programa de estímulo de US$ 1,9 trilhão pensado pela administração de Joe Biden, chega tarde demais para muitos palcos, já fechados permanentemente. “É absolutamente devastador. Uma vez que eles afundam, não há volta. Os locais têm custos muito elevados com aluguel, e todo o sistema de som, luz e palco”, explica Audrey. “Ainda estamos aguardando nosso alívio de emergência aprovado em 27 de dezembro de 2020. Mas acabamos de saber que o processo de solicitação de subsídio será iniciado em 8 de abril. Nem um segundo antes”, lamenta.

No Reino Unido, 900 palcos unidos pressionaram o Governo

A articulação da associação Music Venue Trust (MVT) teve resultados positivos. Fundada em 2014, a rede britânica que reúne hoje 900 palcos de médio e pequeno porte anunciou uma taxa de sucesso fantástica, de 89%, para os palcos que se candidatam ao fundo de recuperação cultural. As medidas fazem parte de um pacote de estímulos econômicos ao setor cultural equivalente a US$ 2,1 bilhões, dinheiro que salvou milhares de teatros, clubes de comédia e locais de música do fechamento. Em dezembro, várias instituições importantes, incluindo o National Theatre e a Royal Shakespeare Company, também receberam empréstimos de longo prazo no pacote. Mesmo com a ajuda, já ocorreram cerca de quatro mil demissões apenas em museus britânicos e mais em outros setores.

Na Europa continental, políticas descentralizadas para cada país

Em outros países europeus, os pacotes de ajuda governamental variam de acordo com políticas locais. Anya Della Croce, representante da Petzi (associação de palcos e festivais de música na Suíça, com 200 membros) e integrante da rede Live DMA European Network – fundada em 2012 e que reúne 21 associações de palcos e festivais em 17 diferentes países – comentou que a falta de compreensão dos governos sobre o funcionamento e o valor social e econômico dos espaços de música e dos festivais dificulta a tomada de decisões.

“Alguns países têm um histórico melhor de hubs de subsídios, como França ou Holanda, mas, se pensarmos na Itália e na Espanha, eles quase não tiveram ajuda e estão em uma situação muito ruim no momento”, comenta Anya.

Talentos da música e técnicos migram para outros setores

As perspectivas na Suíça, onde as ajudas foram mais efetivas, apontam para uma sobrevida de palcos e festivais regionais, mas o impacto em todo o ecossistema será sentido. São artistas, técnicos e empresas que mudaram seus planos e seguem outros caminhos em busca de renda imediata, o que levará a uma perda de talentos e experiência. “Um ano depois, pode ser tarde para muitos deles”, resume a representante da Live DMA European Network.

Brasil: limite de R$ 30 mil para espaços culturais

Em junho, o Brasil aprovou a lei Aldir Blanc, um mecanismo que surgiu por iniciativa do Congresso, e não do governo, e que deverá aportar R$ 3 bilhões do Fundo Nacional da Cultura para apoiar instituições culturais e trabalhadores. O pagamento deveria começar em setembro, mas muitas cidades não tinham os instrumentos necessários ou não sabiam como distribuir dinheiro. Para que os recursos não fossem devolvidos à União, o prazo foi prorrogado para o exercício fiscal de 2021.

A Lei Aldir Blanc ofereceu recursos para artistas e demais trabalhadores da cultura e teve um impacto positivo, apesar de toda a burocracia. Para grupos artísticos e espaços culturais, contudo – incluindo casas de shows de pequeno porte – havia o limite de R$ 30 mil, além de editais para projetos culturais. “Algumas casas de show conseguiram acessar esse recurso. Mas demorou muito e é insuficiente”, comentou Pedro Azevedo, fundador e administrador da Audio Rebel, no Rio de Janeiro, que lamenta a falta de apoio do governo, mas comemora o apoio dos frequentadores do espaço. Com uso de plataformas de financiamento coletivo, foi possível manter a casa por enquanto.

Testes para a retomada

Em muitos países, sobretudo na Europa, alguns ensaios para a retomada vêm sendo levados a cabo em ambientes controlados para tentar alcançar uma fórmula para a retomada segura dos concertos ao vivo. Em Barcelona, na Espanha, um show da banda Love of Lesbian, no último sábado (27), reuniu 5 mil pessoas no Palau Sant Jordi, um amplo espaço fechado. Realizado com uma série de medidas, o teste poderá, se bem-sucedido, estabelecer padrões para o segmento das casas de shows.

Para começar, todos os presentes tiveram que fazer testes de antígenos na manhã do próprio show, e seis que deram positivo não puderam ir. Divididos em três zonas para pouco mais de 1.500 pessoas cada, os fãs não podiam circular por setores que não fossem os seus, mas não precisavam manter a distância de segurança em relação às pessoas do seu grupo. Todos tiveram que usar o tempo todo as máscaras FFP2, consideradas mais eficazes, e ninguém podia comer ou beber nada no espaço do show, com áreas anexas estritamente delimitadas para consumir alimentos e bebidas. O uso de álcool em gel constantemente era obrigatório.

Nos próximos dias, uma universidade espanhola que esteve ligada ao experimento monitorará os presentes para ver se alguém desenvolverá Covid e, em caso positivo, se o contágio se deu no concerto. 

*Leo Feijó, fundador de palcos e festivais no Rio, é jornalista e pesquisador, além de representante da rede Palcos do Rio. Foi um dos participantes do painel “Grassroots: Route to Discovery” durante a International Live Music Conference.


 

 



Voltar