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Show no exterior: você também pode fazer
Publicado em 26/05/2017

Festivais, apresentações 'solo' com organização e planejamento, investimento em contatos: veja o que dizem artistas e uma produtora sobre a melhor maneira de levar sua música lá para fora

Por Fabiane Pereira, de São Paulo

Engana-se quem pensa que fazer show fora do país é privilégio de músicos famosos ou contratados por grandes gravadoras. Resultados prévios de uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) sobre o perfil dos músicos no Brasil revelam que um impressionante número de 53% dos artistas já se apresentaram no exterior, em sua maioria na Europa e nos Estados Unidos. 

Sair em turnê internacional é o sonho de todo artista e, na maioria das vezes, uma grande realização. Afinal, é uma chancela à sua obra para além das nossas fronteiras. Com organização, tempo e investimento para fazer contatos e planejamento, é possível.

E começam com os preparativos.

Antes de embarcar, faça um planejamento financeiro detalhado que inclua custos com passagens aéreas, hospedagem, alimentação, deslocamento e que atenda às especificidades das nações que se quer visitar. Há algumas que exigem vacinas; outras, uma quantidade x de dinheiro diária para se manter ali; umas terceiras, seguros de saúde; se for ficar na casa de amigos em alguma etapa, pode ser preciso apresentar uma carta convite ao entrar no país. Parece trabalhoso, mas evitará a decepção de encerrar a turnê já na salinha da imigração. “Como farei uma série de apresentações com formato reduzido, voz e violão, farei a viagem sozinho. Mas não é coerente dizer que não conto com apoio de produção. Tenho uma equipe no Brasil e um agente em Portugal”, diz o associado César Lacerda, que embarca para uma miniturnê na Terrinha e destaca que fazer contatos é fundamental na hora dos agendamentos.

Peça ajuda aos fãs.

Chegou à conclusão de que não vai dar para pagar o deslocamento? Recorra à boa vaquinha virtual. O financiamento coletivo permitiu, por exemplo, aos associados dos Móveis Coloniais de Acaju tocar no Primavera Sound de Barcelona, em 2014. E é uma alternativa até mesmo para tocar em festivais, já que muitos deles bancam apenas as despesas locais, deixando de fora os deslocamentos intercontinentais. “Nas recompensas, camisetas, vinil especial, DVD, CD, jantar espanhol especial feito pelo Esdras, pelo Fuji e pela Mariana, uma festa com discotecagem com integrantes da Mobília...”, definiram os músicos.

Festivais: a melhor porta de entrada.

Para conseguir bons locais para se apresentar, é preciso ficar de olho na agenda dos festivais de música que acontecem, na maioria das vezes, nos Estados Unidos e na Europa. As relações humanas são fundamentais na hora de garantir um local para tocar. “Participe de encontros para fazer contatos, tenha relação com pessoas da área, faça parceria com alguma banda local mais conhecida”, sugere Paula Abreu, gerente de programação do SummerStage, festival que acontece anualmente nos Estados Unidos. Esta última tática foi a usada pelo Autoramas na sua primeira viagem ao exterior (mais especificamente, ao Japão), bancada inteiramente pela banda japonesa Guitar Wolf. Tiveram sorte, mas um empurrãozinho de um artista local, na forma de um show de abertura, por exemplo, sempre pode sair.

Prepare-se para passar perrengues.

Produtores são unânimes em definir: se a grana é curta, não espere nenhum luxo – é trabalho, mais que diversão. Pernoitar em hotéis mais modestos ou até na van que faz o deslocamento entre um país (ou cidade) e outro; não levar acompanhantes externos à banda; comer em lugares em conta; mapear e marcar shows em cidades vizinhas com antecedência; contatar a imprensa local para divulgar são requerimentos básicos. “Às vezes dá problema, às vezes tem coisas que não dão exatamente certo: atraso, cancelamento, cai a neve, milhões de coisas, e você está muito longe de casa e não tem a quem pedir socorro. Então, é uma aventura. A gente vai saboreando de acordo com o que vai acontecendo. As últimas turnês foram muito melhores que as primeiras. Fazer turnê longa é cansativo, estressante. É interessante fazer uma turnê curta, mas, por outro lado não banca a turnê. É o somatório de tudo que banca a empreitada inteira”, contou o associado Gabriel Thomaz, líder dos Autoramas, ao portal PontePlural.

Eu vendo, tu vendes, nós lucramos.

Outro aspecto importante, eles destacam, é levar material promocional (DVD, disco, caneca, camiseta) e não ter vergonha de vender no próprio local de show para descontar um pouco os gastos. Todo mundo faz, é simpático e ainda deixa uma lembrança física da sua passagem por outro país.


“Há interesse em nós lá fora”, afirma César Lacerda

O cantor e compositor mineiro radicado em São Paulo César Lacerda está de malas prontas para um giro por Portugal, país que recebe muitíssimo bem os músicos brasileiros. Ele conversou com a gente e conta mais detalhes desta preparação.

Como você se prepara para uma turnê internacional sendo um artista independente?

Na turnê que farei em breve, conto com uma equipe de produção no Brasil e um agente em Portugal. No entanto, como farei uma série de apresentações com formato reduzido, voz e violão, farei a viagem sozinho. Mas não é coerente dizer que não conto com apoio de produção. A lógica do mercado independente, hoje, envolve uma cadeia muito vasta de pessoas trabalhando, e em muitas frentes. E é muito errado que se pense o contrário. Ou que se divulgue o contrário. É bastante importante que se desvirtualize este mercado. Hoje em dia, se fala muito em micro e nanoempreendedorismo. O mercado de música independente tem essa característica. E, para que se continue crescendo nesta lógica, é importante que comecemos a falar sobre ela.

Como tirar o máximo de proveito de uma viagem (a trabalho) internacional? Você busca se conectar com artistas locais e estabelecer parcerias? 

O fato de haver um interesse grande em nós lá fora torna essas excursões, em geral, muito proveitosas. Mas eu tenho focado, pela questão específica da língua, no mercado português. Onde, além do interesse já citado, há um diálogo mais real e mais profícuo. Onde há uma cena de músicos, casas e agentes culturais, de fato, interessados em pensar numa lógica e em estratégias para se fortalecer este mercado de língua portuguesa.

Quais as maiores vantagens e desvantagens de se apresentar fora do Brasil? 

Há algo curioso aí. De certo modo, é mais possível, e até mesmo mais prático, agendar uma turnê na Europa do que no Brasil. E, nessa equação, nos valemos de muitas questões. Por exemplo, o preço das passagens e os custos da produção. O preço que se paga para viajar pelo Brasil é tão alto que, em muitos casos, inviabiliza excursões pelo país. É corriqueiro, dependendo do trajeto que se faça, encontrar bilhetes que custam valores correspondentes a uma viagem internacional. Ainda além, há a questão do interesse que se tem pelo artista internacional. Fora do Brasil, sobretudo na Europa e no Japão, os artistas brasileiros gozam de um prestígio muito grande. E é, portanto, recorrente encontrar lá fora terreno fértil para escoar a nossa produção. Por outro lado, essa evasão enfraquece o nosso mercado nacional. É importante que retomemos a discussão e as ações para fortalecer o nosso próprio mercado.


 

 



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