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César Lacerda à procura do pop perfeito
Publicado em: 28/11/2017

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Artista mineiro que acaba de lançar disco com direção artística de Marcus Preto fala sobre sertanejo, influências variadas e o chamado pop 'fofo', no qual diz militar com orgulho

Por Kamille Viola, do Rio

Com dois elogiados discos solo, além de outro ao lado de Romulo Fróes e um EP com o projeto Sonto, o cantor e compositor César Lacerda desejava mais: ele queria ser pop. Foi desse desejo que surgiu o álbum "Tudo Tudo Tudo Tudo", lançado no fim de outubro nas plataformas digitais, que em dezembro sai em CD e, no ano que vem, em vinil. Com direção artística de Marcus Preto e produção musical Elisio Freitas, o trabalho passeia por diversos estilos em suas dez faixas, das quais nove são assinadas pelo artista mineiro.

O conceito que norteou o disco surgiu de conversas com o diretor artístico (que trabalhou com Gal Costa em "Estratosférica" e Tom Zé em "Tribunal do Feicebuqui"), que ele conheceu no fim de 2015, em Belo Horizonte, durante o festival Cantautores. Ambos moraram em São Paulo e marcaram um almoço com o intuito de conversar sobre um show dedicado ao disco "Muito" (1978), de Caetano, que Lacerda queria que Preto dirigisse. "Acabou não acontecendo, mas ano que vem finalmente vai", comemora o artista. "Terminamos ficando muito amigos. Eu havia me mudado recentemente para São Paulo e tinha uma obsessão louca por conversar sobre os temas desse disco: o nascimento e a instauração do mercado de música indie e a questão estética que isso envolvia, que estava chegando ao fim. Isso nos levou a pensar nisso que se tornou o o álbum: a busca por uma música brasileira que alcance mais gente", explica Lacerda.

Entre as referências do disco, César Lacerda e Marcus Preto citam o pop nacional da passagem dos anos 80 para os 90 e Rita Lee. "Eu tenho a sensação de que uma referência muito clara para esse recorte de música pop da cena indie é a música brasileira dos anos 60 e 70. O que aconteceu em seguida é deixado um pouco de lado e até tido como algo esteticamente desinteressante. Artistas como Marina Lima, Lulu Santos, Herbert Vianna, Nando Reis e Adriana", analisa o artista. "Por outro lado, eu tentei trazer também o meu interesse por questões ultrapopulares. Por exemplo, 'O Marrom da Sua Cor', para mim, é um pagode do tipo que fazem Xande de Pilares, Arlindo Cruz, Dudu Nobre. Ao mesmo tempo, o disco tem umas coisas tipo fofolk, que é o encontro da MPB com o sertanejo", compara o cantor.

 

"O mercado de música brasileira hoje é deles (sertanejos), a MPB deveria aprender com eles."

Embora a delicadeza permeie todo o trabalho, ele passeia por uma diversidade de ritmos, como a bossa, o samba, o folk e o country. "O mundo indie, em geral, faz discos que têm uma unidade no sentido dos ritmos, porque basicamente se pensa assim: 'vou fazer o disco com uma banda, ela toca da primeira à ultima faixa, porque eu vou fazer ao vivo e tocar ipsis literis. Queria fazer um álbum como os de cantoras das década 70, que, na primeira faixa, têm uma orquestra, na segunda, uma banda de rock, a terceira é voz e violão, e por aí vai", enumera.

A escolha trouxe também um desafio: como reproduzir o álbum ao vivo? "Em junho, fiz oito shows de voz e violão em Portugal. Foi muito interessante, as pessoas me diziam que eu conseguia realizar a apresentação nesse formato de uma maneira muito rica. Então percebi que havia chegado o momento de fazer uma turnê assim, na qual eu pudesse esperar, primeiro, ir para muitos lugares. Depois, esse procedimento 'joãogilbertiano' me fez querer fazer um show no qual eu pudesse tocar as minhas músicas e também fazer releituras de gente que me interessa muito, como Alcione, Marília Mendonça, Ângela Ro Ro", explica Lacerda.

Por falar na cantora sertaneja, esse universo é algo que atrai o artista mineiro. "Para mim, é o assunto mais legal do momento. Nasci em Diamantina (MG), que tinha 40 mil habitantes, e as únicas coisas que uma criança fazia eram ir para a aula, brincar e ver televisão. A música sertaneja foi referência clara na minha vida, de ouvir na TV e ver meu pai ouvir em casa", comenta. "Eu fico inspirado porque, na verdade, o mercado de música brasileira hoje é deles, a MPB deveria aprender com eles", diz.

Além de ter gravado uma versão bossanovística de "Me Adora", sucesso de Pitty (primeiro single do trabalho), Lacerda também enveredou pelo chamado fofolk (folk fofo), na faixa "Quando Alguém", um dueto com Maria Gadú. "Para mim, ela é a grande cantora da minha geração", derrete-se. Ele reclama da implicância com a "fofura" no pop. "Quando o Cícero lançou o primeiro disco, o Jeneci, a Tulipa, tinha um pouco essa chatice de as pessoas dizerem que tinha música brasileira que era legal e outra que não era. E o que 'não era' legal era esse gênero, que hoje tem nomes como Anavitória, Roberta Campos, Ana Vilela. Eu continuo achando que tem um acento superlegal. De certo modo, a MPB que está falando para muita gente é a que se aproximou do aspecto da doçura. Eu acho que o 'fofo' é ótimo... a fofura (é otima), quando quer designar esse aspecto de doçura", reflete.

"Eu acho que o 'fofo' é ótimo... a fofura (é otima), quando quer designar esse aspecto de doçura."

Aliás, ele garante não ter problemas se sua música for rotulada assim. "Quando o Caetano dá aquela entrevista ao 'Vox Populi' [em 1978] e perguntam: 'O que é curtir? Agora você vai entrar nessa de que curtir é legal, quando a gente está na ditadura?' Não significa que, porque a vida está uma merda, a gente precisa fala só sobre isso. A gente pode ser o contrário do lado de fora. Se 'fofo' for o contrário do que está aí, então minha música é fofa, sim", diverte-se. No texto de apresentação do trabalho, o escritor português Valter Hugo Mãe concorda: "César Lacerda é uma arma contra toda a atrocidade. Sua candura não é inocente, é sábia. Ele deita por sobre nós inteligência profunda: afeto e esperança."

 

 



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