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Oportunidades do audiovisual atraem nomes de peso do mercado à Casa UBC
Publicado em: 16/05/2018

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Evento sobre produção de música para filmes, séries e novelas integrou a série UBC Sem Dúvida; reveja como foi

Por Christina Fuscaldo, do Rio

A UBC promoveu semana passada um rico debate sobre a produção, a criação e as regras para o uso da música em audiovisual, um setor em franca expansão no país, onde já representa nada menos do que 60% da arrecadação com execução pública. Em mais uma edição do evento UBC Sem Dúvida, realizado entre terça e quinta-feira (8 e 10/05), a sede nacional da associação, no Rio, abrigou uma série de debates comandados por nomes de peso do mercado da música. A ideia era esclarecer dúvidas e inspirar profissionais que desejam atuar na área, de suculentos investimentos bilionários anunciados para os próximos anos.

Passaram pela Casa UBC profissionais de produção e de criação de música original para novelas, filmes e séries, além de especialistas na parte financeira e nos rendimentos. 

“O mercado nunca viveu um momento como esse. A maior parte da distribuição está ligada ao audiovisual, seja através da TV, do cinema e de streamings, como o Netflix. A gente sabe que esse coletivo vai crescer. O Brasil é audiovisual por natureza, e a UBC não pode se ausentar dos debates”, disse o diretor-executivo da UBC, Marcelo Castello Branco, na abertura do evento.

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O foco de terça-feira, dia 8 de maio, foi produção com curadoria e parceria do Iatec. Com mediação do produtor musical Ricardo Moreira, Sérgio Nogueira (CEO da Blue Bird Estúdio), Manoel Tavares (sonoplasta da TV Globo) e Sérgio Rocha (técnico em eletrônica e sonoplasta da RIT TV) conversaram sobre suas funções. Os três divertiram a plateia ao contar agruras pelas quais passaram. Manoel Tavares, por exemplo, viu um equipamento dar defeito justamente no momento em que Roberto Carlos entraria no palco para apresentar seu número em uma edição do programa “Criança Esperança”; ele mudou rapidamente a forma de transmissão para o espectador de casa não ficar sem o áudio, mas quem não ouviu nada foi a plateia presente. Já Sérgio Rocha contou o drama que técnicos vivem às vésperas das estreias das novelas, quando o diretor encomenda dezenas de coisas — num prazo mínimo. 

"Não tenho preconceito com nada. Para mim, tanto uma orquestra quanto o midi são instrumentos."

Daniel Figueiredo, compositor de música original para audiovisual

Na segunda rodada, Daniel Figueiredo e Júlio César, que trabalham juntos, apresentaram um panorama do ponto de vista de quem produz trilhas.  “Quer fazer trilha? Primeiro, vá ser sonoplasta, para aprender a ajudar e não a atrapalhar”, comentou Daniel, indicando que há um caminho a percorrer para chegar aonde ele está, e ressaltando a importância da abertura da mente neste tipo de trabalho. “Não tenho preconceito com nada. Para mim, tanto uma orquestra quanto o midi são instrumentos”. Apoiado pelo parceiro Júlio César, ele ainda lembrou que é preciso amar o que faz: “Só chega ao pico do Everest quem gosta de escalar. O dinheiro vem por consequência.”

Agora, uma coisa é certa: o mercado audiovisual está repleto dele. É o que lembrou Elisa Eisenlohr, gerente de comunicação da UBC e organizadora do evento. "A produção audiovisual brasileira vive um momento importante. Nos últimos anos, o setor teve um grande crescimento e, para somar e dar mais impulso a este movimento, MinC e Ancine anunciaram investimento de R$ 471 milhões no setor ainda este ano. Isso tudo gera oportunidades também para a música, e queremos compartilhar este conhecimento com todo o setor para capacitar e fomentar também o setor musical", ela afirmou. "No que toca à execução pública, a Netflix fez sua primeira distribuição dos direitos das músicas usadas ali, ano passado. Foram quase R$ 40 milhões. Quase todas as operadoras de TV aberta e por assinatura estão adimplentes com o Ecad, assim como a maior parte das redes de cinema. É um panorama animador para os titulares."

 

A EXPERIÊNCIA DE FERNANDO MOURA

Na quarta-feira, dia 9 de maio, o compositor Fernando Moura, um dos principais autores de música original para audiovisual em atividade no país, comandou a abertura do evento e mediou um painel intitulado “Transpiração e inspiração”, em que foram debatidos desafios, práticas cotidianas e métodos de trabalho de criadores. Participaram Antônio Pinto, Flávia Tygel, Mú Carvalho e Zé Ricardo, contando suas experiências como produtores de trilhas sonoras. “Eu estou sempre em busca de um sentimento que toque o cliente. Uma vez, fiz uma versão de uma canção que o diretor queria, mas cuja autorização de uso do fonograma original não tinha conseguido. Quando vi que ele chorou, entendi que (a adaptação) tinha dado certo”, lembrou Zé Ricardo. Na mesma rodada, Luiz Vidal (produtor executivo na Hungry Man), Marcel Klemm (gerente musical da TV Globo) e Vinicius Reis (diretor e roteirista) falaram desde a perspectiva de quem contrata as trilhas para televisão e cinema. 

"Temos que nos despir de nossos gostos e nos colocar à disposição da arte."

Marcel Klemm (TV Globo)

“Não tem música ruim. Eu não escolho música para mim. Eu escolho para a história. Se a gente levar em consideração os nossos gostos pessoais… Temos que nos despir de nossos gostos e nos colocar à disposição da arte”, disse Marcel Klemm, que ainda falou do balanço entre o novo e o antigo nas trilhas das novelas: “Na Globo, a gente tem duas missões, que são complementares e antagônicas. A gente tem obrigação cultural de ser espelho do Brasil, tendo que ser curador desse espelho. Ter essa coragem de tentar apresentar o novo é importante. É maravilhoso ter Caetano, Gil, Gal, Bethânia, e, sempre que puder, vamos tentar colocar. Até porque, para parte da população, isso também é novo. Mas uma coisa não pode ser em detrimento da outra. A música não pode canibalizar a si própria.”

Flávia Tygel reforçou essa ideia: “Compositor de música para imagem tem esse dever. O diretor fica apreensivo, muitas vezes. Às vezes, não se arrisca nem no volume da música. Mas o compositor precisa ter essa coragem e apresentar alternativas. Em um documentário que estou apresentando, tem a Gal, mas cheguei à conclusão de que queria Ana Cañas também, que é nova. Música para a imagem tem um papel educativo.” 

"O diretor fica apreensivo, muitas vezes. Mas o compositor precisa ter essa coragem e apresentar alternativas."

Flávia Tygel

A última jornada, realizada na quinta-feira, 10 de maio, foi voltada para os rendimentos. O advogado Daniel Campello, o presidente da Pro-Música, Paulo Rosa, e as especialistas Michaela Couto, da União Brasileira de Editoras Musicais (Ubem), Daniela Colla, da Associação Brasileira de Música Independente (ABMI), e Ana Cristina Falcão, da Fermata, abordaram temas sobre sincronização de obras em produções audiovisuais e os caminhos da arrecadação de direitos autorais. Com mediação de Raquel Lemos, a conversa foi toda sobre licenciamento. “A Ubem é uma associação de editoras de música com cerca de 57 associadas, contando majors e editoras de artistas. Ela coordena a operacionalização dos acordos com as emissoras de TV”, explicou Michaela Couto.

Nesta última rodada, a mediadora falou que sincronização é para cinema, TV, games, streaming, qualquer conteúdo visual que tenha a música em seu contexto. E lembrou que a distribuição do Ecad em 2017 foi de R$ 1,082 bilhão, dos quais 55% estiveram atrelados à TV aberta, à TV fechada e ao cinema (se somado Netflix, alcançam-se 60%). Um mercado que, se bem trabalhado, como se vê, tem grande chance de dar em final feliz.

 

EXPLICAÇÕES DETALHADAS

Fechando o evento, no último dia, Fabio Geovane, gerente de operações da UBC, explicou o funcionamento da distribuição de direitos autorais de músicas usadas em produtos audiovisuais. Ele lembrou que os sucessivos acordos com canais de TV aberta celebrados pelo Ecad nos últimos anos deram um peso ainda maior a esse segmento. "Quase todas as TVs abertas estão pagando. A única exceção é a Band, que está inadimplente. Entre as fechadas, todas estão pagando", lembrou.

Ele falou sobre a diferença entre a distribuição direta, quando todas as músicas captadas são contempladas na distribuição (caso da TV aberta ou do cinema) e indireta, quando se baseia em amostragem (TV fechada). E comemorou o acordo fechado ano passado com a Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinetográficas Operadoras de Multiplex (Abraplex). "Foi algo em torno de R$ 70 milhões, e eles ainda passaram a pagar normalmente, exceto a maior rede, Cinemark. Era um litígio que se arrastava havia 15 anos. Agora, a importância do cinema deve crescer muito nas distribuições."

Outra boa notícia comentada por Geovane foi o fim do chamado cable retransmission, que a gente já explicou na edição 34 da Revista UBC. O mecanismo, adotado internacionalmente num tempo em que era complicado aferir a autoria das canções executadas em canais estrangeiros, vai mudar em novembro. Antes, todo o dinheiro da execução pública desses canais era enviado para as suas sedes, lá fora. Agora, com a melhoria na identificação, os autores nacionais receberão aqui mesmo os seus pagamentos. "A gente mudou isso", celebrou o gerente de operações da UBC, reforçando a importância do preenchimento correto dos cue-sheets, as folhas com todas as informações sobre as músicas usadas nas obras, para o bom funcionamento da nova regra. 

 

INFORMAÇÃO, DIVERSÃO E ARTE

Evento na Casa UBC não poderia terminar sem um sonzinho sequer. Por isso, Louiz Carlos da Silva, filho de Zeca Pagodinho, promoveu uma edição da sua roda de bambas Identidade Samba no happy hour do dia 9 do UBC Sem Dúvida. Com apresentação de Júlio Estrela, o momento descontraído teve participações de Moacyr Luz, Nego Álvaro e Mingo Silva, que falaram sobre criação e carreira. Eles, claro, também cantaram muitos clássicos, colocando todos os presentes para sambar. Clique aqui e reveja a roda. E confira o álbum de fotos completo do evento na nossa página no Facebook. 


 

 



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