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Coronavírus: artistas em compasso de espera. E de reflexão
Publicado em 22/04/2020

Mariana Aydar, Fernanda Takai, BNegão e Hamilton de Holanda compartilham conosco um pouco da sua rotina e dos seus projetos de curto prazo nestes tempos de confinamento

Por Alexandre Matias, de São Paulo

Mariana Aydar. Foto de Autumn Sonnichsen

 

A música foi a primeira atividade a suspender seus trabalhos quando a pandemia ainda era incerta, sacrificando shows para dar exemplo e conscientizar seu público muito antes de restaurantes e hotéis fecharem de gestores públicos decretarem confinamento. A despeito do seu pioneirismo, os músicos ainda estão sem perspectivas claras de curto e médio prazo e aproveitam este momento para balanços individuais. 

“Minha rotina está, na verdade, bem mais organizada do que antes”, resume a cantora paulistana Mariana Aydar. “Estava trabalhando muito, não conseguia ter tempo para estudar, ficar com a música nesse estado mais puro, de investigação, de composição, dos instrumentos. Também tinha pouco tempo com minha filha, para olhá-la com calma, educá-la com tempo. Estou numa rotina frenética de cuidados domésticos, lavando, passando, cozinhando, cuidando da minha filha, fazendo as lições da escola online e dando esse tempo para a música. Uma grande lição de prioridades.”

Fernanda Takai, vocalista do grupo mineiro Pato Fu, também aproveita o momento doméstico. "Não foi tão difícil porque nossa família é pequena e muito caseira. Estou lendo mais. Exercitando a não pressa", explica. Ela já tinha planejado gravar um novo disco solo neste semestre, o que mantém-se fazendo, uma vez que tem um estúdio em casa e mora com o produtor do disco, o marido e guitarrista do Pato Fu, John Ulhoa. “E tem o trabalho de casa, limpeza e cozinha. Gosto de cozinhar, então essa é uma parte que não dói. Nossa filha está estudando remotamente todas as manhãs. Moramos numa casa com jardim grande, gato e cachorros, temos ainda uma sensação de liberdade pelo contato com a natureza."

“Todo dia eu toco, não parei. Na verdade, acho que hoje estou melhor que há um mês, um ano atrás.”

Hamilton de Holanda

O rapper carioca BNegão também aproveita a introspecção. “A parte da quarentena que é treta é não fazer shows, viajar, encontrar com as pessoas, uma rotina de que eu gosto bastante. Mas eu sou bem eremita e estou tendo a oportunidade de exercitar minha ‘eremitice’. Tem sido muito bom, por esse lado. Lógico que o lado financeiro fica todo lascado, mas ficar em casa, para mim, é bom, porque normalmente nunca fico.”

BNegão. Foto de Felipe Diniz

 

O músico carioca Hamilton de Holanda também está nessa. “Vou vivendo um dia depois do outro, criando atividades diariamente para seguir em frente e, quando virar esse jogo, vou estar bem em forma, tanto física quanto psicologicamente. Porque, quando acabar essa parada, eu sinto que vem muita coisa positiva. Normalmente é assim, depois de uma queda vem uma subida. Me mantenho ativo e me adapto ao que está acontecendo diariamente.”

A parte física da rotina é uma preocupação de alguns deles: BNegão e Fernanda não fazem nenhuma atividade específica (Fernanda fala em “subir e descer as escadas de casa e não exagerar na comida”), mas Mariana e Hamilton conciliam a atividade física com estudos musicais. 

“Estou tendo tempo para estudar muito mais do que antes, fazendo aulas online de canto, baixo, violão e zabumba, estudando para valer e tentando ficar aberta para a composição, mas ela tem que vir do lugar certo, não pode ser ânsia para produzir”, alerta Mariana. 

Fernanda Takai. Foto de Fabiana Figueiredo

 

“Todo dia eu toco, não parei. Na verdade, acho que hoje estou melhor que há um mês, um ano atrás”, completa Hamilton. “Estou sempre buscando aprender mais, isso significa que a música é infinita. A sua mente expande, e você abre novas possibilidades como ser humano e como profissional também.”

Todos já fizeram lives, alternativa onipresente para a maioria dos músicos no mundo. “Já tinha feito live mesmo antes da quarentena, mas estava há um tempo parado”, explica Hamilton. “Para mim, é uma experiência fantástica: além de eu ver as pessoas bem, ouvindo a música ali, vendo que a música está sendo feita na hora, eu também me sinto superbem, porque de alguma maneira preenche o buraco de não estar fazendo o show. Isso já me alimenta bastante.”

"Estava trabalhando muito, não conseguia ter tempo para estudar, ficar com a música nesse estado mais puro."

Mariana Aydar

BNegão concorda: “Fiz umas quatro ou cinco lives. Tem sido bem legal, uma energia de show, tirando a movimentação de palco, mas dá uma galera, as pessoas gostam.” 

Mariana fez duas e cancelou uma terceira. “Não estava dando conta de cuidar de casa, filha e cachorro sozinha e, ainda, organizar a live, não tinha energia. Acho muito importante estar bem para tocar numa live, sinto essa responsabilidade”, explica, lembrando que também fez uma transmissão ao vivo compartilhada com Roberta Sá, bem no início da reclusão. “Para mim, é um ato de compartilhar, botar o meu dom para jogo, trazer um cafuné para as pessoas nessa hora tão confusa. A arte nesse momento se mostra como alimento para a alma, tanto para quem faz quanto para quem recebe.”

"Estou lendo mais. Exercitando a não pressa."

Fernanda Takai

Fernanda, que fez a primeira live nesta terça (21), comenta: “Engraçado as pessoas pedirem até live do 'Música de Brinquedo', que tem dois DVDs maravilhosos disponíveis online. Para ter aquela magia dos instrumentos pequenos e dos bonecos, precisamos de, no mínimo, dez pessoas”.

Além de Fernanda, que produz mais um disco solo, BNegão também está finalizando o novo disco do Planet Hemp: “Faltam as vozes, esta semana o Marcelo (D2) coloca as deles e, depois, eu coloco as minhas”, lembrando que também deve soltar algumas músicas e colaborações que já estavam sendo feitas, além de ativar a loja de merchandising online. 

Hamilton de Holanda. Foto de Rafael Silva

 

Todos estão confusos sobre os próximos passos, uma vez que nada está definido em diversos planos. “Sinceramente, não sei. Estou ainda no susto do que está acontecendo, tentando entender, vendo que existe um propósito muito maior, profundo e espiritual em tudo isso”, define Mariana. “Não consigo muito pensar no meu trampo. Me preocupa o coletivo, me preocupa ver que esse vírus vai chegar às favelas, aos moradores de rua, uma solidariedade abriu no meu peito de uma forma diferente. Quero conseguir ajudar de alguma forma mais prática. Deixar a neura da sua carreira de lado é um exercício importante neste momento.”

Hamilton completa: “Estou vivendo um dia após o outro, tentando melhorar o contato com meus alunos online, fazendo conexões com amigos do exterior. Agora, em abril, como tem o dia do choro, dia 23, vou fazer uma programação especial. Em 2020, completo 20 anos com meu primeiro bandolim de dez cordas, também vai ter uma programação especial na internet. Um dia após o outro, uma semana após a outra, sem grandes planejamentos. Mas consciente de que o que eu faço hoje terá um bom reflexo nos próximos meses.”

"Fiz umas quatro ou cinco lives. Tem sido bem legal, uma energia de show."

BNegão

 

 


 

 



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