No

cias

Notícias

Como foi recriado o ‘Álbum branco’, de João Gilberto, ícone da bossa
Publicado em 14/10/2021

Celebrado disco de 1973 ganha tributo com regência e arranjos vocais de Paulo Malaguti, lançado pela Mills Records

Por Kamille Viola, do Rio

O artista em 1973, quando o icónico álbum foi lançado. Arquivo/Reprodução da TV

Um dos álbuns mais celebrados de João Gilberto, o disco homônimo de 1973, também chamado de “Álbum branco” (em referência ao clássico dos Beatles, por conta da capa branca), ganha tributo do coral Cant’duRio. Lançado pela Mills Records, “Na onda de João 73” conta com regência e arranjos vocais de Paulo Malaguti ‘Pauleira’, fundador do Céu da Boca e do Arranco de Varsóvia, além de integrante do MPB4.

Carlos Mills, fundador da Mills Records, celebra o projeto:

“O João é um gênio, daqueles que só nascem, talvez, a cada século. Um artista sensacional. E eu acho o Pauleira um artista de extremo bom gosto e um dos arranjadores mais talentosos que a gente tem na música brasileira hoje”, elogia.

“João Gilberto” (1973) se destaca por seu minimalismo: além da voz e violão do artista, traz apenas uma delicada percussão tocada pelo estadunidense Sony Carr e a participação de Miúcha (em “Izaura”), com quem o baiano era casado à época, além de Herivelto Martins e Roberto Roberti. Duas faixas, na verdade, sequer voz têm: “Na Baixa do Sapateiro", de Ary Barroso”, que ganhou versão instrumental, e “Valsa (Como São Lindos os Youguis) (Bebel)”, composição do próprio João.

A engenharia de som e a mixagem ficaram a cargo da americana Wendy Carlos (que estava em processo de transição de gênero e aqui assina W. Carlos), pioneira da música eletrônica e importante compositora, autora de trilhas de filmes como “Laranja Mecânica” (1971) e “O Iluminado” (1980).

Se nos trabalhos anteriores do artista os compositores da bossa nova dividiam espaço com os sambistas tradicionais, aqui eles quase não estão presentes. Apenas Tom Jobim, em “Águas de Março”, então recém-lançada por ele no disco “Matita Perê” (e que ganharia sua versão mais célebre no ano seguinte, em “Elis & Tom”), que abre o disco.

Dois célebres discípulos de João, contudo, aparecem: Caetano Veloso (“Avarandado”) e Gilberto Gil (“Eu Vim da Bahia”). Além dos já citados sambas “Izaura” e “Na Baixa do Sapateiro”, o artista regravou “Falsa Baiana” (Geraldo Pereira), “Eu Quero um Samba” (Janet de Almeida e Haroldo Barbosa) e “É Preciso Perdoar” (Alcivando Luz e Carlos Coqueijo). Compositor de poucas obras (são apenas 11 conhecidas), aqui João Gilberto assina duas faixas: “Valsa” e “Undiú”, que não têm letra, mas têm vocais.

Filha de João Gilberto e de Miúcha, Bebel Gilberto ganhou uma faixa em homenagem a ela no álbum, “Valsa (Como São Lindos os Youguis) (Bebel)” e engrossa o coro de admiradores do trabalho. “Amo esse disco, é um clássico. Acho tudo o que está no álbum maravilhoso, as gravações, as interpretações... Para mim é uma fonte de inspiração até hoje”, derrete-se.

Ela aplaude a iniciativa de regravar as canções de João Gilberto:

“É muito importante que a obra do papai seja divulgada, dividida, compartilhada, que esteja disponível em todas as plataformas digitais”, defende. “Que haja filmes, documentários, para que as pessoas também possam conhecer seu lado pesquisador e entender o quanto ele se preparava, incansavelmente, o quanto estudava e seguia reinterpretando as canções, como quando me pediu para escutar o ‘jeito certo’ de cantar ‘Wave’, depois de mais de 30 anos. O meu maior desejo é que todas as gerações mais novas possam se deliciar com arte dele, que sem dúvida alguma foi um artista que se dedicou de corpo e alma à música”, diz.

As capas da edição original e da releitura. Reproduções

O minimalismo do “Álbum Branco” traz uma sensação de intimidade, de proximidade com o artista.

“Como esse álbum é só de violão e percussão, você chega muito próximo da voz do João, do jeito dele. Esse álbum me encantou e, até hoje, é o que eu mais ouço do João, que eu conheço profundamente”, diz Paulo Malaguti.

“É um disco central na carreira do João. Ele praticamente parou de usar acompanhamento, só o violão dele já estava ótimo. Tem um repertório brilhante, uma amostra, um panorama de MPB, de sambas escolhidos pelo João que viraram clássicos desse álbum — curiosamente, eu sou do MPB4, e quem lançou ‘Izaura’ foi o grupo, em 1966. Esse disco é importantíssimo”, analisa.

A origem do tributo é o show “João Gilberto 73 e afins”, de 2015, em que as dez músicas do álbum branco se juntaram a outras que tivessem a ver com o universo do baiano, como “Uva de Caminhão”, de Assis Valente, e “Provei”, de Noel Rosa. Paulo Malaguti lembra que havia vários desafios para transpor o álbum para as vozes do coral, como, por exemplo, as duas faixas instrumentais. Em algumas músicas, ele buscou respeitar o estilo do Pai da Bossa Nova. Já em outras, se deu mais liberdade.

“Por exemplo: achei que ia ser interessante o coro — mesmo em uníssono, sem abrir muito a voz — cantar ‘Águas de março’ naquela divisão ‘maluca’ do João, que é um negócio que vai atropelando o violão, os compassos vão passando por cima. A gente deu um duro desgraçado pra aprender isso. E também em ‘Undiú’ e ‘Na Baixa do Sapateiro’, eu procurei manter a atmosfera do João, aquele negócio meio sussurrante dele — que parece que é sussurrante, mas soa alto às pampas — e emular aquela coisa com as vozes”, explica. “Em outras, falei: ‘Vou viajar aqui.’ Em ‘Falsa Baiana’ eu fiz uma maluquice: a música vai modulando, vai passando por mil tonalidades. Em ‘Izaura’, em que ele fez de um samba antigo uma bossa nova, eu fiz um samba rápido, correndo, como se fosse um jazzão, um bebop daqueles bem rápidos”, descreve.

A ideia do disco surgiu logo em seguida, e ele ficou pronto em 2017, quando João Gilberto ainda estava vivo. No entanto, o lançamento esbarrou em questões burocráticas.

“Fazer o clearance desse repertório não é algo trivial. Prova disso é que você não vê outros artistas lançando ele. Até onde é do meu conhecimento, não há outra releitura desse ‘Álbum branco’, que é um disco tão conhecido e bem falado do João. Principalmente porque existem duas músicas nele que são de autoria do João. Se você procurar no Spotify, nem o original está lá. Então, quando o Pauleira me apresentou esse projeto, eu não tinha ideia se seria viável lançá-lo comercialmente ou não”, lembra Mills.

“Duas pessoas foram importantíssimas para nos ajudar a lançar esse projeto: Marilene Gondim, empresária da Bebel Gilberto, e Silvia Gandelman, advogada que trabalha na área de direito autoral há muito tempo, da Copyrights”, recorda ele.

LEIA MAIS: João Gilberto, 90 anos: o intérprete que compôs todo um gênero

LEIA MAIS: Bebel Gilberto: "Eu acho que criei uma marca, um nome, um som"


 

 



Voltar