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O que é que essas baianas têm
Publicado em: 05/01/2018

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Voz, talento, composições engajadas e misturas sonoras sofisticadas marcam a nova e florescente geração de cantoras do estado nordestino

Por Luciano Matos, de Salvador

Foto (ao lado, da cantora Larissa Luz): Juan Rodríguez

O Brasil vive a explosão de uma nova e excelente safra de cantoras, e a Bahia não é exceção. Nem é novidade o aparecimento de mulheres intérpretes por aqui, tradição que inclui Maria Bethânia e Gal Costa e passa por todas as gerações da axé music — de Margareth Menezes e Daniela Mercury a Ivete Sangalo e Claudia Leitte. Seguindo a lógica atual, agora, no entanto, elas são mais do que intérpretes: elas cantam, compõem, produzem e tocam com o mesmo talento. Nomes como Larissa Luz, Lívia Nery, Josyara, Luedji Luna, Lívia Matos, Aiace Félix, Neila Kadhí e Jadsa Castro estão entre as que dão nova cara à música Bahia do século XXI.

Com dois discos já lançados e preparando o terceiro, que sairá pela Natura Musical, Larissa Luz é uma das pontas de lança dessa turma. Misturando beats com ritmos afros, ela faz um pop brasileiro, que tem também no discurso um dos trunfos, com letras que tratam do empoderamento negro e feminino. Larissa chama atenção também no palco, como fez nos vários festivais de que participou em 2017, por aliar sua música com uma forte voz e perfomances com coreografias e dançarinas.

A cantora Luedji Luna. Foto de Tássia Nascimento

Outro nome que vem se destacando é mais nova e teve um 2017 ainda mais marcante. Filha de professores, Luedji Luna estudou para ser cientista e funcionária pública, mas a música foi mais forte. Se mudou para São Paulo para apostar na carreira e, em 2017, passou a chamar atenção. Primeiro foi um clipe com música que fala da diáspora atual e da vida dos imigrantes na maior cidade brasileira. Daí em diante foram só conquistas: ganhou o Prêmio Afro, que garantiu a gravação e o lançamento do primeiro disco; venceu como artista revelação o Prêmio Caymmi, na Bahia; e acabou sendo uma das selecionadas no edital da Natura. Sua música incorpora ritmos africanos, baianos, jazz e MPB a temas às vezes densos, como racismo e chacinas de jovens negros, mas com uma leveza quase sacra no cantar.

A terceira contemplada do edital da Natura pela Bahia em 2017 foi outra das novas cantoras do estado. Josyara é de Juazeiro e traz seu sotaque do sertão, na voz, no marcante violão e em muitos dos temas de suas composições. Inspirada por nomes como Cátia de França, Caetano e Belchior, ela prepara seu segundo álbum. Entre o estúdio e a estrada, Josy mantém a carreira no eixo Salvador-São Paulo e numa vida itinerante, com direito a rodar o Nordeste e o Sudeste dentro de um carro, apresentando-se por várias cidades.

Josyara: turnê de carro pelo Nordeste e o Sudeste 

Lívia Nery navega por outras praias. Com uma pegada mais eletrônica, ela faz uma espécie de trip hop tupiniquim, um pop soul eletrônico, cruzando tudo com música brasileira, dub e reggae. Além de cantora e compositora, Lívia é multi-instrumentista e, em muitos dos seus shows, apresenta-se sozinha controlando sua produção de beats, loops, samples e efeitos. Por enquanto, só lançou os singles "Vulcanidades" e "Garota Multicor", mas já deu o que falar como uma das atrações do festival Radioca e do Projeto Pulso, da Redbull, em 2016.

A fértil cena de cantoras na Bahia tem ainda Aiace Félix, que se divide entre a banda Sertanília e o trabalho solo, pelo qual lançou seu primeiro disco em 2017. Situação parecida à de Lívia Mattos, instrumentista de mão cheia, que mostra destreza tocando sua sanfona com Chico César e em seu primeiro trabalho solo, no qual também canta, compõe e trilha um caminho de sonoridades universais.

Lívia Nery: multi-instrumentista, apresenta-se sozinha frequentemente controlando tudo

Ana Luísa Barral e Alexandra Pessoa são outros nomes com disco novos lançados, enquanto Neila Kadhí prepara o seu primeiro, a exemplo das novatas Jadsa Castro e Nara Couto. Quando alguém repetir os versos perguntando “O que é que a baiana tem?”, é bom incluir na resposta tudo que essas moças carregam: canções, belas vozes, talento e muita competência.


 

 



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