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Sinestesia, VJs e o Massive Attack: a música visual e até tátil
Publicado em: 03/12/2018

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Grupo de trip hop britânico “imprime” disco em forma de tinta spray e brinca com a ideia do som e dos acordes imortalizados em um suporte físico

De São Paulo

Que a música pode ser — e propiciar — uma grande viagem todo mundo já sabe. Mas tem uma turma que leva essa ideia ao pé da letra e tem promovido uma série de experimentos para pôr à prova os limites dessa arte, cruzando-a a outras e provocando muita discussão. É o caso da banda britânica Massive Attack, que chega aos 30 anos de existência cruzando como poucas as fronteiras do que é sonoro e do que é visual. 

Para começar, especula-se há anos, sem provas, que Robert Del Naja, líder do quarteto de trip hop surgido na cidade inglesa de Bristol, é a mente genial por trás do mais famoso e anônimo grafiteiro do mundo: Banksy. Também conhecido como 3D, Naja sempre teve envolvimento com a cena de rua de Bristol, lugar ao qual se atribui a origem de Banksy; tem os mesmos interesses contraculturais e o mesmo desprezo por governos e pela ordem econômica internacional; e algumas das poucas pessoas que conhecem o grafiteiro já teriam deixado escapar que se trata de Robert. 

Talvez contribua ainda mais para a lenda o formato escolhido para o mais recente lançamento do Massive Attack: em forma de tinta spray. Trata-se, claro, de uma provocação, uma brincadeira da banda destinada a ressignificar a música, dando-lhe um caráter físico, por assim dizer. O processo não foi menos “viajandão”: todos os acordes das músicas do clássico álbum “Mezzanine”, de 1998, foram transformados em filamentos de DNA através de uma transposição numérica que compara as sequências do ácido base da vida às notas musicais. De posse, então, desse “DNA” sintético, a empresa britânica TurboBeads o imprimiu em forma de tinta. 

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“Um stream digital do álbum (formado pelos números 0 e 1) foi traduzido para 901.065 sequências de DNA (A, C, T e G), cada uma com 105 caracteres. As 901.065 sequências foram, então, sintetizadas em um processo químico, resultando em uma amostra sintética de DNA que representa o álbum”, tenta explicar o físico Robert Grass, responsável por levar a ideia adiante a pedido do Massive Attack. 

O "disco" Mezzanine do Massive Attack: DNA sintético e tinta spray

Cada lata, alegam os músicos, contém o equivalente a mil cópias do disco sintetizadas na tinta. “É uma forma criativa de armazenar o seu catálogo, espalhando a mensagem. Apesar de eu achar que tinta em spray com o DNA de um disco não vai se popularizar entre artistas de rua que querem permanecer anônimos”, disse 3D, numa irônica referência às suspeitas de que seria Banksy. 

"Qualquer ação que estabeleça pontes entre diferentes artes e entre estas e a ciência vale muito. Assim, a cultura, a nossa percepção e tudo à volta têm possibilidades de crescer e avançar. Mesmo que, acionando o spray, a música não saia dele, essa ação entre artistas e cientistas é muito importante e muito boa", opina Chiara Banfi, artista plástica, monitora da iniciativa ASA (Arte Sonora Amplificada), ligada à aceleradora de música e inovação LabSônica, do Oi Futuro.

Ela própria criou séries de obras que transgridem as noções de sons e objetos aparentemente estáticos e silenciosos. Investigadora de pedras, cristais, seixos e quartzos, Chiara identificou as frequências e vibrações de diversos deles — "tudo inaudível para nós, mas muito presente" — a partir da constação, maravilhada, de que tais minerais são fundamentais na atual cultura digital, nos aparelhos eletrônicos que cercam nosso dia a dia. "Numa das séries, pus em contato um quartzo da Bahia com uma obsidiana do México, as conectei por um cabo RCA como se fossem sintetizadores, sugerindo sonoridade."

Sons contidos em pedras podem até ser fáceis de assimilar. Mas e o som das cores? Não, não se trata de viagem astral à Massive Attack. Pelo menos não para uma em cada mil pessoas no mundo com sinestesia, uma característica cerebral — não um distúrbio nem nada do gênero — que mistura estímulos visuais e sonoros, conferindo sons às cores, e vice-versa. Funciona assim: a visualização do vermelho poderá trazer à mente determinados acordes ou até músicas inteiras. O azul, outros. E assim por diante. 

Um dos trabalhos da série "Confluências", de Chiara Banfi

Não é delírio; segundo a ciência, a pessoa de fato ouve aquilo. E o contrário também é verdadeiro: ou seja, estar numa sala de concerto, com os olhos fechados, pode ser a mais colorida e lisérgica experiência para um sinestésico. 

“O vermelho soa a dó. O azul, a sol. O preto é silêncio”, descreve Ruth Rubio, uma espanhola que realizou um documentário sobre o tema e que foi acompanhada por cientistas da Universidade de Granada para tentar entender os processos mentais responsáveis por esse cruzamento peculiar. “Um sinestésico escuta cores, vê sons, sente o gosto de cheiros, sente música (na pele)... Há mais de cem combinações possíveis”, afirma a psicóloga Alicia Callejas, integrante de um grupo de pesquisa de neurociência cognitiva da universidade, referência mundial no estudo desse fenômeno cerebral. Como conta Ruth, só há uma situação em que a sinestesia pode provocar verdadeiramente más experiências: numa boate, com toda a confusão de sons e cores característica. 

Para evitar sensações como vertigens e confusão mental, ela diz evitar ir às apresentações de VJs. Também passa longe de certos videogames. A sinestesia deliberada, ou seja, a transformação de espectros sonoros em cores correspondentes é cada vez mais utilizada nas apresentações de artistas sonoro-visuais e nos jogos eletrônicos. 

Designer de movimento e VJ, o mineiro Picles é um dos grandes nomes brasileiros dessa transposição de sons a imagens no universo da música eletrônica. Ele usa softwares para traduzir as batidas e os acordes da música em cores e imagens, inseridos em perfeita sincronia, criando uma ideia de conjunto sensorial que amplifica a experiência de quem está numa pista de dança. “Um audiovisual de qualidade torna a experiência muito mais imersiva para o espectador. Em 2015, fizemos uma apresentação com o artista 4i20. Produzimos um motion graphics com as letras das músicas. Parte do público parou para filmar o telão na hora do vocal, foi uma experiência bem interessante que me fez olhar com mais carinho para esse tipo de trabalho”, contou Picles ao portal medium.com.

Na arte, há muitos exemplos de criadores que, historicamente, discorreram sobre o som das cores ou a imagem das notas musicais. O expressionista russo Kandinsky, com seus ensaios sobre o tema, é um dos exemplos mais famosos. Mas, nem de longe, único. A música de Debussy perseguia um efeito sinestésico ao evocar movimentos e cores da natureza. “No movimento 'Reflexo da Água' , da partitura de 'Images', de 1905, as linhas melódicas não são melodias no sentido individual e seguem traços pictóricos que formam grupos, texturas, configurações, atmosferas: os arcos melódicos que estruturam esta peça musical evocariam a fluidez do movimento da água, porque são recorrentemente ondulares”, compara o pesquisador Cláudio Henrique Brant Campos, da PUC-SP. 

Esse “transformar em algo diferente”, no século XXI, está na base de muitos videogames, que usam camadas sonoras para transmitir sensações visuais. “O jogo eletrônico oferece o meio ideal para a experiência sinestésica. É a sinestesia como expressão artística”, afirma Vicente Farias, pesquisador de linguagem e tecnologia na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. 

"Child of Eden": no jogo, cores, sons, texturas e formas geométricas se misturam

Ele menciona o caso do jogo “Child of Eden”, desenvolvido pelo japonês Tetsuya Mizuguchi em 2011, no qual o jogador tem como objetivo invadir um computador para impedir que uma inteligência artificial fora de controle provoque destruição. “Todas as ações são sincronizadas com a música, de forma que o jogador tem interferência direta na trilha sonora. As cores intensas e formas geométricas do ambiente dialogam com a música. Inclusive vê-se a representação das ondas sonoras da trilha”, descreve Farias numa análise. Para ele, o movimento é sem volta e influenciará irreversivelmente a criação artística no futuro. “(Trata-se de) um modelo no qual o conhecimento técnico e artístico dialoga constantemente, utilizando-se de diversas áreas de conhecimento simultaneamente. Não há como dissociar arte e tecnologia”, conclui.


 

 



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